O letreiro de néon dizia “Café da Estrada” e piscava como se também estivesse com sono. Era um daqueles restaurantes à beira da estrada que sobrevivem por teimosia: café requentado, música antiga na jukebox e um cheiro constante de gordura que gruda nas roupas.
Beatriz Mendes já estava há seis horas de turno. Os pés ardiam, o avental estava manchado de molho e o sorriso automático no rosto não correspondia ao cansaço que sentia. Mas naquela noite, o sorriso começou a doer de verdade.
Viu quando os três homens entraram. Eram daqueles que ocupam espaço como se o mundo lhes devesse algo.
“Olha só, que atendimento especial”, disse o mais alto, empurrando a porta com o ombro.
Beatriz baixou o olhar e continuou trabalhando. Em lugares assim, às vezes era melhor não ouvir. Às vezes era melhor ser invisível.
Mas invisibilidade não funciona quando você vira alvo.
Eles se sentaram no balcão. Não pediram nada de imediato. Primeiro, olharam. Depois, começaram a lançar comentários que pareciam piadas, mas carregavam veneno.
“Ei, morena, não tem nada mais quente que esse café pra nos servir?” disse um, e os outros riram.
Beatriz apertou a bandeja com força. Responder podia piorar. Ignorar também. Escolheu a segunda opção.
“O que vão querer?” perguntou, tentando ser neutra.
“O que você recomendar, querida”, respondeu o que tinha uma cicatriz na sobrancelha. “De pertinho, se possível.”
Ela sentiu o corpo enrijecer. Olhou ao redor, procurando o cozinheiro, o senhor Alberto, ou a dona do lugar, Dona Lurdes. Mas estavam ocupados, e o restaurante estava cheio só pela metade: caminhoneiros comendo em silêncio, um casal de idosos compartilhando pão, dois estudantes com mochilas. Gente cansada. Gente que só queria seguir o seu dia.
Gente que, por medo, aprendeu a não se meter.
Beatriz virou-se para pegar a cafeteira. Foi quando um deles se levantou e se aproximou demais.
Cercaram-na sem que ninguém notasse a princípio. Ela entre o balcão e os bancos, eles rodeando como se fosse um jogo. Um jogo para eles. Uma armadilha para ela.
“Não foge, linda”, sussurrou o da cicatriz, perto do seu ouvido. O hálito dele cheirava a álcool e tabaco. “Só queremos conversar.”
Beatriz engoliu em seco.
“Por favor… deixem-me trabalhar.”
A mão de um deles pousou na sua cintura como se tivesse direito. Ela se afastou, tentando ir para a cozinha, mas o mais alto bloqueou o caminho com um sorriso.
“Ah, tão nervosinha”, disse, divertido. “Tá com medo?”
As risadas aumentaram, e com elas veio o tremor. Suas mãos tremeram, a bandeja escorregou. O café derramou sobre o balcão. Um pequeno acidente que gritava o que ela não podia dizer.
“Olha o que você fez!” zombou um deles, e então a agarrou pelo braço.
Não foi para arrastá-la. Foi para marcar.
Beatriz soltou um gemido. O braço queimava. Os olhos também.
“Me solta… por favor”, falou, e a voz se quebrou.
Foi nesse exato momento que o restaurante mudou.
Não houve um grito. Nem uma explosão. Apenas um silêncio súbito. Como se o ar tivesse sido cortado.
As colheres pararam no meio do caminho. A música baixou como se tivesse sido desligada. Até o casal de idosos parou de mastigar.
Os três homens não perceberam. Continuaram rindo, convencidos de que aquele era só mais um lugar onde eles mandavam.
Não viram o homem sentado na mesa ao lado da janela.
Ele estava ali há um tempo, vestindo roupa simples: uma camisa escura, calça jeans, botas gastadas. Não parecia rico. Não parecia polícia. Era daqueles que sabem passar despercebidos quando querem.
Em frente a ele, uma xícara de café. Ao lado, um pastor-alemão deitado no chão, tranquilo como uma estátua viva.
O cão não latia. Não rosnava. Apenas observava.
O olhar dele era como uma linha reta atravessando o restaurante e cravando-se nos três homens. Um aviso. Uma promessa.
O homem ergueu a xícara lentamente, pousou-a na mesa e então se levantou.
Não foi rápido. Nem com pressa. Levantou-se como quem não precisa provar nada.
E falou.
“Solta ela. Agora.”
A voz era baixa, mas firme. O tom de quem já viu o suficiente para não precisar gritar.
Os três se viraram, sorrindo como se ainda fosse uma piada.
“E você, quem é? O namorado?” provocou o mais alto.
O homem não respondeu. Apenas deu um passo.
O pastor-alemão levantou-se ao lado dele, músculos tensos, olhos fixos. Não atacou. Apenas se posicionou. E nesse gesto, algo gelou o estômago de quem assistia.
Beatriz, ainda com o braço preso, sentiu o ar voltar de repente. Algo tinha mudado.
“Não se meta”, disse o da cicatriz, ainda sorrindo. “Isso não é com você.”
“Já é”, respondeu o homem.
O da cicatriz riu nervosamente e levou a mão à cintura, como se fosse sacar algo.
Não deu tempo.
Em menos de dois segundos, o homem se moveu com uma precisão impressionante. Um giro, um golpe seco, e o primeiro caiu sobre a mesa.
O segundo tentou avançar, mas o pastor-alemão o derrubou com um movimento rápido, sem morder. Apenas controle.
O terceiro recuou, querendo fugir, mas o cão virou a cabeça e os dentes se fecharam no ar, a centímetros do seu rosto. Não precisou tocá-lo. O medo já o paralisou.
Em menos de um minuto, três homens que se achavam donos da noite estavam no chão, humilhados.
O desconhecido segurou-os com calma, sem violência desnecessária. O cozinheiro, o senhor Alberto, saiu da cozinha com uma espátula na mão, mas parou ao ver a cena.
Dona Lurdes tapou a boca.
Beatzia tremia. Não de frio. De choque.
O homem tirou uma carteirinha do bolso e mostrou-a apenas um instante.
“Chame a polícia”, disse. “Agora.”
Ela acenou, sem hesitar.
Então, o mais inesperado da noite aconteceu: o mesmo homem que agira com frieza virou-se para Beatriz e a voz mudou.
Ficou suave.
Tirou a jaqueta e colocou sobre os ombros dela, como se pudesse devolver um pouco do que lhe haviam tentado tirar.
“Já passou”, disse. “Você está a salvo.”
Beatriz olhou para ele como se estivesse à beira de um abismo. Não sabia quem ele era. Só sabia que, pela primeira vez em muito tempo, o corpo relaxava um pouco.
“Obrigada…”, sussurrou, e as lágrimas caíram.
Ele não pediu para ela se acalmar. Não disse “não chore”. Apenas ficou ali, firme, como um muro.
Lá fora, as sirenes chegaram em minutos. A polícia entrou preparada, mas ao ver os três homens no chão, hesitou.
“O que aconteceu aqui?” perguntou um dos agentes.
“Acoso e agressão”, respondeu Dona LurBeatriz olhou para o chão, sentindo o peso daquela noite, mas também uma nova força que nascia dentro dela, porque agora sabia que mesmo nos lugares mais esquecidos, a coragem ainda podia aparecer.