**Diário de Ricardo Sousa**
O dia começou como qualquer outro. Saía da minha mansão em Lisboa, prontinho para mais uma viagem de negócios, quando a pequena Joana me parou na rua. Aquela menina que eu sempre via por ali, de olhos grandes e roupas velhas, mas com uma esperteza que não combinava com a idade.
“Tio, o senhor já falou com o encanador?” ela perguntou, segurando o meu braço com uma urgência que me fez parar.
“Que encanador?” Estranhei. Nunca tinha mandado chamar nenhum.
Ela franziu a testa, como se eu devesse saber. “É que a Dona Beatriz sempre chama ele quando o senhor viaja. Mas hoje ele disse que ia trazer umas ferramentas especiais.”
O coração gelou. “Ferramentas especiais pra quê, menina?”
Joana olhou pros lados e baixou a voz: “Ele disse que dessa vez ia resolver tudo de vez.”
Aquela frase me tirou o ar. Cancelar a viagem foi o instinto. Se havia algo estranho acontecendo na minha própria casa, eu precisava descobrir.
**—**
A Beatriz, minha esposa há cinco anos, sempre foi cuidadosa. Organizava a casa, mantinha tudo impecável. Nunca desconfiei de nada. Mas naquele dia, enquanto ela pensava que eu estava a caminho do aeroporto, eu me escondi no escritório, de olho na entrada.
E foi então que vi. O tal “encanador” chegou, mas em vez de ir para os canos, foi direto pro meu escritório. Com a Beatriz. E não estavam lá pra consertar tubulação nenhuma.
O que eles não sabiam é que eu tinha uma aliada: a Joana, aquela menina que ninguém notava, mas que via tudo. Enquanto eu observava em silêncio, ela me mandou uma mensagem pelo celular que eu lhe dei pra emergências:
*”Tio, eles estão falando de transferir dinheiro. Dizem que o senhor nunca vai perceber.”*
Naquela hora, o chão sumiu debaixo dos meus pés. A mulher que eu amava, a pessoa em quem mais confiava, estava me roubando. E pior: planejando sumir com tudo.
**—**
Chamei um detetive, o Mendes, um homem discreto que já trabalhava com casos assim. Em duas horas, ele confirmou o que eu temia: a Beatriz e o “encanador” (cujo nome verdadeiro era Rui) eram parte de um esquema. Golpeavam homens ricos, casavam-se por interesse e depois esvaziavam as contas.
A Joana, com seus sete anos, tinha visto mais do que eu em todos esses anos.
No dia seguinte, quando a Beatriz saiu para “fazer compras”, revirei a casa. Encontrei documentos falsos, recibos de joias caríssimas compradas em meu nome e até um passporte falso com a foto dela. Tudo planejado para o dia em que eu “desapareceria” num acidente.
Quando a polícia prendeu os dois, a Beatriz me olhou nos olhos e riu. “Você nunca desconfiou de nada, Ricardo. Sem essa criança intrometida, já estaria morto.”
**—**
Hoje, um ano depois, a Joana dorme no quarto ao lado. Tornou-se minha filha por adoção. A justiça entendeu que, sem ela, eu não estaria aqui. E sem mim, ela ainda estaria na rua.
Às vezes, a salvação vem de onde menos esperamos. No meu caso, veio de uma menina miúda, de chinelos gastos, que me avisou sobre um encanador que nunca existiu.
E essa menina, hoje, chama-me de “pai”.