Uma Chamada Desesperada na NoiteO chefe da máfia, tomado por um amor que nunca havia admitido, correu para as ruas escuras sem pensar nas consequências.

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O vento gélido do inverno cortava o casaco gasto de Inês enquanto ela se apressava pelas ruas desertas após o seu duplo turno no Café Arcada. Seus dedos, vermelhos e doridos de lavar louça por dez horas seguidas, apertavam as parcas gorjetas, mal suficientes para a passagem do autocarro do dia seguinte, quanto mais para o aluguel em atraso que o senhorio não parava de exigir. As luzes da rua cintilavam sobre sua cabeça, lançando sombras inquietantes sobre o passeio coberto de neve enquanto ela atravessava o beco atrás da Avenida Augusta. Inês percorrera aquele caminho inúmeras vezes, mas naquela noite era diferente, de algum modo; o silêncio mais opressivo, a escuridão mais profunda. Ela quase tropeçou nele, uma forma amarfanhada meio escondida entre um carro estacionado e a parede de tijolos de uma loja abandonada. À primeira vista, pensou ser apenas mais um monte de roupas descartadas, até notar os sapatos de couro caro e a leve subida e descida da respiração.

Ajoelhando-se, Inês virou o rapaz com cuidado, ofegando com sua compleição mortalmente pálida. Ele não poderia ter mais de 14 anos, vestindo roupas que valiam mais que todo o guarda-roupa dela, um uniforme de colégio privado sob um casaco de caxemira que parecia totalmente fora de lugar naquele bairro. “Olá, consegues ouvir-me?” sussurrou ela, verificando por lesões enquanto o seu treino de enfermagem entrava em ação. Seu pulso era fraco, mas constante. Sem feridas visíveis, mas sua pele estava fria e húmida ao toque. Sintomas que ela reconhecia bem demais. Enquanto revistava o bolso dele, à procura de identificação ou medicação, seus dedos encontraram um smartphone elegante com uma capa que provavelmente custava mais que o seu salário semanal.

O ecrã de bloqueio mostrava apenas um contacto de emergência. “Pai”, sem nome, apenas aquela palavra singular que mudaria o rumo da sua vida para sempre. Seu dedo pairou sobre o botão por um instante antes de pressioná-lo, com o coração a bater descompassado enquanto a chamada se ligava quase instantaneamente. “Diogo,” veio a resposta, uma voz grave e com sotaque que de alguma forma soava simultaneamente preocupada e ameaçadora. “Hum, aqui não é o Diogo,” respondeu Inês, a voz mais trémula do que pretendia. “Chamo-me Inês e encontrei um rapaz desmaiado na Avenida Augusta, perto da Rua Garrett. Acho que este é o número do pai dele.”

O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que Inês pensou que a chamada tinha caído, até ouvir o som subtil de respiração acelerada do outro lado. “Ele está a respirar?” O homem perguntou finalmente. Sua voz agora dura como aço. Todo o pretexto de calma desaparecera. “Sim, mas está inconsciente. Acho que pode ser hipoglicemia. Sou estudante de enfermagem e ele apresenta todos os sinais de uma queda severa de açúcar no sangue,” explicou Inês, automaticamente adotando o tom clínico que praticara nos seus turnos hospitalares. “Não o movas. Não ligues a mais ninguém.” A voz do homem transformara-se em algo que fez o sangue de Inês gelar. “Estou a 10 minutos de distância. Fica exatamente onde estás e mantém-no aquecido.”

Exatos 8 minutos depois, Inês ouviu o ronco suave de um motor potente quando um SUV preto com vidros fumados deslizou até parar no passeio. Três homens saíram em perfeita sincronização, dois posicionando-se em cada lado do veículo, enquanto o terceiro se aproximava com passadas decididas. Mesmo à distância, Inês conseguia sentir a autoridade que dele emanava, alto e imponente num sobretudo feito sob medida que não conseguia ocultar totalmente o volume do que ela instintivamente sabia ser um coldre de ombro. Seus traços eram nítidos e aristocráticos, olhos escuros a percorrer a rua antes de se fixarem nela com intensidade laser. “Senhor Albuquerque.” O homem apresentou-se secamente enquanto se ajoelhava ao lado do filho, seus movimentos não revelando nenhum do pânico que um pai normal mostraria.

“Disseste hipoglicemia?” Inês anuiu, observando enquanto ele tirava um pequeno estojo do bolso do casaco com eficiência experiente. “O Diogo tem diabetes. Tipo um, desde os oito anos,” explicou, administrando uma injeção com a confiança de alguém que já o fizera inúmeras vezes. Em momentos, a cor começou a voltar ao rosto do rapaz, suas pálpebras abrindo-se para revelar olhos idênticos aos do pai. “Pai,” murmurou ele, claramente desorientado. “Esqueci o meu estojo de emergência no colégio depois do treino de basquetebol, e pensei que conseguiria chegar a casa.” A expressão do Senhor Albuquerque suavizou-se quase impercetivelmente enquanto ajudava o filho a sentar-se. “Vamos discutir a tua má decisão mais tarde,” disse, embora o alívio na sua voz minasse a tentativa de severidade das palavras.

Enquanto ajudavam Diogo a levantar-se, Inês começou afastar-se com hesitação, considerando a sua boa ação terminada. “Espera,” ordenou o Senhor Albuquerque sem a olhar, a palavra única a imobilizá-la mais eficazmente que uma barreira física. “Obrigado por ajudares o meu filho,” disse, finalmente virando-se para ela por completo, seu olhar penetrante parecendo catalogar cada detalhe da sua aparência: o uniforme gasto sob o seu casaco puído, a exaustão gravada nos seus traços, a determinação nos seus olhos apesar de tudo. “Qualquer um teria feito o mesmo,” respondeu Inês, embora ambos soubessem que não era verdade. “Não neste bairro, não a esta hora, não por um estranho que gritava riqueza e vulnerabilidade em partes iguais.”

O Senhor Albuquerque meteu a mão no bolso, e Inês instintivamente recuou, seu orgulho eriçando-se com a ideia de lhe ser oferecido dinheiro. “Não preciso de recompensa,” disse rapidamente, erguendo o queixo com a dignidade teimosa que a carregara através de anos de pobreza. “Não uma recompensa,” corrigiu ele, estendendo um cartão de visita de papel de alta gramagem com nada além de um número de telefone gravado a prata. “Uma oportunidade. Liga para este número amanhã de manhã. Tenho uma proposta para alguém com os teus conhecimentos médicos e carácter moral.” Quando o SUV desapareceu na noite com Diogo em segurança lá dentro, Inês ficou sozinha na esquina da rua, o cartão de visita caro a sentir-se incrivelmente pesado na sua mão. Algo lhe dizia que aceitar a sua oportunidade mudaria irrevogavelmente o rumo da sua vida. Apenas não conseguia decidir se essa mudança seria salvação ou destruição.

Inês passou a noite a revolver-se na cama, o cartão de visita no seu criado-mudo parecendo brilhar na escuridão. Quando a manhã chegou, ela discou o número com dedos trémulos, surpreendida quando uma voz feminina e precisa atendeu imediatamente e a instruiu para chegar a um endereço no bairro mais abastado da cidade em exatas 2 horas. A mansão que se erguia diante dela fazia o seu prédio de apartamentos parecer uma casa de bonecas em comparação. Grades de ferro ornamentais separaram-se silenciosamente enquanto o guarda de segurança verificava o seu BI, acenando-lhe para seguir por um caminho de entrada circular, onde sebes perfeitamente aparadas emolduravam a fachada de pedra calcária.

O Senhor Albuquerque esperava no que ela assumiu ser o seu escritório, uma sala maior que o seu apartamento inteiro, alinhada com livrosForresteado por estantes de livros antiquíssimos, ele estendeu-lhe a mão não com um aperto, mas com um gesto de quem a convidava a entrar definitivamente no seu mundo, e ela, sem hesitar, aceitou.

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