O Último Passeio com Meu Avô A brisa da estrada acariciou seu rosto enquanto ele sorria, algo que eu não via há anos.

6 min de leitura

Roubei o meu avô, um motard paralisado, do lar de idosos para lhe dar uma última volta no seu scooter de mobilidade, porque não aguentava mais vê-lo a morrer enquanto olhava para fotos da sua Harley.

As enfermeiras iam descobrir a cama vazia dali a duas horas, a minha mãe ia castigar-me para sempre, e o Avô nem sequer conseguia falar para me dizer se isto estava bem – o AVC tinha-lhe levado a voz e as pernas há seis meses.

Mas quando carreguei no acelerador daquele scooter e os olhos dele se encheram de lágrimas, a sua mão boa a agarrar a minha como fazia quando me ensinava a andar de mota, soube que tinha feito a coisa certa, mesmo que ninguém mais viesse a perceber.

“Vamos até à ponte, Avô,” sussurrei, a caminhar ao lado do scooter. “Aquela onde me ensinaste a andar. Lembras-te?”

Ele apertou-me a mão duas vezes. O nosso código para sim.

O que eu não lhe tinha dito era que 147 motards estavam à espera lá – todo o seu antigo clube de motas, que tinha sido proibido de o visitar depois de a minha mãe decidir que eles eram uma “má influência para a recuperação dele”.

Ela achava que ver os seus irmãos de mota o ia deixar mais triste pelo que tinha perdido. Ela não percebeu que afastá-los era o que realmente o estava a matar.

Chamo-me Tiago, e tenho onze anos. Com idade suficiente para saber quando os adultos estão a mentir, mas ainda suficientemente novo para que eles pensem que não percebo as coisas.

Como quando a Mãe disse a toda a gente que o Avô estava “melhor” no Solar da Serenidade. Não estava. Eu via-o todas as terças e sextas, quando a Mãe me deixava lá enquanto trabalhava até mais tarde. A cada visita, havia menos dele ali. Não fisicamente – o corpo dele ainda era grande, ainda parecia forte, mesmo na cadeira de rodas. Mas o seu espírito estava a desaparecer.

O Avô costumava ser o presidente dos Cavalos de Aço MC. Andou de mota durante quarenta e três anos, até aquela manhã, há seis meses, em que o coágulo lhe atingiu o cérebro. A Mãe encontrou-o no chão da garagem, com a mão estendida na direção da mota, como se estivesse a tentar alcançá-la.

Os médicos salvaram-lhe a vida, mas não conseguiram salvar as pernas. Nem a voz. O lado esquerdo do corpo estava morto, e a área da fala do cérebro estava danificada. Ele percebia tudo, mas só conseguia comunicar através de apertos de mão e dos olhos.

A Mãe vendeu a Harley dele dois meses depois.

“Ele nunca mais vai andar de mota,” disse ela, como se isso justificasse tudo. “Vê-la só o vai magoar.”

Ela estava enganada. Não a ver é que o magoava. Eu sabia porque estava lá quando ela lhe disse que a mota tinha ido embora. Algo nos olhos dele simplesmente… desligou.

Foi aí que a Mãe o mudou para o Solar da Serenidade. “Melhores cuidados,” disse ela. Mas na realidade, ela não conseguia lidar com o facto de ver o seu pai forte reduzido a uma cadeira de rodas. Não conseguia lidar com a garagem que ainda cheirava a óleo de motor e couro.

O lar era simpático, suponho. Limpo. Calmo. Cheio de idosos à espera de morrer. O quarto do Avô tinha vista para o parque de estacionamento. Ele passava horas a olhar para lá, e eu sabia que ele estava à procura de motas. À escuta daquele ronco.

Os seus irmãos de mota tentaram visitá-lo no início. Quarenta ou cinquenta deles, a revezarem-se, nunca mais do que dois de cada vez para cumprir as regras. Mas a Mãe queixou-se à administração. Disse que eles eram “perturbadores” e “impróprios para um estabelecimento médico”. Fez com que fossem banidos.

“É para o bem dele,” disse-me ela. “Ele precisa de se concentrar na recuperação, não no passado.”

Mas o Avô não estava a recuperar. Ele estava a morrer, lentamente e em silêncio, como o lar preferia.

Na terça-feira passada, encontrei-o a chorar. Sem fazer qualquer som – ele não conseguia – mas com lágrimas a escorrer-lhe pela face enquanto segurava uma foto antiga. Ele na sua Harley, eu na garupa quando tinha cinco anos, os dois a sorrir. A minha primeira volta.

Foi aí que decidi tirá-lo dali.

Eu sabia do scooter de mobilidade porque o senhor Silva, lá no fundo do corredor, às vezes me deixava andar no dele. Ele mantinha-o carregado mas nunca o usava, dizia que os filhos o tinham comprado mas que ele preferia o andarilho. Conseguia fazer treze quilómetros por hora – não era bem a velocidade de uma Harley, mas tinha rodas e um acelerador.

A parte difícil foi tirar o Avô de lá sem ninguém dar por isso. Mas eu tinha aprendido a rotina do lar. Mudança de turno às 6 da manhã, quando as enfermeiras da noite faziam as rondas finais e as do turno do dia estavam a chegar. Uma janela de quinze minutos em que os corredores ficavam vazios.

Eu tinha dito ao Avô no dia anterior, escrevendo na palma da sua mão com o dedo, já que ele ainda sentia com a mão boa: “Amanhã. Ao amanhecer. Confia em mim.”

Dois apertos. Sim.

Pô-lo da cadeira de rodas para o scooter foi difícil. Ele não conseguia ajudar muito, e mesmo com onze anos, eu não era muito forte. Mas o desespero dá-nos força. O Avô tentou ajudar com o braço bom, e juntos conseguimos.

A porta de segurança precisava de um código. Eu tinha observado as enfermeiras o suficiente para o saber: 1-9-7-4. O ano em que o lar foi construído.

Saímos para o ar da manhã, e o Avô respirou fundo, a inspiração mais profunda que lhe tinha ouvido fazer em meses.

“Agarra-te, Avô,” disse eu, ajustando-lhe os pés na plataforma do scooter. “Isto pode parecer estranho ao início.”

Carreguei no acelerador suavemente. O scooter moveu-se para a frente com um zumbido, nada que se parecesse com o rugido de uma Harley, mas a mão boa do Avô encontrou o guiador e agarrou-o. Os olhos dele estavam arregalados, vivos.

Chegámos ao passeio, depois à ciclovia que levava à Ponte Vasco da Gama. Cinco quilómetros. À velocidade do scooter, iria demorar cerca de vinte e cinco minutos. Eu corri ao lado dele, com a mão no seu ombro, a observar o seu rosto.

Dez minutos depois, os olhos dele deixavam escapar lágrimas, mas ele estava quase a sorrir – o lado bom da sua face a tentar recordar-se como.

“Quase lá, Avô. A ponte onde me ensinaste a contraesterçar. Onde disseste que o medo desaparece se confiares na mota.”

Dois apertos.

Foi então que os ouvi. Motas. Muitas.

O Avô também as ouviu. Todo o seu corpo ficou rígido, a sua mão boa a apertar o guiador com toda a força.

Eles surgiram à vista quando subimos a colina. Todo o clube MC Cavalos de Aço, alinhado ao longo da ponte. As motas deles a brilhar sob o sol da manhã. Motores em funcionamento.

A Serpente viu-nos primeiro. A Serpente, com um metro e noventa, tatuado, com um ar assustador, que costumava dar-me rebuçados quando a Mãe não estava a ver. Ele levantou o punho no ar – o sinal deles de respeito.

Cada motard fez o mesmo. 147 punhos no ar para o seu presidente paralisado.

Empurrei o scooter do Avô entre as duas filas deOs motards formaram uma guarda de honra ao nosso lado, os roncos poderosos das suas máquinas preenchendo o ar com uma sinfonia de puro afeto, e naquele momento, a mais de cem por hora, o meu avô estava finalmente em casa.

Leave a Comment