Se chegaste aqui vindas do Facebook, à espera de descobrir o que realmente aconteceu ao Roberto e à misteriosa operária da fábrica, cujos olhos eram iguais aos da sua filha desaparecida, faz uma pausa. O que se segue é mais sombrio, mais doloroso e muito mais intrincado do que alguma vez poderias imaginar.
Esta não é uma história simples.
Dobra-se, quebra-se e recusa-se a deixar-te ir.
**O Capataz Escondia Algo**
O capataz avançou na nossa direção, o rosto rubro de raiva.
“Sr. Mendes! Afaste-se daquela rapariga imediatamente!”
Virei-me, estupefacto. As mãos da Inês ainda estavam nas minhas.
“Ela é problema”, rosnou ele. “Está aqui há menos de uma semana e já está a causar confusão. Não tem direito a incomodar os investidores!”
A Inês libertou-se, o corpo inteiro a tremer.
“Não fiz nada de mal, Sr. Artur”, disse, a voz a vacilar. “Ele é que me agarrou.”
Algo dentro de mim estalou—algo que não sentia desde o dia em que a Sofia desapareceu.
“Olhe como fala”, disse, firme. “Não a trate assim. Ela não fez nada.”
O capataz olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido.
“Com todo o respeito, senhor”, resmungou, “o senhor não conhece esta gente. Aparecem do nada, sem documentos, sem passado, a inventar histórias para ganhar compaixão.”
As palavras dele atiçaram a minha raiva—mas também plantaram uma dúvida.
Sem documentos?
Olhei de novo para a Inês. Ela mantinha o olhar fixo no chão, mas o seu medo era inegável. Não o medo de perder o emprego—algo mais profundo.
“Onde moras?”, perguntei, baixinho.
Ela hesitou, a mordiscar o lábio.
“Num quarto alugado. Em Alfama.”
“Com quem?”
“Com a minha avó.”
“E os teus pais?”
O maxilar dela contraiu-se. Uma única lágrima escorreu-lhe pela face suja de pó.
“Não os conheço, senhor. A avó diz que me deixaram quando eu era bebé.”
O mundo inclinou-se.
Bebé.
Abandonada.
Avó.
As peças formavam uma imagem que eu não queria ver.
“Quantos anos tens?”
“Vinte e três… Acho. A avó não tem a certeza.”
Vinte e três.
A Sofia teria vinte e três anos.
O capataz bufou, impaciente.
“Sr. Mendes, isto é ridículo—”
“Chega!”, gritei. “Está despedido. Imediatamente. Saia.”
O sangue desapareceu-lhe do rosto. Abriu a boca para protestar, mas reconsiderou. Afastou-se, resmungando entre dentes.
Quando ficámos sozinhos—tão sozinhos quanto possível, com dezenas de operários a observar—ajeitei-me para ficar à altura da Inês.
Ela encolheu-se.
“Não te vou magoar”, disse, suavemente. “Só preciso que me ouças. Há vinte anos, a minha filha desapareceu. Chamava-se Sofia. Tinha três anos. Tinha os teus olhos. E três sinais no pescoço—exatamente aqui.”
Apontei para o local.
A Inês instintivamente levou a mão ao pescoço.
“Muita gente tem sinais”, murmurou.
“Não como os dela”, respondi. “Formavam um triângulo perfeito. A minha mulher chamava-lhes ‘o Cinto de Orion’.”
A respiração dela falhou.
“A minha avó…”, sussurrou. “Ela sempre diz que as minhas sardas são especiais. Um sinal do céu.”
O meu peito parecia partir-se ao meio.
“Posso vê-las?”
Ela hesitou. Depois, devagar, afrouxou o casaco e puxou a gola da blusa.
E lá estavam eles.
Três pontos escuros.
Perfeitamente alinhados.
As estrelas de Orion.
As minhas pernas cederam. Caí na lama, a chorar como não chorava desde o enterro da minha mulher.
“És tu”, soluçava. “És a minha menina. És a Sofia.”
A Inês também chorava—mas as suas lágrimas eram de confusão.
“Não entendo”, disse. “Eu não sou a sua filha. A minha avó criou-me.”
“Qual é o nome dela?”
“Odete Nunes.”
O nome não me dizia nada—mas isso não provava coisa alguma.
Quem rouba crianças raramente lhes mantém os nomes verdadeiros.
“Preciso de a conhecer”, pedi. “Por favor. Tenho de falar com ela.”
A Inês limpou o rosto.
“Ela está muito doente. Quase não sai da cama.”
“Então vou até ela”, insisti. “Por favor.”
Ela olhou para mim—aqueles mesmos olhos verdes, os olhos da minha mulher, os olhos da Sofia.
E acenou.
**O Caminho para a Verdade**
Ordenei ao meu motorista que nos levasse a Alfama.
A Inês ia sentada em silêncio no banco de trás. Não conseguia parar de olhar para o seu reflexo no espelho—cada movimento, cada gesto.
A Sofia sorria assim?
Franzia a testa da mesma maneira?
Vinte anos mudam tudo.
“Tem a certeza, senhor?”, perguntou o motorista, baixinho.
“Mais certo do que nunca.”
O bairro não se parecia em nada com a cidade que eu conhecia.
Estradas de terra. Telhados de zinco. Fios elétricos pendurados, expostos.
O meu carro parecia grotescamente deslocado.
“Aquela”, disse a Inês, apontando para uma casinha azul, desbotada.
Saímos. Olhos curiosos seguiram-nos.
A Inês destrancou a porta com uma chave enferrujada.
“Avó”, chamou. “Trouxe alguém.”
O cheiro chegou primeiro—humidade, doença, pobreza.
A casa era um único quarto.
Uma idosa jazia num catre estreito, enrolada em mantas finas. A pele parecia frágil, os olhos turvos.
Mas quando me viu, o terror limpou-os num instante.
“Quem é esse?”, sussurrou.
“Ele é o meu patrão”, respondeu a Inês. “O dono da fábrica.”
A velha tentou sentar-se, mas caiu num acesso de tosse. A Inês correu para a ajudar.
Eu mantive-me junto da porta.
Fotografias cobriam as paredes—a Inês criança, adolescente, formada.
Mas nenhuma de bebé.
“Dona Odete”, disse, aproximando-me. “Preciso de respostas.”
Ela limpou a boca. Havia sangue nos dedos.
“Não tenho nada para lhe dizer.”
“De onde veio a Inês?”
O silêncio era insuportável.
A Inês olhou de um para o outro.
“Avó? O que é que ele quer dizer?”
Dona Odete fechou os olhos.
“Sabia que este dia chegaria”, murmurou.
O meu coração acelerou.
“Que segredo?”, perguntou a Inês.
A velha olhou para ela com um amor insuportável.
“Perdoa-me, minha filha.”
“O que fez?”, gritou a Inês. “Diga-me!”
Dona Odete virou-se para mim.
“Eu não a roubei”, afirmou. “Eu salvei-a.”
Congelei.
“Salvou-a?”, gritei. “Roubou a minha filha!”
“Não!”, exclamou. “Encontrei-a! Sozinha, suja, faminta. Ninguém a procurava!”
“Isso é impossível!”, gritei.E no fundo dos meus lamentos, enquanto o silêncio daquele quarto apertado nos envolvia, percebi que a verdade sempre fora mais cruel do que qualquer mentira que eu pudesse imaginar.