A caixa de lata parecia pequena demais para conter o peso que encheu a sala de repente.
Estavas sentado em frente a Jacinto Peres com as mãos a envolverem uma chávena de barro com caldo quente, a ver o vapor a erguer-se entre vós como uma cortina fina. A Violeta dormia perto da lareira, enrolada na manta às riscas, os lábios já não azuis, o seu pequeno peito a levantar e a baixar com um ritmo frágil que temias acreditar.
Jacinto colocou a caixa no centro da mesa.
Dentro estavam oitenta e seis euros embrulhados num pano, uma fita azul desbotada, um papel dobrado e gasto nas dobras, e um envelope com o nome do teu pai escrito a tinta, com pressa.
A tinta da tua mãe.
Reconheceste-a antes de Jacinto dizer uma palavra.
A tua garganta apertou-se de tal forma que mal podias engolir.
“A minha mãe escreveu isto?”
Jacinto acenou afirmativamente.
“Ela deu-mo na última vez que a vi.”
Olhaste fixamente para o envelope.
A lareira crepitou.
Lá fora, o vento arrastava as suas garras pelas paredes da cabana.
“Quando?”, perguntaste.
Os olhos de Jacinto moveram-se na direção da Violeta, depois de volta para ti.
“Duas semanas antes de ela morrer.”
A chávena tremeu nas tuas mãos.
Tinham-te dito que a tua mãe morrera subitamente, que a febre depois do parto a levou antes que alguém percebesse a gravidade. O teu pai repetira-o com a voz vazia de um homem que não suportava detalhes. A Bernardina dissera mais tarde que a Rosária estivera fraca, que algumas mulheres simplesmente não eram feitas para vidas duras.
Mas duas semanas antes de morrer, a tua mãe tinha caminhado até ao meio do bosque para dar uma carta a este velho.
Uma mulher supostamente demasiado doente para se levantar.
Estendeste a mão para o envelope.
A mão de Jacinto fechou-se suavemente sobre a tua.
“Ainda não.”
Olhaste para ele, surpreendido.
O seu rosto estava grave.
“Depois de leres, não podes desler. E se voltarmos para o teu pai sem pensar, a Bernardina destruirá o que a tua mãe tentou salvar.”
O som do nome dela fez o calor da sala encolher.
Viste-a na tua mente exactamente como a tinhas deixado: parada na entrada, com uma mão no trinco, a ver-te tropeçar na tempestade com a Violeta nos braços. Sem correr atrás de ti. Sem chamar o teu pai. Sem te atirar um casaco.
Só a observar.
Como se o frio estivesse a fazer uma tarefa que ela tinha sido demasiado respeitável para acabar.
“O que é que está lá dentro?”, murmuraste.
Jacinto recostou-se.
“A verdade.”
Odiaste essa resposta.
Os adultos adoravam palavras como verdade quando não queriam dizer dor.
Olhaste para a Violeta outra vez.
“Ela quase morreu hoje.”
“Sim.”
“Porque a Bernardina trancou a despensa.”
O maxilar de Jacinto apertou-se.
“Ela fez mais do que trancar uma despensa.”
Os teus olhos voltaram-se rapidamente para ele.
“O que queres dizer?”
Ele ficou calado durante um longo momento.
Depois pegou no papel dobrado da caixa e espalhou-o na mesa. Não era uma carta. Era um mapa, desenhado com linhas cuidadosas, com medidas, marcas de árvores e um esboço aproximado das terras do teu pai.
Reconheceste o riacho.
Os pinheiros negros.
A encosta por trás da casa onde a tua mãe costumava secar as mantas no verão.
Jacinto bateu com o dedo numa secção marcada perto da nascente.
“Estas terras não são só do teu pai.”
Franziste a testa.
“O quê?”
“A tua mãe herdou parte delas do seu próprio pai. A nascente, o pasto inferior e a crista arborizada. Deviam passar para ti e para a Violeta se alguma coisa lhe acontecesse.”
Olhaste fixamente para o mapa.
Ninguém te tinha dito isso.
Nem o teu pai.
Nem a Bernardina.
Nem os homens da serração que vinham falar de negócios à mesa da cozinha.
A tua mãe tinha terras.
A tua mãe, que remendava as tuas mangas até o tecido mal aguentar a linha. A tua mãe, que estendia o feijão com água. A tua mãe, que recusava moedas a um moribundo porque dizia que a morte não devia ser taxada.
Ela era dona da nascente.
Da crista.
Do pasto.
Olhaste para Jacinto.
“Então porque é que a Bernardina age como se tudo fosse dela?”
O seu rosto escureceu.
“Porque alguém quer que assim seja.”
Percebeste antes de querer.
O filho da Bernardina.
Os irmãos dela.
Os homens que vinham quando o teu pai estava fora, sentados com demasiada à-vontade perto do fogão, falando em vozes baixas sobre licenças de madeira e dívidas.
O teu pai acreditava que a casa era pobre.
Mas talvez a pobreza não tivesse apenas acontecido.
Talvez tivesse sido planeada.
Jacinto levantou o envelope.
“A tua mãe sabia que alguém estava a tentar ficar com as terras. Ela acreditava que o teu pai estava a ser enganado. Pediu-me para guardar isto com segurança porque tinha medo que papéis dentro de casa desaparecessem.”
O teu peito doía.
“Ela não disse ao Papá?”
“Ela tentou.”
Lembraste-te do teu pai a chegar a casa exausto, a Bernardina a sussurrar números no seu ouvido, a tua mãe a tossir na sala ao lado. Lembraste-te de discussões atrás de portas fechadas. Lembraste-te de uma noite em que a tua mãe chorou, não alto, mas de uma forma que fez a casa sentir vergonha.
Jacinto deslizou o envelope para mais perto.
“Isto era para ele.”
Tocaste no nome do teu pai.
A tinta tinha desbotado, mas as letras ainda pareciam vivas.
“Porque não lho deste?”
Jacinto fechou os olhos.
“Eu vim depois de ela morrer. A Bernardina atendeu a porta.”
Um arrepio percorreu-te que não tinha nada a ver com a tempestade.
“Ela disse-me que o teu pai tinha saído para o trabalho e não voltaria durante semanas. Disse que quaisquer papéis para ele podiam ser deixados com ela.”
“Não o fizeste?”
“Não.”
“Porquê?”
Ele olhou para o fogo.
“Porque ela estava a usar a fita azul da tua mãe.”
O teu olhar caiu sobre a fita na caixa.
Desbotada.
Cuidadosamente guardada.
“Da minha mãe?”
Jacinto acenou afirmativamente.
“A Rosária usava-a no cabelo na noite em que me ajudou. Quando vi a Bernardina a usar outra igual, a sorrir demasiado, soube que a dor não tinha entrado naquela casa como devia.”
Não percebeste totalmente a frase, mas o teu corpo sim.
Algumas casas choram.
Algumas casas substituem.
A tua tinha sido substituída antes de acabar de chorar.
Jacinto pegou na fita e colocou-a ao lado da carta.
“A tua mãe deu-me esta com a caixa. Disse que se alguém dissesse que ela tinha concordado em vender a nascente, eu devia levar a fita e os papéis ao Senhor Estêvão.”
O teu estômago embrulhou-se.
“Quem é o Senhor Estêvão?”
“O notário da vila. Velho, teimoso, meio-cego, mas honesto quando suficientemente assustado.”
Quase te riste, mas não conseguiste.
A Violeta mexeu-se perto do fogo.
Ergueste-te demasiado depressa, quase caindo, e cruzaste a sala até ela.
Os seus olhos abriram-se a medo.
“Já estamos em casa?”, murmurou ela.
A tua garganta fechou-se.
AjoDe joelhos, com as mãos cheias de terra fria ao lado da campa de tua mãe, prometeste que a sua fita azul nunca mais seria esquecida.