A nova secretaria ficou petrificada ao ver sua própria foto de infância no escritório do chefe… e um terrível segredo começou a se revelar.

6 min de leitura

Olha, a nova secretária ficou completamente paralisada quando viu a sua própria foto de infância no gabinete do patrão… a verdade aterradora que estava escondida começou a revelar-se devagar…

O ar no trigésimo quinto andar da torre Silva & Associados não circulava; flutuava, pesado com cheiro a cera de chão, a tabaco caro e ao ozono do ar condicionado de luxo. Lá fora, por detrás das janelas panorâmicas, Lisboa estendia-se num mosaico nevoeiro, com jacarandás roxos e avenidas engolidas pelo trânsito; mas lá dentro, o mundo estava em silêncio, abafado pelo pesado isolamento acústico do sucesso.

A Sofia Mendes sentia aquele silêncio a pressionar-lhe os tímpanos. Alisou o tecido da sua saia preta —uma mistura barata de poliéster que se sentia impostora contra o mármore italiano do átrio— e ajustou a alça da mala. A voz da mãe, fininha e rouca por causa da tosse que nunca a largava, ecoou na sua mente: Cabeça erguida, Sofia. Mereces andar nestas salas tanto como os outros. Só não deixes que te vejam pestanejar.

Mas ela pestanejava rapidamente, com o coração a bater feito um pássaro assustado dentro da sua caixa torácica.

— O senhor Silva está à sua espera —disse a Carmo, baixando a voz até se tornar num sussurro. A Carmo tinha o olhar cansado e sábio de uma mulher que tinha visto homens poderosos caírem e levantarem-se durante décadas. Inclinou-se para a Sofia, e o seu perfume —algo intenso e floral— encheu os sentidos dela. —Um conselho, querida. Ele não gosta de repetir. Se disser uma vez, é lei. E o que quer que faças, não olhes para os objetos pessoais da secretária. Ele considera a curiosidade uma forma de incompetência.

A Sofia anuiu, com a garganta demasiado seca para responder. Seguiu a Carmo em direção às pesadas portas de mogno no fim do corredor. Cada passo era uma contagem decrescente. Aquele emprego era a salvação. Eram os inaladores, os especialistas, a renda do apartamento em ruínas em Setúbal e a possibilidade de parar de ver a conta bancária com um sentimento de desgraça iminente.

As portas abriram-se com um sussurro pneumático.

O gabinete era uma catedral da indústria. Inundada de luz solar e assustadoramente espaçosa, cheirava a papel antigo e a citrinos. O Fernando Silva estava sentado atrás de uma secretária talhada numa única laje de nogueira escura. Aos cinquenta e três anos, carregava a idade como uma armadura: as têmpora grisalhas, o maxilar talhado em granito e um fato tão perfeitamente cortado que parecia fazer parte da sua pele. Não ergueu o olhar quando ela entrou. Estava a assinar uma pilha de declarações; o som da sua caneta tinteiro era o único ruído na sala.

— Sente-se, menina Mendes —disse. A voz era um barítono grave que vibrou no peito da Sofia.

Ela sentou-se na ponta de uma cadeira de couro que custara mais que o funeral do pai. Observou a mão dele: o movimento firme e ritmado de um homem habituado a mudar vidas com um traço de tinta.

— As suas referências universitárias estão… sobrequalificadas para um cargo de secretária —disse o Fernando, finalmente, tapando a caneta e erguendo o olhar.

Os olhos dele não eram castanhos e predadores como a Sofia tinha imaginado num advogado. Eram de um cinza metálico inquietante, velados por um cansaço antigo e profundo. Por uma fração de segundo, quando os olhares se cruzaram, a mão dele hesitou. A caneta escorregou ligeiramente no mata-borrão. O ar pareceu rarear, deixando-a atordoada.

— Aprendo rápido, senhor —conseguiu dizer. — E sou discreta.

— A discrição é a moeda daqui — respondeu ele, recostando-se. O sol apanhou o brilho prateado do relógio. — Não me interessa conversa fiada, e muito menos desculpas. Vai tratar da minha agenda, filtrar as minhas chamadas e garantir que, quando eu estiver nesta sala, o resto do mundo não exista. Entendemo-nos?

— Perfeitamente.

Ele começou a enumerar ordens —números de processo, nomes de clientes, a temperatura exata a que queria o seu café—, mas a atenção da Sofia começou a fragmentar-se. Os seus olhos, traindo o aviso da Carmo, desviaram-se para um canto da secretária.

Lá, ao lado de um pesado pisa-papéis de cristal, havia uma moldura prateada. Estava ligeiramente fosca nas bordas, fora do lugar numa sala onde tudo o resto brilhava como um espelho.

A respiração da Sofia cortou-se.

A imagem era sépia, com as bordas desfocadas, mas a pessoa era inconfundível. Uma menina de cerca de quatro anos, de pé numa clareira soalheira, vestida com um vestido branco de renda ligeiramente torto, segurando um girassol enorme que lhe tapava metade do rosto.

A Sofia conhecia aquele vestido. Conhecia a sensação da renda a raspar no pescoço. Conhecia o peso exato daquele girassol. E conhecia a pequena mancha castanha no canto inferior direito da foto, onde a mãe tinha derramado uma gota de café com leite há vinte anos.

Era ela.

Não era alguém parecido. Não era um jogo de luzes. Era a fotografia que estava na mesa de cabeceira da mãe, numa moldura de plástico rachada.

A sala começou a inclinar-se. O rugido da cidade pareceu atravessar o vidro. A voz do Fernando tornou-se num murmúrio distante.

— Menina Mendes?

O tom cortante tirou-a do transe. Percebeu que estava de pé. Não se lembrava de se ter levantado. A mão estava estendida, o dedo trémulo a apontar para a moldura prateada.

— De onde…? —a voz falhou. — De onde é que tirou isso?

O rosto do Fernando transformou-se. A máscara profissional não escorregou; estilhaçou-se. O seu bronzeado ficou cinzento. Olhou para a foto e depois para a Sofia, examinando-lhe os traços com uma fome desesperada que a fez querer recuar.

— É só uma peça decorativa —disse, mas a voz dele perdeu a autoridade. Tapou a moldura com a mão trémula. — Decoração padrão.

— Isso é mentira —sussurrou a Sofia. — Essa sou eu. A minha mãe tem essa foto. Tem-na desde o dia em que foi tirada, em Monsanto. Porque é que o senhor a tem?

O Fernando levantou-se tão bruscamente que a cadeira bateu no vidro com um som surdo. Olhou para ela como se fosse um fantasma. Não chamou a segurança. Não a despediu. Apenas a observou, ofegante.

— Como se chama a sua mãe? —perguntou, quase inaudível.

— Elena Mendes. E se o senhor nos tem andado a seguir…

— Elena —repetiu ele, como se o nome o partisse. Deixou-se cair na cadeira. — Ela disse-me que a febre a levou no inverno de 2003. Enviou-me uma carta. Sem morada. Com um recorte de obituário genérico. Dizia que não havia nada para eu voltar.

A Sofia sentiu um frio profundo.

— Eu não morri de febre. Nós mudámo-nos. Ela disse que o meu pai era uma sombra que não queria ser encontrada. Um homem de “coisas importantes” sem espaço para uma filha.

O Fernando ergueu o olhar, e a Sofia viu lágrimas contidas.

— Procurei-a durante três anos. Contratei investigadores. Gastei tudo o que ganhei como associado júniorMas a Elena sabia esconder-se. E depois chegou a carta.

Leave a Comment