**CAPÍTULO 1: Uma Sombra no Palácio de Vidro**
O champanhe era um vintage de 98, o caviar vindo diretamente do Mar Cáspio, e eu estava profundamente entediado.
Essa é a maldição de ter tudo—eventualmente, nada te emociona.
Chamo-me Tomás Carvalho. Se vives em Lisboa, conheces o nome. Deves tê-lo visto gravado em alas de hospitais ou arranha-céus imponentes. Esta noite era o meu Baile de Inverno anual na minha quinta em Sintra. Lá fora, uma tempestade engolira o caminho com quase um metro de neve. Dentro, o ar condicionado mantinha os vinte e dois graus perfeitos, e o ambiente carregava o aroma de perfumes raros e riqueza herdada.
Estava junto à lareira, a girar o copo distraidamente enquanto um deputado discorria sobre furos fiscais, quando os gritos começaram.
Não eram exclamações refinadas ou choque educado—eram gritos brutais, guturais.
“Tira as mãos de mim! Só quero o pão!”
O quarteto de cordas—no meio de um Mozart—parou de repente. As conversas esmoreceram num silêncio tenso.
Do outro lado da sala, perto das mesas de buffet, o meu chefe de segurança, Rui, lutava com algo pequeno e furioso.
Soltei um suspiro, colocando a taça na lareira de mármore. “Com licença, Senhor Deputado.”
Avancei pela sala. Convidados cujos trajes custavam mais que um carro afastaram-se como o Mar Vermelho, expressões de nojo estampadas nos rostos.
“O que se passa aqui?” exigiu a minha voz, cortando a tensão.
Rui olhou para mim, ofegante. Tinha um braço firme em torno de uma criança.
Não devia ter mais de dez anos.
Era uma mancha na perfeição da noite. O rosto sujo de fuligem e lama. Vestia um casaco masculino que lhe caía abaixo dos joelhos, rasgado e manchado de algo que parecia óleo.
Mas foram os pés que me congelaram o olhar.
Descalços.
No meio do inverno, com uma tempestade a uivar lá fora, ela não tinha sapatos. Os dedos estavam vermelhos, inchados, gretados, deixando marcas molhadas no meu soalho polido.
“Senhor Carvalho,” Rui disse pelos dentes, apertando o aperto enquanto ela se debatia. “Encontrei esta… ratazana a entrar pela cozinha. Estava a enfiar pães nos bolsos.”
A miúda parou de lutar ao ver-me. Olhou para cima, e os olhos surpreenderam-me—velhos demais para aquele rosto. Não assustada. Furiosa.
“Não estava a roubar,” rosnou, a voz rouca. “Estava a levar as sobras. Iam deitar tudo fora na mesma.”
Um murmúrio de choque percorreu a sala. Uma mulher de vestido de veludo vermelho apertou as pérolas. “Que audácia,” sussurrou.
Olhei para a miúda, depois para a mesa atrás dela—abarrotada de lagosta, entrecosto, pastéis altos como torres. Ela não mentia. Desperdiçávamos comida suficiente para alimentar uma aldeia.
Mas eu não era instituição de caridade. Era um homem de negócios. E detestava interrupções.
“Rui,” disse friamente. “Chama a polícia. Tira-a da minha vista.”
“Não!” A miúda gritou, caindo de joelhos e arrastando Rui com ela. “Por favor! Não a polícia. Eles vão separar-nos. Não posso voltar para o sistema. Por favor!”
“Separar?” Franzi a testa. “Estás sozinha.”
“O meu irmão,” soluçou, as lágrimas limpando caminhos na sujidade das faces. “Está lá fora. Ele está doente. Precisa de comida. Por favor, senhor. Faço o que for. Limpo chãos. Lavo pratos. Só me dê um prato.”
Olhei em volta. Os convidados observavam, à espera de ver se o “Lobo de Ferro da Bolsa” tinha coração.
Eu não tinha. Corações são passivos.
Mas tinha curiosidade. E um sentido de humor distorcido.
Revirei a sala. Limpar chãos? Entediante. Lavar pratos? Inútil.
Depois, os meus olhos pousaram no centro das atenções.
O meu piano de cauda Steinway & Sons Model D—negro, elegante, dominante—repousava no palco. Uma obra-prima de duzentos mil euros, intocada a noite toda depois do pianista ter adoecido.
Uma ideia surgiu. Cruel. Divertida.
“Larga-a, Rui,” ordenei.
Rui hesitou. “Senhor?”
“Disse para a largares.”
Ele soltou-a. Ela recuou, esfregando o braço magoado, os olhos a espreitarem a porta como um animal encurralado.
“Disseste que farias tudo por um prato de comida,” disse, aproximando-me. Inclinei-me sobre ela. “É verdade?”
Ela acenou desesperada, olhando para um prato de vitela. “Sim. Tudo.”
“Bom.” Apontei para o Steinway. “Toca.”
A sala ficou em silêncio.
Ela piscou os olhos, confusa. “O quê?”
“O piano,” desafiei, a voz carregada. “Queres comer como uma rainha? Então, diverte-nos. Senta-te e toca-me uma música. Se for boa—se aguentares a atenção dos meus convidados por cinco minutos—podes levar toda a comida que conseguires carregar.”
Alguns convidados riram nervosamente. Achavam que era uma piada. Um espectáculo cruel para humilhar uma ratazana de rua.
“E se não conseguir?” sussurrou ela.
Inclinei-me, fitando-a. “Então o Rui atira-te para a neve, e eu chamo a polícia por invasão de propriedade.”
Impossível. Ela era sem-abrigo. Duvidava que soubesse ler, quanto mais tocar um piano de concerto.
Esperei lágrimas. Suplícios.
Em vez disso, ela olhou para o piano—realmente olE no momento em que os seus dedos feridos tocaram as teclas, uma melodia tão pura e poderosa como a própria alma portuguesa encheu a sala, deixando-me a tremer com a realização de que, afinal, era eu quem sempre estivera à espera de ser resgatado.