“Pai… por favor, ajuda-me. Ela vai bater-me outra vez.”
A voz assustada de uma menina pequena ecoou numa das ruas mais luxuosas de Lisboa, no preciso momento em que Daniel Santos saía de um táxi em frente ao seu magnífico palacete.
O magnata de quarenta e cinco anos do ramo imobiliário tinha regressado de uma viagem de negócios a Macau um dia antes do planeado. Estava ansioso por surpreender a sua mulher, Beatriz, e a sua filha de cinco anos, Leonor.
Em vez disso, foi ele quem ficou em choque.
No pavimento húmido, junto ao portão, estava sentada uma menina descalça, a tirar pedrinhas coloridas das poças de água da chuva. O seu vestido amarelo, outrora brilhante, estava sujo e rasgado nas bordas. O cabelo emaranhado colava-se às suas faces magras e ela segurava um urso de peluche muito gasto, com um olho em falta.
Era a Leonor.
E estava completamente sozinha.
“Leonor?” chamou Daniel, com a voz trémula.
A menina ergueu o olhar lentamente, confusa a princípio. Depois, o reconhecimento preencheu-lhe os olhos. Os lábios tremeram-lhe e ela correu na sua direção, tropeçando enquanto chorava.
“Pai! Pai, voltaste!”
Daniel levantou-a para os seus braços—e sentiu uma onda de horror.
Ela estava demasiado magra.
Os seus braços pareciam frágeis, quase sem peso. Cheirava a terra e a urina. O vestido estava húmido da chuva e do suor.
“Minha querida… por que estás cá fora? Onde está a Beatriz?”
Leonor enterrou o rosto no seu ombro, tremendo.
“A tia Beatriz disse que morreste no avião,” sussurrou. “Disse que nunca mais voltavas.”
O coração de Daniel começou a bater com força.
Olhou para o palacete. Todas as cortinas estavam fechadas, mas lá dentro ouvia-se música alta, misturada com risos e vozes.
“Leonor… há quanto tempo estás aqui?”
“Desde ontem de manhã,” respondeu suavemente. “A tia Beatriz disse-me para ficar no jardim. Mas quando escureceu, eu assustei-me, e então esperei aqui na frente por ti.”
“Desde ontem?”
Ela acenou com a cabeça.
Daniel olhou para os seus pés—roxos de frio, cobertos de pequenos cortes. Havia hematomas nos seus braços, como se alguém a tivesse agarrado com demasiada força.
Levou-a até à porta e destrancou-a.
No momento em que entraram, um cheiro intenso atingiu-o—cigarros, álcool e perfume.
A sala de estar estava uma desordem. Garrafas vazias de espumante, copos sujos, cinzeiros e roupa espalhados por todo o lado: uma camisa de vestir, uma gravata cara, até um fato de marca.
Risadas altas ecoavam lá de cima.
“O que se passa aqui…”, murmurou Daniel.
Leonor agarrou-se a ele com mais força.
“Os tios estão a brincar com a tia Beatriz lá em cima,” sussurrou. “Eles são sempre barulhentos quando brincam.”
Daniel subiu as escadas lentamente.
A cada passo, os sons tornavam-se mais claros—homens a falar, a rir, o tilintar de copos.
Parou em frente à porta de um quarto, deixada entreaberta.
Lá dentro, na cama que outrora partilhara com Beatriz, a sua mulher de vinte e oito anos estava seminus, entre dois homens mais velhos, a beber espumante e a rir.
A visão revolteou-o.
Atrás dele, Leonor falou baixinho.
“Pai… posso ir para o meu quarto? Estou com muito frio.”
Daniel afastou-se da porta, com a raiva a crescer no seu peito.
Levou a Leonor pelo corredor até ao seu quarto.
Quando abriu a porta, o seu coração quase se partiu.
A cama estava por fazer, claramente intacta há dias. Pratos sujos com comida estragada estavam no chão. O quarto cheirava mal.
“Leonor… quando foi a última vez que tomaste banho? Quando foi a última vez que comeste como deve ser?”
Ela contou lentamente nos dedos.
“Talvez… há cinco dias. A tia Beatriz disse que crianças sujas não podem entrar quando vêm visitas importantes.”
Daniel sentiu as pernas fraquejarem.
Cinco dias.
A sua filha tinha sido abandonada enquanto a sua mulher—
Ele afastou o pensamento.
“E onde está a Dona Maria?” perguntou, referindo-se à empregada doméstica.
Os olhos de Leonor encheram-se de lágrimas.
“Ela foi-se embora a chorar. Discutiu com a tia Beatriz. A tia Beatriz disse que se ela te contasse os segredos, algo de mau me aconteceria a mim.”
“Que segredos?”
Leonor olhou nervosamente para a porta.
“Sobre os tios que vêm cá. A Dona Maria não gostava deles. Ela tentou manter-me lá dentro, mas a tia Beatriz zangou-se e obrigou-me a ficar cá fora até eles irem embora.”
“Quantos homens vêm cá?”
“Às vezes um… às vezes dois… às vezes mais. Eles chegam em carros grandes.”
“E onde ficas tu?”
“No jardim. Tenho de ficar quieta. Se eu chorar, a tia Beatriz diz que tu vais zangar-te comigo.”
Uma perceção arrepiante atingiu Daniel.
Cada vez que ele saía para o trabalho, Beatriz trazia homens para dentro de casa—e obrigava a sua filha a ficar lá fora.
De cima vinham risadas altas e gemidos exagerados.
Leonor tapou os ouvidos.
“Eles fazem sempre esses barulhos,” sussurrou. “Eu achava que lhe estavam a fazer mal… mas depois de eles irem embora, ela conta o dinheiro.”
Dinheiro.
Daniel finalmente entendeu.
Beatriz não estava apenas a ser infiel.
Tinha transformado a sua casa num local onde se vendia a si própria.
Passos repentinos ecoaram nas escadas.
Daniel rapidamente levou Leonor para a cozinha e procurou comida. O frigorífico só tinha cerveja importada e sobras estragadas.
“O que tens tu comido?” perguntou.
“Às vezes a vizinha, a Dona Anabela, dá-me uma sanduíche quando me vê lá fora,” disse Leonor. “Ou bebo água da mangueira do jardim.”
Daniel encontrou leite e bolachas e colocou-os em cima da mesa.
Leonor bebeu o leite avidamente.
Nesse momento, dois homens entraram na cozinha. Um deles estava a usar o seu roupão.
Eles congelaram quando o viram.
“Uh… desculpe, amigo,” disse um deles, constrangido. “A Beatriz nunca mencionou um marido.”
“O que quer dizer com ‘nunca mencionou’?”
“Nós pagámos para estar aqui,” disse o homem mais novo, com casualidade. “Ela cobra mais por receber clientes na mansão de um homem rico.”
Daniel sentiu o chão a mover-se debaixo de si.
“Pagaram?”
“Sim. Cem euros cada.”
Nesse momento, Beatriz entrou na cozinha vestindo um roupão fino.
Quando viu Daniel, toda a cor desapareceu do seu rosto.
“Daniel… não estava à espera que voltasses tão cedo.”
Os dois homens vestiram-se rapidamente e saíram sem dizer mais nada.
Daniel ficou em silêncio com Beatriz e Leonor.
“Então,” disse friamente, “andaste a cobrar a estranhos para dormirem contigo na minha casa.”
“Posso explicar—”
“E a minha filha?” interrompeu. “Onde estava a minha filha durante tudo isto?”
Leonor deu um passo em frente, segurando o seu copo.
“Olá, tia Beatriz. O pai voltou. Disseste que ele morreu, mas não morreu.”
Beatriz lançou um olhar furioso à menina.
“Leonor, vai para o teu quarto.”
“Não,” disse Daniel firmemente. “Ela fica aqui.”
Nesse instante, a porta da cozinha abriu-se violentamente e a Dona Maria entrou com uma pasta cheia de provas gritando “Sr. Daniel, finalmente!” com a sua voz rouca de tanta urgência.