A Inês pensou que podia livrar-se da única coisa que me restava da minha falecida mulher, sem imaginar que, ao acordar, eu entregaria a minha casa ao canil que salvou o meu cão.
Dizem que a alma de uma casa se reconhece pelos sons que a habitam. Para mim, a música do meu lar sempre foi o ritmado “toc-toc” das unhas do Hércules no soalho de madeira e a sua respiração ofegante, como um fole de couro, a descansar aos pés da minha cama. Hércules, um Dogue Alemão de sessenta quilos, não era um cão; era o último suspiro da minha mulher, a Cláudia, que, antes de morrer, me fez prometer que cuidaríamos um do outro.
Quando acordei do coma depois daquele acidente que quase me apagou do mapa, a primeira coisa que procurei na penumbra da UCI não foi a mão da minha irmã, a Laura, mas a memória do calor do meu cão.
— O Hércules? — balbuciei, entre tubos.
— Está tudo bem, Roberto. Está no jardim, à tua espera. Descansa — respondeu a Laura com um sorriso perfeito, aquele sorriso que hoje sei ser o de um abutre à espera que o corpo acabasse de arrefecer.
No dia em que me deram alta, o ar parecia diferente. Cheguei à minha casa — a propriedade que eu paguei com anos de luto e trabalho — apoiado em muletas que pareciam lembrar-me da minha fragilidade. Mas ao cruzar a soleira, o silêncio atingiu-me como um segundo camião. Não houve ladrados. Não houve um empurrão afetuoso de sessenta quilos que quase me deitasse abaixo. Não havia nada.
O jardim, antes salpicado de buracos e brinquedos roídos, estava impecável. Demasiado impecável. Parecia o catálogo de uma revista de jardinagem barata. Na varanda, a Laura e o Estéban brindavam com vinho. O meu vinho.
— Onde é que ele está? — perguntei, e a minha voz soou como gravilha a ser arrastada.
A Laura suspirou com uma teatralidade que me deu náuseas.
— Ai, mano… aconteceu uma tragédia. Ficou agressivo. Tinha tantas saudades da Cláudia que perdeu a cabeça. Um dia simplesmente saltou a vedação e fugiu. O Estéban andou à procura dele durante dias, não foi, meu amor?
O Estéban anuiu sem me olhar nos olhos, concentrado na sua copa.
— Sim, uma pena. Mas olha pelo lado positivo, Roberto: agora podes recuperar em paz. Sem pelos, sem cheiro a animal, sem essa sujidade. Na verdade, já estamos a planear colocar uma piscina ali onde ele costumava escavar. Para a família aproveitar, tu sabes.
Naquela noite, o vazio no meu peito era mais doloroso do que as fraturas nas minhas pernas. Fui ver a Dona Rosa, a minha vizinha de sempre. Ela sempre me olhou com uma mistura de ternura e pena.
— Roberto, meu filho… eles não o procuraram — disse-me, entregando-me uma pen com as gravações das suas câmaras —. A tua irmã dizia que um cão tão grande era “antiestético” para a casa que eles já sentiam como sua.
No vídeo, vi a cena que me perseguirá até à cova: o Estéban a arrastar o Hércules pela coleira. O meu cão, o meu gigante nobre, resistia, procurava com o olhar a janela do meu quarto, chorando um gemido surdo que o vídeo não captou, mas que eu consegui sentir nos meus ossos. Meteram-no na carrinha como se fosse lixo. Deitaram-no na estrada velha, à sua sorte, a um cão que só conhecia o calor de uma alcatifa e o amor de uma carícia.
Encontrei-o num canil nos arredores. Estava magro, com as costelas marcadas como as teclas de um piano triste e uma pata enfaixada. Quando me viu, não saltou. Arrastou-se na minha direção, pousou a cabeça no meu colo e soltou um suspiro que parecia dizer: “Porque demoraste tanto?”.
Naquele momento, o Roberto que acreditava na família morreu. Nasceu um homem que entendeu que o sangue só serve para manchar, mas a lealdade é um pacto sagrado.
Não voltei para casa com o Hércules de imediato. Deixei-o na clínica para recuperar totalmente. Eu tinha outro tipo de “limpeza” para fazer.
No domingo, a Laura e o Estéban tinham organizado um churrasco. Tinham convidado os seus amigos “finos” para exibir a casa que já davam como herdada. Já tinham marcado com cal no relvado o contorno da sua futura piscina.
Entrei no jardim. O silêncio apoderou-se do lugar.
— Roberto! — gritou a Laura —. Não nos avisaste! Estávamos a celebrar a tua nova vida.
— Têm razão — disse, sentando-me com dificuldade mas com uma calma gelada —. Vamos celebrar. Tomei uma decisão sobre a propriedade.
Os olhos do Estéban brilharam com a ganância de um animal rasteiro.
— Ah, sim? Vais colocar-nos nas escrituras? Sabes que nós tratámos da casa enquanto estavas… ausente.
— Cuidaram da casa, mas esqueceram-se de cuidar daquilo que eu mais amava — atirei uma pasta para cima da mesa —. Aqui está o vídeo de vocês a arrastarem o Hércules. E aqui está o relatório veterinário da sua desidratação.
A Laura ficou da cor da cinza.
— Foi para o teu bem, Roberto…
— Não falem. Ouçam — interrompi —. Esta manhã assinei um documento de Doação com Usufruto Vitalício. Doado esta casa legalmente à Fundação “Patinhas ao Resgate”.
— O quê? — gritou o Estéban —. Estás louco! Esta casa vale uma fortuna!
— Para mim não vale nada se não houver amor dentro dela — continuei, com um sorriso mordaz —. O trato é simples: eu posso viver aqui até morrer, mas o dono legal é o canil. E como parte do acordo, amanhã às oito da manhã, o jardim transforma-se num centro de reabilitação para cães de grande porte.
Olhei para a minha irmã, que parecia prestes a colapsar.
— Vão chegar vinte cães, Laura. Vinte “Hércules” cheios de pelos, cheiro a cão e ladrados. Como vocês são meus convidados — porque tecnicamente são ocupantes sem contrato —, dou-vos exatamente duas horas para porem as coisas no caminho antes de chegarem as carrinhas com as jaulas e os voluntários.
— Sou tua irmã! Não podes deixar-me na rua por um animal! — rugiu ela.
— Tu deixaste um membro da minha família numa estrada escura para morrer sozinho — levantei-me, apoiado na minha muleta, com mais força do que nunca —. Tu não me deixaste sem cão. Tu ensinaste-me quem eram os verdadeiros animais nesta casa.
Eles foram-se embora entre insultos e lágrimas de impotência, carregando as suas malas para um futuro de rendas que não podem pagar, enquanto os amigos que tinham convidado se escapuliam envergonhados.
Hoje, o jardim não tem uma piscina de cristal. Tem um circuito de obstáculos, relvado pisado por patas felizes e um coro de ladrados que devolve a vida às paredes. O Hércules dorme ao meu lado, a recuperar o peso e a confiança.
Às vezes, as pessoas perguntam-me se não fui duro demais com a minha própria família. Eu olho para elas, acaricio as orelhas aveludadas do meu cão e respondo:
“A família não é a que partilha o teu ADN, é a que não te abandona quando o teu mundo fica às escuras.”