Risco no Rio: O Resgate de Uma VidaEle emergiu das águas geladas com a criança segura em seus braços, um herói de coragem inabalável.

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Um motociclista que eu nunca tinha visto antes tirou o meu filho de seis anos do Rio Tejo no dia 14 de Janeiro. A água estava a 1,5 graus. O meu menino tinha estado submerso durante quase dois minutos.

Preciso de contar esta história porque as pessoas ainda olham para os motociclistas como se fossem perigosos. Como se fossem algo de que se deve proteger as crianças. Mas o homem que salvou a vida do meu filho tinha uma barba grisalha que lhe chegava ao peito e um casaco de cabedal tão velho que se estava a desfazer pelas costuras.

Estávamos no Parque das Nações. Só eu e os meus dois rapazes. O Tiago queria atravessar a velha ponte pedonal, mesmo depois de eu lhe ter dito que o corrimão estava gelado. Estava a apertar o sapato do Lucas quando ouvi o chapão.

Olhei para cima e o Tiago tinha desaparecido. Simplesmente desaparecido. A corrente já o tinha arrastado dois metros de distância de onde tinha caído.

Corri. Saltei pela margem abaixo, os meus pés bateram no gelo da beira e eu caí com força. Esmaguei o joelho numa pedra. Tentei arrastar-me em direção à água, mas a minha perna não aguentava.

Estava a gritar o nome dele. A gritar por alguém. O casaco do meu filho tinha enchido de ar à volta da sua cara e ele não conseguia manter a cabeça fora de água.

Depois, ouvi botas no cascalho. Botas pesadas e rápidas. Um homem com um colete de cabedal passou por mim como se eu nem lá estivesse. Não abrandou. Não testou a água. Entrou no rio a correr e mergulhou.

Três segundos. Cinco segundos. Dez segundos. Nada.

Não conseguia respirar. Também não conseguia ver nenhum deles. A água estava escura e a correr depressa e o meu filho estava algures debaixo dela.

Depois o motociclista emergiu a segurar o Tiago com um braço. O meu menino estava mole. Os seus lábios estavam cinzentos. O motociclista tremia tanto que os seus dentes batiam uns nos outros, mas ele não o largava.

Ele arrastou o Tiago para a margem e começou a fazer RCP com as mãos tão frias que pareciam roxas. Eu arrastei-me para lá e coloquei a minha mão no peito do meu filho e ele não respirava.

Perdi as estribeiras. Agarrei o braço do motociclista e gritei com ele. Disse-lhe para fazer alguma coisa. Disse-lhe para o consertar. Como se a culpa fosse dele. Como se gritar com um estranho trouxesse o meu filho de volta.

O motociclista não se mexeu. Não ergueu a cabeça. Ele apenas disse: “Minha senhora, preciso que ligue para o 112 agora mesmo.” A sua voz era calma. Firme. Como se já tivesse feito isto antes.

Procurei o meu telemóvel com mãos que não paravam de tremer. Deixei-o cair duas vezes na lama. Finalmente, consegui desbloquear o ecrã e marcar.

Enquanto eu falava com a operadora, o motociclista continuou a trabalhar. Compressões. Respiração. Compressões. Respiração. Todo o seu corpo tremia de frio. A água escorria-lhe da barba para a cara do Tiago. Mas as suas mãos mantiveram-se firmes. Cada compressão medida. Cada respiração deliberada.

O Lucas estava parado a um metro de distância. Ele tinha três anos e não fez um som. Apenas ficou ali com as suas luvas penduradas nas mangas do casaco, a olhar para o irmão no chão.

Essa imagem ainda me parte.

Quarenta e cinco segundos de RCP. Foi o que foi preciso. Quarenta e cinco segundos que pareceram quarenta e cinco anos.

O Tiago tossiu. A água saiu-lhe da boca. Depois mais água. Depois, ele inspirou de forma tão brusca que soou como um grito. Os seus olhos abriram-se de repente e ele agarrou o pulso do motociclista com as duas mãos e manteve-se agarrado como se nunca fosse o largar.

O motociclista recuou na lama. Não disse nada de corajoso ou heróico. Ele apenas colocou uma mão sobre a cara e respirou. Os seus ombros tremiam. Pensei que fosse do frio. Não era do frio.

Puxei o Tiago para o meu colo e embrulhei-o no meu casaco. Ele estava a chorar. Eu estava a chorar. O Lucas aproximou-se e sentou-se na lama ao nosso lado, sem ser preciso pedir.

O motociclista levantou-se passado um minuto. Deu uns passos para o lado. Apoiou-se a uma árvore. Eu conseguia ver as suas mãos a tremerem junto ao corpo.

“Obrigada” não me pareceu suficiente. Não me pareceu nada. Como é que se agradece a alguém por lhe devolver o seu filho? Que palavras cobrem isso?

Disse-o na mesma. “Obrigada. Muito obrigada.”

Ele acenou com a cabeça. Ainda apoiado na árvore. Ainda a tremer.

A ambulância chegou em oito minutos. Dois paramédicos desceram a correr a margem com uma maca e mantas térmicas. Embrulharam o Tiago e verificaram os seus sinais vitais. Um deles olhou para o motociclista e disse: “Foi o senhor que o tirou de lá?”
“Sim, senhor.”
“Quanto tempo é que ele esteve submerso?”
“Minuto e meio. Talvez dois.”
O paramédico abanou a cabeça. “Mais trinta segundos e estaríamos a ter uma conversa diferente.” Ele olhou para mim quando o disse. Quase vomitei.

Colocaram o Tiago na ambulância. Eu entrei atrás dele com o Lucas ao colo. Enquanto as portas se fechavam, olhei para trás para o motociclista. Ele ainda estava parado junto daquela árvore. Ensopado. O frio de Janeiro. Sem se mover na direção de um carro ou de um edifício quente. Apenas ali parado.

Queria dizer mais qualquer coisa. Algo melhor. Mas as portas fecharam-se e nós partimos.

No hospital, disseram-me que o Tiago tinha sorte. A sua temperatura corporal tinha descido para 34 graus. Aqueceram-no lentamente com mantas aquecidas e fluidos intravenosos mornos. Um médico explicou que as crianças por vezes sobrevivem melhor à submersão em água fria do que os adultos porque os seus corpos desligam mais depressa, diminuindo a necessidade de oxigénio.

“A RCP é o que o salvou”, disse ela. “Quem a fez sabia exactamente o que estava a fazer.”

O Tiago ficou em observação durante a noite. O Lucas e eu dormimos na cadeira ao lado da sua cama. Eu não dormi. Apenas observei o Tiago a respirar. Dentro. Fora. Dentro. Fora. Cada respiração era a prova de que a pior coisa que alguma vez imaginei não tinha realmente acontecido.

Na manhã seguinte, a polícia apareceu para recolher um depoimento. Contei-lhes tudo. Descrevi o motociclista. A barba grisalha. O colete de cabedal. Os *patches*. As botas.

O agente escreveu tudo e disse: “Sabe o nome dele?”
Eu não sabia. Não sabia o seu nome. O homem que salvou a vida do meu filho e eu nem sequer sabia o seu nome.

Isso incomodou-me mais do que tudo. Mais do que o acidente em si. Aquele homem tinha entrado em água gelada sem pensar, feito RCP no meu filho com mãos que pareciam pertencer a um cadáver, e eu tinha-o deixado ir embora sem sequer perguntar quem ele era.

Naquela noite, publiquei no Facebook. Contei a versão resumida. Perguntei se alguém conhecia um motociclista que tinha estado no Parque das Nações no dia 14 de Janeiro. A publicação foi partilhada 200 vezes na primeira hora. Depois 500. Depois mais de mil.

DoDois dias depois, recebi uma mensagem de uma mulher chamada Ana, que disse: “Acho que está à procura do meu marido, o seu nome é Artur, Artur Santos.”

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