CAPÍTULO 1: Uma Sombra no Palácio de Vidro
O champanhe era vintage de 98, o caviar vindo diretamente do Cáspio, e eu estava profundamente entediado.
Essa é a maldição de ter tudo — chega uma hora em que nada mais te emociona.
Meu nome é João Albuquerque. Se moras em Lisboa, conheces este nome. Já o viste em alas de hospitais ou arranha-céus imponentes. Hoje era o meu Baile de Inverno anual na minha propriedade em Cascais. Lá fora, uma tempestade engolia o caminho com quase um metro de neve. Dentro, o termóstato marcava agradáveis 22 graus, e o ar carregava o perfume de riqueza herdada e dinheiro bem gasto.
Eu estava junto à lareira, girando preguiçosamente a minha taça, enquanto um deputado discorria sobre furos fiscais, quando os gritos começaram.
Não eram exclamações de susto ou choque polido — eram gritos crus, guturais.
“Tira as mãos de mim! Estou com fome! Só quero o pão!”
O quarteto de cordas — no meio de uma peça de Vianna da Motta — calou-se de repente. As conversas morreram num silêncio pesado.
Do outro lado da sala, perto das mesas de buffet, o meu chefe de安保urança, Marco, lutava com algo pequeno e furioso.
Soltei um suspiro, deixando a taça sobre o mármore da lareira. “Com licença, Deputado.”
Atravessei o salão. Convidados cujos trajes custavam mais que um carro popular abriram caminho como o Mar Vermelho, expressões de nojo estampadas nos rostos.
“O que se passa aqui?” exigi, a minha voz cortando a tensão.
Marco olhou para mim, ofegante. Tinha o braço de uma criança agarrado com força.
Ela não devia ter mais de dez anos.
Era uma mancha na perfeição da noite. O rosto sujo de fuligem, o casaco enorme, rasgado e manchado de algo que parecia óleo.
Mas foram os pés dela que me travaram.
Descalços.
No meio do inverno, com uma nevasca lá fora, ela não usava sapatos. Os dedos vermelhos, inchados, rachados, deixavam marcas húmidas no meu soalho de madeira polida.
“Senhor Albuquerque,” Marco disse, cerrando os dentes enquanto ela se debatia. “Apanhei esta… ratazana a entrar pela cozinha. Estava a encher os bolsos de pães.”
A menina parou de lutar ao ver-me. Olhou para cima, e os olhos dela — velhos demais para aquele rosto — surpreenderam-me. Não com medo. Com raiva.
“Não estava a roubar,” resmungou, a voz rouca. “Estava a levar as restas. Iam deitar fora na mesma.”
Um murmúrio de choque percorreu a sala. Uma mulher de vestido de veludo vermelho agarrou as pérolas. “Que audácia,” sussurrou.
Olhei para a mesa atrás dela — repleta de lagosta, carne assada, pastéis de nata. Ela não mentia. Desperdiçávamos comida suficiente para alimentar uma aldeia.
Mas eu não era obra de caridade. Era um homem de negócios. E detestava interrupções.
“Marco,” disse, friamente. “Chama a polícia. Tira-a da minha vista.”
“Não!” Ela gritou, caindo de joelhos e arrastando Marco com ela. “Por favor! Não a polícia. Eles vão separar-nos. Não posso voltar para o lar. Por favor!”
“*Nós*?” Franzi a testa. “Estás sozinha.”
“O meu irmão,” soluçou, lágrimas limpando a sujidade do rosto. “Ele está lá fora. Está doente. Precisa de comida. Por favor, senhor. Faço o que for. Limpo o chão. Só me deem um prato.”
Olhei em volta. Os convidados observavam, à espera de ver se o “Lobo de Ferro da Bolsa” tinha coração.
Eu não tinha. Corações são passivos.
Mas tinha curiosidade. E um senso de humor distorcido.
Os meus olhos pousaram no centro da sala.
O meu piano de cauda Steinway & Sons — elegante, negro, imponente — repousava no seu palco. Uma obra-prima de duzentos mil euros, intocada desde que o pianista cancelou por gripe.
Uma ideia formou-se. Cruel. Divertida.
“Larga-a, Marco.”
Ele hesitou. “Senhor?”
“Larga-a.”
Ele soltou-a. Ela recuou, esfregando o braço, os olhos piscando para a porta como um animal encurralado.
“Disseste que farias qualquer coisa por um prato de comida,” aproximei-me, pairando sobre ela. “É verdade?”
Ela anuiu, desesperada. “Sim. O que for.”
“Ótimo.” Apontei para o piano. “Toca.”
O salão ficou em silêncio.
Ela pestanejou. “O quê?”
“O piano,” repeti, desafiador. “Queres comer como gente fina? Então diverte-nos. Senta-te e toca uma música. Se for boa — se conseguires prender a atenção dos meus convidados por cinco minutos — podes levar toda a comida que conseguires carregar.”
Alguns convidados riram, nervosos. Achavam que era uma piada. Um espetáculo para humilhar uma miúda da rua.
“E se não conseguir?” sussurrou ela.
Inclinei-me. “Então o Marco atira-te para a neve, e chamo a polícia por invasão de propriedade.”
Impossível. Ela era sem-abrigo. Provavelmente mal sabia ler, quanto mais tocar.
Esperei lágrimas. Suplicas.
Mas ela olhou para o piano — realmente olhou — com uma intensidade que me surpreendeu. O medo desapareceu, substituído por algo estranhamente calmo.
Observou as mãos sujas. Moveu os dedos vermelhos e gretados.
“Está bem,” disse.
“Está bem?”
“Vou tocar.”
Virou-se e caminhou para o palco, descalça, mancando ligeiramente. Os convidados recuaram, afastando as roupas caras para o “lixo” não as tocar.
Ela subiu os dois degraus. O banco era alto demais, mas ela não o ajustou — apenas se sentou na ponta.
Parecia ridícula. Um pontinho sujo diante de um monstro negro.
“Isto vai doer,” murmurou um homem ao meu lado, tapando os ouvidos. “Aposto cinco euros que vai bater nas teclas como um bebé.”
“Dez que o estraga,” riu outro.
Cruzei os braços. “Vamos lá, miúda,” disse. “Impressiona-me.”
Ela não olhou para trás. Fechou os olhos. Respirou fundo.
As mãos pairaram sobre as teclas — unhas pretas de sujidade, nós dos dedos com cicatrizes.
Olhei para o relógio, pronto a acenar a Marco ao primeiro erro.
Então as mãos dela caíram.
E o mundo parou.
CAPÍTULO 2: Sangue no Marfim
Não era uma melodia infantil. Não era “O Malhão” ou “Pátria”.
O primeiro acorde que explodiu do Steinway foi como um trovão. O Prelúdio em Dó# Menor de Rachmaninoff.
O som era avassalador — escuro, denso, vibrando com tanta força que subiu pelas solas dos meus sapatos italianos e entrou nos meus ossos.
Fiquei imóvel. A minha taça de whisky escorregou-me da mão. Nem senti o vidro a estilhaçar no chão, porque a música engoliu tudo.
A miúda — esta criança suja, trE no final, enquanto o eco do piano se misturava com o riso do Léo e o calor daquela casa, percebi que a verdadeira fortuna nunca esteve no dinheiro, mas naqueles dois corações que agora batiam livres e felizes sob o meu teto.