O Motociclista que Trouxe a Cura para o Meu FilhoE naquele momento, compreendi que a verdadeira moto era a esperança que ele trazia a cada visita, acelerando a recuperação do meu menino.

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Hoje, decidi escrever sobre o que aconteceu. Há lições que a vida nos dá que são demasiado pesadas para carregar sozinho, e talvez ao colocar isto no papel, eu consiga compreendê-las melhor.

O meu filho Tomás foi diagnosticado com leucemia duas semanas depois de fazer quatro anos. O hospital tornou-se a nossa casa. Quimioterapia. Análises ao sangue. O Tomás a gritar cada vez que lhe punham uma agulha. Eu a dormir numa cadeira. A minha mulher a fazer horas extra para manter o seguro.

E então, apareceu o motociclista.

Foi numa terça-feira à tarde. Eu estava no corredor, a tentar não chorar, quando ouvi o Tomás a rir. Um som que não ouvia há semanas.

Um homem estava sentado no chão, de pernas cruzadas, ao lado da cama do Tomás. Um tipo grande. Um fato de cabedal cheio de insígnias. Tatuagens nas mãos e no pescoço. Estava a brincar com carrinhos de brincar com o meu filho.

“Vrum vrum,” disse o Tomás, empurrando um carrinho vermelho na sua direção.

“Esse é bem rápido,” disse o homem. “Mas vê só este.” Fez rolar um carrinho verde e deixou-o embater no do Tomás. O meu filho riu-se tanto que quase arrancou o soro.

“Quem é o senhor?” perguntei.

“Chamo-me Rui. Sou voluntário aqui. As enfermeiras disseram que estava tudo bem.”

Olhei para a estação de enfermagem. Uma enfermeira acenou com a cabeça e disse baixinho “é na boa.”

Aquele foi o primeiro dia. O Rui voltou todos os dias, sem exceção, durante um ano.

Trazia sempre carrinhos de brincar. Carrinhos da Guisval, da Majorette, pequenas motas. Sentava-se no chão frio durante horas. A brincar. A conversar. Às vezes, apenas sentado em silêncio quando o Tomás estava demasiado doente para se mexer.

Nos dias maus, quando a quimio deixava o Tomás demasiado fraco para levantar a cabeça, o Rui segurava um carrinho onde ele o pudesse ver. “Vou guardar este para quando estiveres pronto,” dizia.

O Tomás começou a chamar-lhe “o meu amigo Rui” e algo cruzava o rosto do Rui. Dor. Uma dor profunda, pessoal.

Perguntei às enfermeiras sobre ele. Disseram que ele era voluntário há três anos. Nunca tinha falhado um dia.

“Ele tem filhos?” perguntei.

A enfermeira hesitou. “Deveria perguntar-lhe a ele.”

Nunca perguntei. Estava demasiado grato. Demasiado cansado. O Rui tornou-se parte da nossa sobrevivência. Parte da luta do Tomás.

Então, uma noite, ao fim de onze meses, ouvi duas enfermeiras a conversar na estação.

“O aniversário é para a semana. Três anos.”

“Ele ainda vem todos os dias?”

“Todos os dias, sem exceção. A mesma ala. O mesmo corredor.”

“Não sei como ele consegue. Depois do que aconteceu à sua menina.”

Eu congelei.

A sua menina.

A enfermeira viu-me a ouvir. O seu rosto ficou pálido.

“O que aconteceu à sua menina?” perguntei.

E o que ela me contou fez com que me sentasse no chão e chorasse mais forte do que alguma vez tinha chorado desde o dia do diagnóstico do Tomás.

A enfermeira chamava-se Ana. Estava na ala de oncologia pediátrica há vinte anos. Já tinha visto de tudo. Mas quando falou do Rui, a sua voz tremia.

“A filha dele chamava-se Leonor,” disse a Ana. “Tinha cinco anos. Foi diagnosticada com leucemia linfoblástica aguda. O mesmo tipo que o Tomás.”

O mesmo tipo.

“Ela esteve nesta ala durante catorze meses. Quarto 4B.”

Quarto 4B. O quarto do Tomás.

O meu filho estava no mesmo quarto onde a filha do Rui tinha sido tratada.

“A Leonor era um furacão,” disse a Ana. “Mesmo quando estava doente, estava sempre a rir. Adorava carrinhos de brincar. Não bonecas, não peluches. Carrinhos. O pai trazia-lhe um novo todos os dias. Brincavam no chão durante horas. Ali mesmo no corredor. No mesmo sítio onde ele brinca com o Tomás.”

Fiquei sem ar.

“O que aconteceu?” sussurrei.

A Ana fechou os olhos. “A Leonor não respondeu ao tratamento. Tentaram tudo. Quimio. Radiação. Protocolos experimentais. Nada resultou. Ela morreu há três anos, na próxima terça-feira. Ali mesmo no 4B. O Rui estava a segurar-lhe na mão.”

Há três anos. O Rui tinha voltado a esta ala, a este quarto, durante três anos. A brincar aos carrinhos com crianças doentes no mesmo corredor onde tinha brincado com a sua filha moribunda.

“Depois da Leonor morrer, o Rui desapareceu durante cerca de seis meses,” disse a Ana. “Soubemos que não estava bem. A beber. O seu casamento desfez-se. A mulher não conseguiu lidar com a dor e foi-se embora. Ele ficou sozinho.”

“Então, um dia, ele simplesmente apareceu. Entrou na ala com um saco de carrinhos. Disse que queria ser voluntário. Disse que queria ter a certeza de que nenhuma criança nesta ala se sentiria sozinha.”

“Ele vem todos os dias?” perguntei, mesmo já sabendo a resposta.

“Todos os dias, sem exceção, durante três anos. Natal, Dia de Ação de Graças, o seu próprio aniversário. Ele nunca falta. Nem uma vez.”

“Porque é que ninguém me disse?”

“Ele pediu-nos para não dizermos. Fez-nos prometer. Disse que não queria que as famílias tivessem pena dele. Não queria atenção. Apenas queria brincar aos carrinhos com as crianças.”

Sentei-me ali no chão, fora da estação de enfermagem, a chorar. Tudo o que pensava saber sobre o Rui reorganizou-se e mudou.

Cada vez que ele estremecia quando o Tomás o chamava de “o meu amigo Rui”. Cada vez que o apanhava a olhar para o Tomás com aquela expressão indecifrável. Cada vez que se sentava naquele corredor a brincar com carrinhos no exato mesmo chão onde tinha brincado com a Leonor.

Ele não estava apenas a ser gentil. Ele estava a reviver o pior período da sua vida. Todos os dias. De propósito. Porque não queria que outra criança passasse por aquilo sozinha.

“Há mais uma coisa,” disse a Ana baixinho. “Provavelmente não devia dizer-lhe isto. Mas deve saber.”

“O quê?”

“Os carrinhos que ele traz. Não são novos. São da Leonor. A coleção dela. Ele traz um de cada vez. Vai rodando. É a forma dele a manter aqui. Na ala. Com as crianças.”

Olhei para o fundo do corredor. Pela janela do quarto 4B, consegui ver o Rui sentado na cadeira ao lado da cama do Tomás. O Tomás estava a dormir. O Rui segurava um pequeno carro azul nas mãos, virando-o e revirando-o.

O carro da Leonor. No quarto onde a Leonor morreu.

E ele fazia isto todos os dias.

Naquela noite não consegui dormir. Sentei-me na cadeira ao lado da cama do Tomás e fiquei a vê-lo respirar. As máquinas apitavam. O soro pingava. Os mesmos sons que ouvia há onze meses.

Mas agora o quarto parecia diferente. Mais pesado. Sagrado.

Fiquei a pensar na Leonor. Uma menina que nunca conheci e que tinha dormido naquela mesma cama. Que tinha olhado para aqueles mesmos tetos falsos. Que tinha ouvido aquelas mesmas máquinas a apitar. Que tinha brincado com aqueles mesmos carrinhos naquele mesmo chão.

E que tinhamorreu ali. Ali mesmo. Onde o meu filho lutava pela vida.

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