Pensei que minha irmã era uma aproveitadora: Quatro anos morando de graça em minha casa!

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Pensava que a minha irmã era uma acomodada. Estava há quatro anos vivendo gratuitamente na minha casa. Na sexta-feira, apareceu com quatro sacolas de roupa de grife dizendo que finalmente tinha recebido algum dinheiro. Ontem, entrei com uma ação. Hoje, daria tudo para não ter aberto a quarta sacola.

Tenho 39 anos. Sou a irmã mais velha de duas e, a vida toda, fui a responsável. A que estudou, a que se organizou, a que comprou seu apartamento aos trinta e dois anos, com um empréstimo que ainda estou pagando.

Sofia tem 35 anos e sempre teve um talento especial: tudo de ruim que lhe acontece é culpa do mundo. O trabalho era explorador. O chefe não gostava dela. O namorado drenava suas energias.

Há quatro anos, bateu à minha porta com duas malas. O senhorio a tinha colocado para fora de um dia para o outro. Precisava de um mês, no máximo dois.

Deixei-a entrar. Era minha irmã.

Os dois meses tornaram-se quatro anos. Não pagou aluguel, não pagou contas, não comprou mantimentos e nunca cozinhou para nós. Eu chegava do trabalho e encontrava a cozinha bagunçada, a televisão ligada e ela no sofá, com o celular de cabeça para baixo.

Emprestei dinheiro a ela três vezes. Nunca me reembolsou.

Naquela noite, peguei meu caderno de contas. Entre o quarto que não aluguei, as contas, os mantimentos e os empréstimos, Sofia me devia quase trezentos mil reais. Com datas. Até com juros calculei.

Foi por isso que chamei o advogado. Por isso não hesitei.

O que sempre me parecia estranho, e que deixei passar por quatro anos, era minha mãe. Sempre que eu reclamava de Sofia, ela me cortava na hora. “Não seja severa com sua irmã.” E não era tom de mãe cúmplice. Era outra coisa. Algo que eu sentia, mas não sabia nomear.

E o porta-comprimidos. Um porta-comprimidos rosa na minha cozinha, por semanas, que eu pensava que era de Sofia para sei lá o quê. Nem perguntei.

Abri a quarta sacola no corredor, irritada, querendo jogar suas novas roupas para que entendesse com quem estava se metendo.

Não eram roupas.

Era uma pasta do INSS.

Retirei-a devagar. Estudos médicos. Receitas. Um calendário de consultas com datas escritas à mão, as tardes exatas em que Sofia “saía com as amigas”.

Virei a pasta procurando o nome.

Não dizia Sofia.

Dizia o nome da minha mãe.

Entrei no quarto dela sem bater. Sofia estava dobrando as roupas novas sobre a cama.

— O que é isso, Sofia?

— Deixa isso pra lá.

— Por que a pasta tem o nome da minha mãe?

Ela congelou. Sua expressão desapareceu.

— Não é da sua conta.

— É minha mãe.

— Agora é da MINHA conta. Você estava ocupada sendo a bem-sucedida.

Joguei a demanda sobre a cama.

— Quatro anos sem trabalhar. Quatro anos.

E ali ela gritou algo que ainda ressoa em mim:

— Não consegui emprego porque alguém tinha que levar a mãe delas à diálise três vezes por semana, e essa pessoa não seria você!

Minha garganta se fechou. As roupas de grife dobradas na cama, com as etiquetas ainda presas.

— Mentira. As roupas. O dinheiro do ex.

— Não houve ex — disse ela, já em lágrimas —. Vendai meu carro.

Peguei a pasta novamente. A data da última consulta era de sexta-feira. Na sexta. O dia das sacolas.

— E isso? As roupas? Você foi às compras no mesmo dia em que a levou para aquela máquina?

Sofia colocou as roupas na cama e alisou com a mão, devagar, como se importasse com as rugas.

— As roupas são dela — disse baixinho —. Ela vai usá-las.

E eu não entendi como deveria. Imaginava minha mãe inchada, cansada, farta de se ver doente, querendo, pela primeira vez, parecer uma paciente. Aparentar estar bem. E eu aqui, pensando que minha irmã havia se dado um luxo com meu dinheiro.

Senti vergonha. Abaixei a voz.

Liguei para minha mãe com as mãos tremendo. Chamou. Chamou. E Sofia atendeu, dez segundos depois, de seu próprio quarto, em voz baixa, sem parar de chorar. Disse para eu não ligar mais para aquele número. Que aquele número era dela há um mês. Que eu me sentasse.

— Por que você tem o telefone da minha mãe?

E minha irmã, a preguiçosa, a que “não fez nada” em quatro anos, a que naquela mesma manhã eu havia acionado judicialmente enquanto tomava café, olhou para mim com uma calma terrível e começou a me explicar por que minha mãe nunca me contou nada. Por que me deixaram acreditar todos esses anos que Sofia era um fardo e eu a boa:

Tive que arrancar a verdade dela, palavra por palavra, ali parada na porta do quarto, com a pasta tremendo na minha mão.

— Fala, Sofia. Por que minha mãe tem visto um médico há um ano e eu só descubro por causa de uma sacola?

Ela baixou a cabeça.

— Porque me fez jurar.

— Jurara o quê?

— Que você não iria saber de nada.

Ri. Uma risada feia, daquelas que saem quando você já não sabe o que fazer com o corpo.

— Ela está doente. É minha mãe também.

— Eu sei que é sua mãe — disse ela, e pela primeira vez em quatro anos me encarou sem desviar os olhos —. Por isso não te falei. Porque sei exatamente o que você faria.

E em vez de me contar o pior, ela ficou em silêncio. Deixou-me com a pasta aberta, olhando uma palavra sublinhada em amarelo que não entendia, e uma data, e as siglas de um serviço que eu pensava que era para outras pessoas. Para pessoas mais velhas. Para pessoas que não eram minha mãe.

Naquela noite, não me contou tudo. Deixou que eu fosse tomando conhecimento aos poucos, naquela mesma madrugada e o dia todo sábado, como quem desata um nó apertado há meses.

O primeiro pedaço que me deu foi me sentando na beira da cama dela, falando baixo, como se falar alto tornasse tudo mais real.

Os rins. Os dois.

Fazia cerca de um ano que minha mãe começou a inchar dos pés, a se cansar sem razão, a dormir durante as tardes. Eu a vi. A vi nos almoços de domingo e pensei “ela está ficando velha, cansada demais”. Não perguntei.

Sofia perguntou. Sofia a levou ao INSS a primeira vez, quando eu estava em uma reunião que não me lembro nem do que era.

Diálise três vezes por semana. Segunda, quarta e sexta. Quatro horas cada uma, conectada a uma máquina, com Sofia ao lado segurando sua mão.

Essas eram as tardes.

As tardes em que eu reclamava. “Saíste de novo com suas amigas.” “Mais uma vez você está de bobeira enquanto eu estou me matando de trabalhar.” Eu disse isso a ela não sei quantas vezes. Ela nunca me respondeu. Ia direto para o sofá, o celular de cabeça para baixo, sem falar comigo.

Eu pensava que era preguiça.

Não dormi. Mas já não por causa da dívida.

Levantei-me por volta das três da manhã e fui para a cozinha no escuro, e fiquei olhando o porta-comprimidos rosa. Estava ali há meses, ao lado do açucareiro, e sempre que o via pensava “que bagunça, até as pílulas ela deixa jogadas pelo chão”.

Abri-o.

Segunda, terça, quarta. Cada compartimento com suas pílulas contadas. Uma etiqueta colada por baixo, com a letra de Sofia, com os horários. Não era de Sofia o porta-comprimidos. E ele era cheio a cada domingo na minha cozinha, enquanto eu a observava de cima a baixo pensando que não servia para nada.

Sentei-me no chão. Às três da manhã, no chão da cozinha, com o porta-comprimidos na mão.

E ali, finalmente, dei nome àquela voz da minha mãe que nunca soube entender. “Não seja severa com sua irmã, filha.” Eu pensei que era favoritismo, que a mais nova tinha tudo perdoado. Desconectei brava.

Era uma mulher doente pedindo a uma filha que não destruísse a única pessoa que a sustentava.

Peguei o caderno. Meu caderno sagrado, com cada centavo anotado: o aluguel, a conta de luz, os mantimentos, os três empréstimos. Três colunas inteiras.

Nenhuma dizia diálise. Nenhuma dizia mãe.

Na manhã de sábado, finalmente, confrontei-a. Sentei-a à mesma mesa, na mesma cadeira onde no domingo lhe entreguei a ação. Os papéis ainda estavam ali, ao lado do açucareiro.

— Preciso que me diga por quê —falei—. Não como. Por quê.

Sofia juntou as mãos. Parecia cansada de um cansaço que não era apenas daquela manhã. Era de meses.

— Porque você ainda está pagando o apartamento —disse.

— E isso?

— Que se você soubesse que minha mãe estava morrendo, você iria querer levá-la para sua casa. Você pagaria um quarto em um hospital particular. Você venderia o que fosse. Dormiria pouco para cuidar dela à noite e trabalharia durante o dia até se esgotar.

Sua voz quebrou.

— E minha mãe não queria isso. Não queria levar sua vida junto com a dela.

— É minha mãe —disse a ela, e já chorava—. Eu a cuidaria feliz.

— Já sei. Ela também sabia. Por isso te escondeu. Porque sabia que você diria sim a tudo.

Foi aí que ela me falou uma frase que vai doer em mim até o fim da vida.

— Me fez jurar que te deixasse ser a bem-sucedida. Mesmo que você tivesse que me odiar para conseguir.

Não consegui responder.

— Você podia me contar —disse depois—. Ao menos a mim. Em particular.

— Jurei a minha mãe —disse—. Já falhei em tudo, minha vida inteira. Nesse aspecto, não iria falhar.

Essa foi a parte que me quebrou. Que nem sequer fez isso porque era boa. Fez porque era a única coisa bem feita que sentia que poderia realizar na vida, e não deixaria que eu tirasse isso dela.

Na noite de sábado, peguei os papéis da mesa. A demanda. O contrato com a data retroativa. Toda a minha raiva convertida em tinta e assinaturas.

Rasguei. Não foi como no filme, não chorando bonitinho. Rasguei de forma desajeitada, sobre a lixeira, e ainda sobrou pedaços no chão que agachei para juntar.

Então, disse a Sofia que na segunda-feira seria eu. Que ela estava há um ano nas segundas, quartas e sextas, e que na próxima segunda me caberia a cadeira de plástico.

Ela me olhou como se não pudesse acreditar. Como se carregasse sozinha tanto tempo que já não soubesse que se poderia compartilhar.

— Você não precisa —disse.

— Já sei que não preciso. Quero.

Quatro anos atrasada. Mas queria.

Na segunda não houve cadeira de plástico.

Minha mãe piorou no domingo de madrugada. Chegamos ao hospital as duas, Sofia dirigindo o carro que já não era dela porque o vendeu, eu atrás com minha mãe segurando sua mão, falando ao seu ouvido coisas que não disse há quatro anos porque estava muito ocupada.

Não sei se me ouviu. Os médicos disseram que talvez sim, que a audição é a última a partir. Quero acreditar neles.

Ela se foi na segunda à tarde. À hora em que era seu horário de diálise.

Foi na funerária, escolhendo com o que a vestiríamos, que Sofia finalmente me contou o que ainda faltava.

Duas semanas antes, minha mãe pedira uma última coisa. Uma única.

Que lhe comprasse algo bonito. De grife. Bom. Para estrear.

Eu, que durante dois dias acreditei que aquelas roupas eram o capricho de uma mulher doente que queria parecer bonita mais uma vez antes de partir, abri a boca para dizer algo e não consegui.

Porque minha mãe não as pediu para viver.

Ela as pediu para que a enterrássemos com elas.

“Ela vai usar”, me dissera Sofia no quarto. E era verdade. Palavra por palavra, era verdade. Eu entendi o que quis entender.

Sofia vendeu seu carro. Com esse dinheiro, pagou parte das diálises, parte dos remédios do porta-comprimidos rosa, e com o que sobrou, foi na sexta-feira — no mesmo dia da última diálise, com minha mãe ainda tremendo da máquina — comprar as roupas com as quais a levaríamos para Deus.

E voltou para casa com as quatro sacolas. Feliz por fora. E quando perguntei como conseguiu para “se dar um capricho”, mentiu. Disse que um ex havia pago uma dívida antiga.

Porque não foi capaz de me dizer, ali parada na minha sala: “Fui comprar o vestido com o qual vou enterrar nossa mãe.”

Essa mentira. A que me fez chamar o advogado. A que me fez sentir tão usada. A que me fez escrever a ação.

Essa mentira era minha irmã protegendo-me mais um dia da pior notícia de nossas vidas.

Enterramos minha mãe com as roupas de grife. Ela estava linda. De verdade. Estreando, como queria.

Eu a vi no caixão com aquele vestido e reconheci as etiquetas que vi Sofia na cama. As mesmas que me fizeram pensar “descarada, comprou roupas caras com meu dinheiro enquanto me deve trezentos mil reais”.

Essas etiquetas.

A quarta sacola, aquela que abri furiosa procurando algo para atirar na cara da minha irmã, eu levei para casa. Guardei em cima do guarda-roupa, vazia. O que trazia, minha mãe levou com ela, sob a terra.

Às vezes, eu a pego e abro. Meto a mão até o fundo, sem pensar, como se estivesse procurando algo que já sei que não está lá.

E me lembro de que a abri pela primeira vez para machucar a única pessoa que em quatro anos nunca me machucou.

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