A chuva de verão batia suavemente nas janelas da Pastelaria Rosa, um lugar acolhedor no coração do Baixa de Lisboa. Lá dentro, a luz quente dos candeeiros iluminava um espaço onde o aroma do café acabado de moer se misturava com o cheiro dos pastéis de nata ainda quentes. No meio do movimento da hora de almoço, Inês Matos estava à entrada, com a sua filha de cinco anos, Beatriz, a agarrar-lhe a mão.
A roupa estava levemente molhada do aguaceiro, e as tranças loiras de Beatriz pesavam com a água da chuva. “Mamã, estou com fome”, sussurrou a menina, puxando a manga da mãe.
Inês percorreu o espaço com o olhar. Todas as mesas estavam ocupadas, exceto uma no canto, onde um homem de fato cinzento, impecavelmente cortado, estava sozinho, concentrado no seu portátil. O cabelo escuro tinha alguns fios grisalhos nas têmporas, e a expressão severa fez Inês hesitar.
“Só um minuto, querida”, disse, ajustando a sua pasta gastinha onde levava o currículo e o portátil.
Tinha acabado de sair de mais uma entrevista de emprego dececionante, a terceira naquela semana. Com a renda a vencer em cinco dias e pouco mais do que o suficiente na conta para as compras, não podia pagar uma refeição numa pastelaria daquela categoria. Mas a Beatriz precisava de almoçar, e o temporal lá fora não dava sinais de abrandar.
Inspirando fundo, Inês aproximouse da mesa. O homem não ergueu o olhar quando ela parou à sua frente, os dedos a moverem-se rapidamente no teclado.
“Desculpe”, disse Inês, a voz quase abafada pelo ruído ambiente do café. “Posso partilhar esta mesa?”
Ele olhou para cima, os seus olhos azuis penetrantes a encontrarem os dela com surpresa ligeira. O seu olhar desviou-se brevemente para Beatriz, semiescondida atrás das pernas da mãe, e depois de volta para Inês. Por um momento, pareceu estar a calcular algo.
“Só se eu pagar a conta”, respondeu, a voz profunda carregada de autoridade.
Inês corou. “Não é necessário. Nós pagamos a nossa refeição.”
“Insisto”, disse ele, fechando o portátil e estendendo a mão. “Gonçalo Silva.”
Inês hesitou antes de a apertar. “Inês Matos. E esta é a Beatriz.”
Gonçalo fez sinal para as cadeiras vazias. “Por favor, juntem-se a mim.”
Com relutância, Inês ajudou Beatriz a sentar-se e sentou-se em frente a ele. Aceitar a oferta dele parecia uma desvantagem, mas o orgulho não dava de comer à sua filha.
Uma empregada aproximou-se. Gonçalo pediu um café para si e perguntou o que elas queriam.
“Nuggets de frango e sumo de laranja, por favor”, disse Beatriz.
“Eu quero só uma salada pequena”, acrescentou Inês, escolhendo de propósito um dos itens mais baratos.
Gonçalo ergueu uma sobrancelha. “Acrescente uma tosta mista ao pedido da senhora.”
“Eu não pedi uma tosta”, disse Inês.
“Parece-me que precisa de mais do que uma salada”, respondeu Gonçalo, de forma pragmática. “A entrevista não correu bem?”
Inês ficou tensa. “Como é que—”
“A pasta do portátil. Roupa formal um pouco gasta para quem já tem emprego. O ar de desilusão.” Encolheu os ombros. “É o meu negócio ler as pessoas.”
“E que negócio é esse, exatamente?”
“Dirijo a Silva & Filhos.”
Inês reconheceu o nome. A Silva & Filhos era uma das maiores empresas de construção civil do país. Era dona de metade dos edifícios de escritórios em Lisboa, incluindo o prédio onde ela tinha acabado de ser entrevistada.
“É aquele Silva?”
“O próprio.”
Beatriz, que tinha estado a observar em silêncio, falou de repente. “A minha mãe é a melhor designer gráfica do mundo inteiro.”
A expressão de Gonçalo suavizou-se ligeiramente. “A sério?”
“Ela faz desenhos bonitos para o computador, mas ninguém a quer contratar porque são estúpidos.”
“Beatriz”, repreendeu Inês, embora com um sorriso.
“Bem, acho que as pessoas que não contrataram a tua mãe cometeram um erro”, disse Gonçalo, depois olhou de novo para Inês. “Design gráfico? Qual é a sua especialidade?”
“Identidade visual e design UI/UX. Trabalhei para a Lobo e Costa durante cinco anos antes de terem feito cortes no inverno passado.”
Reconhecimento brilhou nos seus olhos. “Eles fizeram trabalhos impressionantes. Tem amostras consigo?”
A comida chegou antes que ela pudesse responder. Beatriz focou-se imediatamente nos seus nuggets. Inês pegou na sua pasta e tirou o tablet.
“Estes são alguns dos meus projetos recentes.”
Gonçalo percorreu o seu portfólio com atenção intensa. Inês estudou-o. Apesar da sua presença intimidante, havia um cansaço à volta dos seus olhos, talvez solidão. A aliança que ela tinha notado mais cedo parecia gasta e ligeiramente larga.
“Isto é muito bom”, disse ele, parando numa campanha de rebranding para uma cervejaria local. “Muito bom. Como é que ainda não foi contratada?”
“O mercado é competitivo. E tenho limitações de horário. Mãe solteira.” Acenou em direção a Beatriz.
Gonçalo acenou com a cabeça. “Não lhe ofereceram horários flexíveis?”
“A maioria dos sítios quer alguém no escritório das nove às seis. O ATL é caro, e o pai da Beatriz não faz parte da nossa vida.”
Uma sombra passou no seu rosto. Ele olhou para o seu relógio caro, depois para a janela, onde a chuva começava a abrandar.
“A Silva & Filhos está a lançar uma nova subsidiária focada em projetos de habitação sustentável”, disse ele. “Precisamos de uma identidade visual distinta, separada do nosso trabalho corporativo. O nosso departamento de marketing é adequado, mas este projeto precisa de uma perspetiva fresca.”
Inês pousou o garfo. “Está a oferecer-me um emprego, Engenheiro Silva?”
“Estou a oferecer-lhe a oportunidade de apresentar uma proposta. Temos entrevistas com empresas de design na próxima semana. Posso adicioná-la à agenda.”
A esperança cresceu, temperada pela cautela. “Porque faria isso?”
Ele olhou para Beatriz. “Digamos que tenho um fraco por mães solteiras determinadas.”
Entregou-lhe um cartão de visita. “Quarta-feira, às 14h. Pergunte por mim na receção.”
Quando ela o pegou, os seus dedos roçaram nos dele. Ele pediu a conta.
“Não me agradeça ainda”, disse ele. “Vai estar a competir com empresas estabelecidas. O campo de jogo não é nivelado.”
“Nunca é”, respondeu Inês. “Mas nunca deixei que isso me parasse.”
Enquanto ele pagava, Inês reparou que ele observava Beatriz com algo entre tristeza e saudade.
“Tenho de ir”, disse ele.
“Nós também”, respondeu Inês.
Ele hesitou, depois escreveu algo no verso de outro cartão. “Este é o meu número pessoal. Caso tenha perguntas.”
Quando ele se virou para sair, Beatriz correu à volta da mesa e abraçou-lhe as pernas.
“Obrigada pelos nuggets, Engenheiro Silva.”
Ele gelou, surpreendido. Por uma fração de segundo, a sua expressão composta quebrou-se, revelando uma emoção crua. Depois, acariciou-lhe a cabeça, desajeitadamente.
“De nada, Beatriz.”
Quando ele saiu, Inês sentiu que aquele encontro iria levar a algo mais complicado do que uma entrevEla sorriu, sabendo que aquele simples “sim” dito no parque havia aberto a porta não para um conto de fadas, mas para uma vida real, cheia de desafios e promessas, que eles construíriam juntos, um dia de cada vez.