O Filho que Eu Perdi e o Rosto no EspelhoAnos depois, aquele garoto no parque, com seus mesmos olhos e sorriso, me fez duvidar de tudo o que acreditava sobre aquele dia.

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Julguei ter enterrado um dos meus filhos gémeos no dia em que nasceram. Cinco anos depois, um instante singelo num jardim infantil desmoronou tudo quanto eu pensava compreender sobre aquela perda.

Chamo-me Lara. O meu filho, Simão, tinha cinco anos quando o meu mundo, silenciosa e irreversivelmente, se transformou.

Cinco anos antes, tinha entrado em trabalho de parto com a expectativa de levar para casa dois rapazinhos.

A gravidez fora difícil desde o início. Às vinte e oito semanas, fui obrigada a repouso absoluto por causa da tensão arterial elevada. O meu obstetra, o Dr. Almeida, lembrava-me sempre: “Tem de manter a calma, Lara. O seu corpo está a dar o máximo.”

Segui todas as indicações. Tomei todas as vitaminas, não faltei a uma única consulta, fiz tudo o que me disseram. À noite, repousava as mãos sobre a barriga e sussurrava: “Aguentem-se, meninos. A mãe está aqui.”

Eles chegaram três semanas antes do previsto. O parto foi caótico e aterrorizante. Lembro-me de ouvir alguém dizer: “Estamos a perder um”, antes de tudo mergulhar na escuridão.

Quando acordei horas depois, o Dr. Almeida estava junto à minha cama, com uma expressão pesada.

– Lamento muito, Lara – disse suavemente. – Um dos gémeos não sobreviveu.

Só me recordo de ter visto um bebé: o Simão.

Disseram-me que houvera complicações. Que o irmão do Simão nascera sem vida. Estava demasiado fraca para questionar seja o que fosse. Uma enfermeira guiou a minha mão trémula para assinar papéis que nem sequer li.

Nunca contei ao Simão sobre o seu gémeo. Convenci-me de que o estava a proteger. Como se coloca um peso desses no coração de uma criança?

Em vez disso, canalizei tudo o que tinha na sua criação. Amei-o com uma ferocidade que julgava impossível.

Criámos pequenas tradições – especialmente os nossos passeios dominicais pelo jardim perto do nosso apartamento. O Simão gostava de contar os patos junto ao lago. Eu gostava de o observar, com os seus caracóis castanhos a saltar ao sol.

Aquele domingo pareceu igual a todos os outros.

O Simão tinha acabado de fazer cinco anos. Estava na idade dos monstros debaixo da cama e dos astronautas nos sonhos. A sua imaginação não tinha limites.

Passávamos pelos baloiços quando ele parou de repente, de tal forma que quase lhe bati.

– Mãe – disse baixinho.

– Que foi, meu amor?

Ele olhava fixamente para o outro lado do parque infantil. A sua voz era segura. – Ele estava na tua barriga comigo.

O meu estômago contraiu-se. – O que é que disseste?

Ele apontou.

No baloiço mais distante estava um rapazinho a impulsionar-se com as pernas. O seu casaco era demasiado fino para o frio, gasto e manchado. As calças de ganga tinham rasgões nos joelhos. Mas nada disso importava.

Era o seu rosto.

Caracóis castanhos. A mesma curva das sobrancelhas. A mesma forma do nariz. O mesmo hábito de morder o lábio inferior quando estava concentrado.

No queixo tinha uma pequena marca de nascença em forma de lua crescente.

Idêntica à do Simão.

O chão pareceu afastar-se debaixo de mim.

Os médicos tinham tido a certeza. O seu gémeo tinha morrido.

– É ele – sussurrou o Simão. – O rapaz dos meus sonhos.

– Simão, isso é um disparate – disse, embora a minha voz vacilasse. – Vamo-nos embora.

– Não, mãe. Eu conheço-o!

Antes que eu o pudesse impedir, ele correu.

O outro rapaz olhou para cima quando o Simão se aproximou. Ficaram frente a frente, a observar-se. Depois, o rapaz estendeu a mão. O Simão tomou-a.

Sorriram exactamente no mesmo instante – com a mesma curva na boca.

Forcei-me a caminhar na direcção deles.

Uma mulher estava por perto, a observar. Na casa dos quarenta, olhos cansados, postura defensiva.

– Com licença, senhora, isto deve ser um equívoco – comecei cuidadosamente. – Desculpe, mas as nossas crianças são incrivelmente parecidas…

Ela virou-se para mim.

E eu reconheci-a.

O tempo tinha adicionado linhas suaves em redor dos seus olhos, mas eu conhecia aquela cara.

A enfermeira.

Aquela que tinha segurado a minha mão enquanto eu assinava aqueles papéis.

– Conhecemo-nos? – perguntei lentamente.

– Acho que não – respondeu ela, mas o seu olhar desviou-se.

Mencionei o hospital onde tinha dado à luz os meus gémeos.

– Trabalhei lá, sim – admitiu.

– Estava lá quando eu tive os meus gémeos.

– Encontro muitos pacientes.

– O meu filho tinha um gémeo. Disseram-me que ele tinha morrido.

Os rapazes continuavam de mãos dadas, a sussurrar como se sempre se tivessem conhecido.

– Como se chama o seu filho? – perguntei.

Ela engoliu em seco. – Elias.

Abaixei-me e ergui suavemente o queixo do rapaz. A marca de nascença era real.

– Que idade tem ele? – perguntei, levantando-me.

– Porque quer saber? – respondeu ela, defensiva.

– Está a esconder-me algo – disse baixinho.

– Não é o que pensa.

– Então diga-me o que é.

Os seus olhos percorreram o jardim infantil. – Não devíamos falar disto aqui.

– Não é você quem decide. Deve-me respostas.

– Eu não fiz nada de errado.

– Então porque é que não me olha nos olhos?

– Fale mais baixo.

– Não nos vamos embora até explicar porque é que o meu filho é exactamente igual ao seu.

Ela exalou lentamente. – Está bem, ouça, a minha irmã não podia ter filhos. Tentou durante anos, mas nada resultou. Isso destruiu-lhe o casamento.

– E?

– Meninos, vamos sentar-nos ali nos bancos. Fiquem aqui onde vos podemos ver.

Todo o meu instinto me avisava para não confiar nela. Mas eu precisava da verdade.

– Se fizer alguma coisa de suspeito – avisei –, vou à polícia.

– Não vai gostar do que vai ouvir.

– Já não gosto.

Sentámo-nos no banco. As suas mãos tremiam.

– O seu parto foi traumático. Perdeu muito sangue. Houve complicações.

– Eu sei disso. Eu vivi-o.

Ela engoliu em seco. – O segundo bebé não nasceu morto.

O mundo inclinou-se.

– O quê?

– Era pequeno. Mas respirava.

– Está a mentir.

– Não estou.

– Cinco anos – sussurrei. – Todo este tempo deixou-me acreditar que o meu filho estava morto?

Ela olhou para a relva. – Eu disse ao médico que ele não tinha sobrevivido. Ele confiou no meu relatório.

– Falsificou registos médicos?

– Convenci-me de que era uma misericórdia. Você estava inconsciente, fraca e sozinha. Não havia parceiro nem família na sala. Pensei que criar dois bebés a ia partir.

– Você não teve o direito de decidir isso!

– A minha irmã estava desesperada. Implorou-me que a ajudasse. Quando vi a oportunidade, disse a mim mesma que era o destino.

– Roubou-me o filho.

– Dei-lhe um lar.

– Roubou-o.

Ela finalmente olhou para mim. – Pensei que nunca iria descobrir.

O meu coração batia com força.

O Simão e o Elias baloiçavam lado a lado. E, subitamente, as coisas começaram a fazer sentido – o Simão a falar a dormir como se alguém lhe respondesse.

– A minha irmã ama-o – sussurrou. – Ela criou-o. Ele chama-lhe mãeAtravés das lágrimas, estendi a minha mão à mãe que o tinha criado, e juntas, naquele escritório silencioso, começámos a traçar um novo caminho para os nossos filhos, um caminho que, finalmente, os levaria a casa.

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