O gelo estalou tão alto que Maria nem percebeu de imediato: não era um ramo, era algo terrível.
Estava de pé na margem do lago do parque da cidade com um saco onde levava dois pães e um pacote de bolachas das mais baratas. A mãe prometera fazer uma torta de maçã se ela levasse tudo antes de escurecer. O sol de Dezembro já se punha, tingindo a neve de rosa, e a menina apressava-se, mas aquele som fez-a parar.
E então viu: no meio do lago, onde o gelo era mais fino, um homem debatia-se. Um casaco preto, elegante, como nos filmes dos ricos, desaparecia no buraco, as mãos agarravam-se às bordas que se partiam logo de seguida.
— Socorro! — gritou o homem, mas a voz era estranhamente fraca, como se já estivesse cansado de gritar.
Maria olhou em volta: na alameda havia pessoas. Uma senhora com um casaco de vison observava, com a mão no peito, mas não se mexia. Um homem de fato de treino sacou do telemóvel — não se sabia se para filmar ou telefonar. Um casal de estudantes trocou olhares e seguiu noutra direção, depressa, quase a correr.
— Chamem alguém! — gritou a senhora do vison, mas ela própria não se moveu.
Maria olhava para o homem a afogar-se e pensava no que a mãe lhe dissera, para nunca pisar o gelo. A mãe dissera muitas coisas: que não devia falar com estranhos, que não devia aceitar doces de desconhecidos, que tinha de ter cuidado porque ela, Maria, era a única coisa que lhe restava. Mas a mãe também dissera que as pessoas deviam ajudar-se umas às outras, porque senão o mundo transformar-se-ia num sítio frio, onde cada um cuida de si.
Maria olhou para o saco com o pão, depois para o buraco no gelo, depois para as pessoas que ainda estavam paradas a observar. O homem na água já quase não gritava, apenas se agarrava à beira do gelo e olhava para a margem com uns olhos onde Maria, mesmo àquela distância, via o medo.
Não se lembrava de como chegara ao gelo. De repente, percebeu que corria, que as suas botas de feltro escorregavam e que o coração batia tão forte que abafava tudo o resto.
— Menina, onde vais? — gritou alguém da margem, mas Maria já não ouvia.
Sabia que não se podia aproximar muito do buraco — na escola tinham mostrado imagens, explicado. Por isso, deitou-se no gelo a uns três metros do buraco e rastejou. O cachecol desenrolou-se e arrastou-se ao lado, como uma serpente ruiva.
— Vai-te embora! — engasgou-se o homem quando a viu. Os dentes batiam, os lábios estavam azuis, mas os olhos zangados. — Sai daqui, criança, vais cair!
Maria não respondeu. Olhou para ele, depois para o gelo à volta do buraco, depois para o seu cachecol. O cachecol era comprido, a avó tricotara-o antes de morrer, e a mãe dissera que era uma recordação e que se devia guardar. Mas a avó também dissera que as coisas são apenas coisas, e que as pessoas são mais importantes.
Maria tirou o cachecol e atirou uma ponta na direção do homem. O cachecol caiu na água ao lado da sua mão.
— Agarrem-se! — disse com uma voz que não reconheceu.
— Não consigo puxar-te — respondeu o homem, mas agarrou o cachecol na mesma.
— Tem de ser você. Eu seguro, e você puxa. Mas não puxe com força, senão eu escorregarei na sua direção.
Não sabia de onde tinham vindo aquelas palavras. Talvez de algum filme, talvez de um livro que a mãe lera. O homem olhou para ela durante um segundo, dois, depois acenou com a cabeça. Começou a puxar-se, e Maria sentiu o cachecol a esticar, a puxá-la para a frente. Apoiou as botas de feltro no gelo, mas as botas escorregavam. Então, virou-se de costas, enrolou o cachecol à volta do pulso e apoiou os calcanhares. Assim era melhor, quase não se mexia.
O homem saía da água devagar, muito devagar. O gelo sob ele estalava, e de cada vez Maria pensava que ia cair de novo, mas ele não caía. Rastejava na sua direção, deixando um rasto molhado atrás de si, e o seu casaco caro parecia agora um trapo. Quando chegou ao pé dela, Maria viu que não era nada velho, talvez como aquele ator da novela de que a mãe gostava. Rosto bonito, mas agora cinzento e assustador.
— Vamos rastejar para a margem — disse ela. — Devagar. Não se levante.
Rastejaram durante uma eternidade. Maria ouviu gente a gritar na margem, uma sirene a uivar — alguém chamara uma ambulância. Pensou que a mãe iria ralhar, que o cachecol agora estava molhado e sujo, que o pão provavelmente estava esmagado no saco que deixara na margem.
Quando chegaram finalmente à margem sólida, Maria sentou-se na neve e chorou. Não de medo — o medo viria mais tarde, de noite, quando estivesse na cama a recordar o estalar do gelo. Agora chorava apenas porque tudo acabara, e porque estava muito gelada, e porque o homem ao seu lado também chorava, embora os homens adultos supostamente não o devessem fazer.
À sua volta as pessoas já se agitavam, tinham aparecido de algum lado, como baratas quando se acende a luz. A senhora do vison estendia a Maria o seu cachecol, um homem qualquer telefonava, os médicos da ambulância corriam com uma maca.
— Como te chamas? — perguntou o homem molhado, e os dentes batiam de tal forma que as palavras saíam aos troços.
— Maria. Maria Silva.
— Eu sou o Diogo. Obrigado, Maria Silva.
Os médicos já o arrastavam para a carrinha, enrolavam-no num cobertor, mas ele não parava de olhar para ela. Maria viu a ambulância afastar-se, depois apanhou o seu saco — o pão estava mesmo amassado, mas não muito — e seguiu para casa.
A mãe recebeu-a aos gritos. Não zangada, mas assustada: alguém dos vizinhos já ligara a contar que vira Maria no gelo. Vera Silva, 29 anos, bonita mesmo agora, com o rosto branco de terror, agarrou a filha pelos ombros e abanou-a, perguntando o que acontecera e porque é que ela fizera aquilo.
Maria contou tudo como fora: o estalo, o homem, o cachecol. A mãe ouviu, e a sua expressão mudou: primeiro medo, depois surpresa, depois um orgulho estranho, depois medo novamente.
— Podias ter-te afogado — disse ela finalmente.
— Eu sei.
— Nunca mais faças uma coisa dessas.
— E se ele tivesse morrido?…
A mãe não respondeu. Apenas abraçou Maria com tanta força que ela quase não conseguia respirar, e não a largou durante muito tempo.
À noite, fizeram a torta de maçã na mesma, embora as maçãs tivessem ficado um pouco queimadas, porque a mãe distraíra-se a olhar para Maria, como se quisesse ter a certeza de que ela estava ali.
O apartamento delas era pequeno, um T0 num prédio antigo nos arredores da cidade. O papel de parede descolava-se nos cantos, o aquecedor aquecia muito pouco e a janela da cozinha estava tapada com plástico porque rachara no inverno passado e não tinham dinheiro para uma nova. Mas a mãe esforçava-se para o tornar acolhedor: no parapeito da janela havia gerânios, na parede penduravam-se os des A porta do hospital abriu-se e Diogo entrou, com os olhos cheios de uma determinação que Maria nunca antes vira, e ele disse as palavras que mudariam tudo para sempre.