Às oito da manhã, Beatriz Silva limpava a mesa de vidro da sala quando avistou cinco carros de luxo parando no portão. Depois de quatro meses trabalhando na mansão dos Albuquerque, percebeu que aquele dia seria diferente.
Lá em cima, Rodrigo Albuquerque apontava pela janela para o filho, Pedro, de oito anos.
“Filho, as cinco mulheres de quem falamos chegaram. Ficarão connosco trinta dias.”
Pedro observou as mulheres elegantes saírem dos carros.
“No final, tenho de escolher uma para ser a minha nova mãe, não é, Pai?”
“Exato. Todas são cultas e vêm de famílias influentes. Tenho a certeza que vais gostar delas.”
“E se não gostar de nenhuma?”
“Vais gostar. Podem dar-te uma excelente educação e levar-te pelo mundo.”
De repente, o som de vidro partido ecoou pela casa, seguido de uma voz furiosa.
“Empregada inútil! Partiste o meu cristal caríssimo!”
Rodrigo e Pedro trocaram olhares surpresos.
“O que foi isso?” perguntou Pedro.
“Não sei. Vamos ver.”
Desceram apressados e encontraram Beatriz de joelhos, recolhendo os cacos, com o dedo a sangrar. Uma morena alta cruzava os braços sobre ela.
“Esse cristal era importado. Custou mais do que ela ganha num ano.”
“Foi sem querer,” sussurrou Beatriz, cabeça baixa.
“Sem querer?” a mulher riu-se com desdém. “Gente como tu não devia tocar em coisas de valor.”
“Com licença,” Rodrigo interveio firme. “O que se passa aqui?”
A morena virou-se com um sorriso treinado. “Rodrigo, sou Sara Lobo. Acabei de chegar e a tua empregada partiu o meu cristal.”
As outras quatro mulheres aproximaram-se, observando Beatriz no chão.
“Isto é constrangedor,” disse uma loira magra.
“Chamo-me Carlota Marques,” acrescentou, fria.
“Acidentes acontecem,” respondeu Rodrigo, tentando acalmar a situação.
“Acontecem com pessoas vulgares,” Carlota fitou Beatriz. “Gente refinada sabe evitar.”
Pedro escapou ao pai e correu para Beatriz.
“Bia, estás magoada?”
Beatriz ergueu o olhar, forçando um sorriso.
“Não é nada, querido. Só um arranhão.”
Sara franziu a testa. “Que proximidade estranha.”
Rodrigo interveio. “Já que estão todos aqui, deixem-me esclarecer. Esta é a Beatriz, nossa funcionária. E vocês são as candidatas.”
As mulheres apresentaram-se com orgulho: Sara, de uma família tradicional do Porto; Carlota, modelo e influencer que viveu em Milão; Leonor Vaz, advogada corporativa; Dra. Joana Tavares, dermatologista com clínica própria; e Matilde Rocha, arquiteta.
Durante tudo, trataram Beatriz como se não existisse.
“Ficarão aqui trinta dias,” explicou Rodrigo. “No fim, Pedro decidirá com quem me devo casar.”
“E a empregada?” perguntou Sara.
“Fica. A Beatriz trabalha aqui há meses.”
Carlota trocou um olhar com Leonor. “Esperamos que ela saiba o seu lugar.”
Pedro agarrou a mão de Beatriz. “Bia, vem ver o desenho que fiz!”
“Ela tem de limpar a trapalhada primeiro,” Joana repreendeu.
“Não faz mal,” disse Beatriz suavemente. “Depois eu vou.”
Sara observou atenta. “Interessante.”
Naquela tarde, as cinco mulheres reuniram-se no pátio, comparando presentes—tablets, viagens luxuosas, colégios de elite, reformas no quarto.
Pedro apareceu, agradecendo com educação, mas sem entusiasmo.
Depois, Beatriz chegou com sumo e bolinhos de canela. O rosto do menino iluminou-se.
“Foste tu que fizeste?”
“Fui. E trouxe papel para origami.”
As mulheres observaram em silêncio a alegria incontida do menino.
Naquela noite, reuniram-se de novo.
“Esta situação com a empregada é inaceitável,” sussurrou Sara.
“Ele está apegado demais,” concordou Matilde.
“É inadequado,” disse Leonor.
“Ele precisa de aprender hierarquia,” acrescentou Joana.
“E ela precisa de uma lição,” concluiu Sara.
Rodrigo, porém, notara a mudança no filho. Pedro voltara a rir, a comer, a viver.
Mais tarde, o menino mostrou-lhe um pássaro de origami.
“Ela é paciente,” disse. “Nunca grita.”
“Gostaste das senhoras?” perguntou Rodrigo.
“Elas são simpáticas… mas a Bia é melhor.”
“Porquê?”
“Ela é verdadeira.”
“Vais despedi-la?” Pedro perguntou, ansioso.
“Não,” Rodrigo prometeu. “Ela fica.”
O assédio começou dias depois—trapalhadas propositadas, materiais escondidos, culpas atiradas a Beatriz. Rodrigo instalou câmaras ocultas.
O que viu enfureceu-o.
Quando Pedro a defendeu, Sara ameaçou-o.
“Se continuares a escolhê-la, terás de decidir.”
“Já decidi,” Pedro respondeu. “Escolho a Bia.”
Rodrigo descobriu acusações falsas e investigações forjadas por Sara.
Na festa final, convencidas da vitória, as mulheres gabaram-se—sem saber que eram gravadas.
Rodrigo exibiu tudo publicamente.
A verdade destruiu-as.
“Estas mulheres tentaram arruinar uma alma bondosa porque o meu filho a amava,” disse Rodrigo.
“Quero que a Bia seja a minha mãe,” Pedro declarou, baixinho.
Rodrigo pediu Beatriz em casamento diante de todos.
Ela aceitou, em lágrimas.
As mulheres fugiram desAnos depois, numa pequena quinta no Alentejo, rodeados pelo riso dos filhos e pelo cheiro do campo, Rodrigo e Beatriz saboreavam a vida simples que o destino, afinal, sempre lhes tinha reservado.