O Sussurro que Impedia um Erro Fatal Um silêncio absoluto tomou conta do ambiente, e então, lentamente, o perigo começou a se afastar.

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Acordei no escuro, com uma dor que pulsava como uma sirene dentro da minha cabeça e a clara sensação de que a minha vida pendia de uma decisão alheia.

A voz do meu marido atravessou a névoa, tranquila em excesso, perigosamente serena.

— Boa noite, agente. Foi um incidente na estrada secundária.

Uma pancada.
Depois a verdade, afiada como uma ideia impossível de ignorar:

— Ela já não é um problema. Amanhã tudo passa para o meu nome.

O sussurro de uma mulher tremeu perto de mim.

— E se ela ainda estiver viva?

Ele pareceu quase divertido.

— Não está. Confirmei.

O medo inundou-me o peito, mas contive-o. Prendi a respiração e fiquei imóvel, a ouvir, à espera do momento exato em que tomariam a próxima decisão.

A primeira coisa que notei foi a areia entre os dentes e um sabor metálico na boca. Tinha a face pressionada contra o cascalho frio. Algures acima de mim, um motor mantinha-se ao ralenti, firme, paciente, como se o tempo não importasse.

Não abri os olhos. Deixei que os cílios repousassem sobre a pele e concentrei-me em não me mexer. A cabeça latejava-me em ondas lentas e profundas, e quando tentei engolir, um desconforto agudo percorreu-me o pescoço.

Então ouvi o Tiago.

— Boa noite, agente. Um percalço na estrada secundária — disse com aquela voz entrecortada que ele sempre usava com empregados de mesa, vendedores ou funcionários do banco.

Um segundo depois, baixou o tom.

— Já não é um problema. Amanhã tudo ficará resolvido.

Uma mulher soltou uma risadinha suave. Não era polícia. Demasiado casual. Demasiado perto.

— E se ela ainda respirar? — perguntou ela.

— Não — respondeu o Tiago. — Confirmei o seu estado.

O estômago contraiu-se-me com força. Obliguei-me a permanecer quieta, contendo a respiração como quando era miúda e brincava às escondidas, como quando te mergulhas debaixo de água e tens medo que alguém te veja.

O cascalho moveu-se perto da minha orelha. Um sapato roçou a minha face. Lutei contra o impulso de estremecer.

— Meu Deus… — sussurrou a mulher, quase com admiração. — Conseguiste, realmente.

O Tiago exalou.

— Tinha de ser discreto. Se ela reagisse, ia falar.

A voz dela tornou-se prática.

— O agente vai fazer perguntas. Precisas de uma versão clara.

— Já a temos — disse o Tiago. — Ela insistiu em conduzir. Apareceu um veado. Deu uma guinada. A carrinha capotou. Trágico.

Imaginei a nossa carrinha, a que comprámos na primavera passada depois de ele me ter convencido de que era “um investimento”. A mesma que ele insistiu em segurar em meu nome, porque era “mais simples”.

Um rádio crepitou ao longe. Então sim, havia um agente perto, ou pelo menos a aproximar-se. O meu coração batia com força, a suplicar-me que me mexesse, que falasse, que fizesse alguma coisa.

Mas o Tiago conhecia os meus sinais. Sabia como eu encolhia os ombros quando entrava em pânico, como me custava fingir calma.

Uma mão tocou o meu pulso.

Quis afastar-me, mas não o fiz. Deixei que o braço ficasse pendurado sem força.

Os dedos do Tiago pressionaram o interior do meu pulso, à procura. Depois cantarolou, satisfeito.

— Vês? Nada.

A mulher disse:

— Então sigamos antes que passe mais alguém.

E de repente, suficientemente perto para perceber a colónia do Tiago e o hálito a cigarro dela, ouvi o clique metálico de algo que se abria — como o fecho de uma bagageira —, seguido pelo roçar do plástico contra o cascalho.

O som parou ao meu lado.

Mantive os olhos fechados, mas a minha mente reconstruiu a cena: uma lona. Algo para cobrir. O Tiago sempre odiou desarrumação.

— Tens a certeza que não queres deixá-la aqui? — perguntou ela. — Já parece um acidente.

— Não — a voz do Tiago tensou-se. — Os incidentes são revistos. As pessoas… são procuradas. Ela precisa de desaparecer por um tempo. Só até os trâmites ficarem resolvidos.

A minha garganta secou. Desaparecer.

Uma porta bateu nalgum ponto da estrada. Uma voz masculina ouviu-se entre as árvores.

— Está tudo bem aí?

O Tiago recuperou o tom num instante.

— Sim, agente! Por aqui!

Passos a aproximarem-se. Soube que era um agente local pela forma como as suas botas analisavam o terreno.

— Senhora? — perguntou. — Ouve-me?

Relaxei o corpo. Separei os lábios um pouco, como inconsciente. Não respirei. A ardência no peito foi intensa, mas resisti.

O Tiago interpôs-se; ouvi-o no crujir do cascalho.

— Ela… partiu, agente. Fiz o que pude. Confirmei o seu estado.

O agente suspirou.

— Lamento imenso. Esta estrada é complicada de noite. Vou chamar apoio e o reboque. Senhor, o que aconteceu?

O Tiago repetiu a história do veado com a fluidez de algo ensaiado. Enquanto falava, a mulher aproximou-se novamente dos meus pés.

— A lona está pronta — murmurou, como se estivesse a organizar algo trivial.

O agente pediu documentos. O Tiago afastou-se uns passos. Isso criou espaço.

A mulher agachou-se junto a mim.

— Estás a fazer muito bem — sussurrou, referindo-se ao plano. — Isto vai resultar.

A mão dela deslizou por baixo do meu ombro para calcular o meu peso.

Então soube que não podia continuar à espera.

Deixei que o meu peito se elevasse um pouco e tossi, suave, fraca, como um reflexo.

A mulher ficou imóvel.

Tossi de novo e abri os olhos. A dor foi intensa, mas consegui focar. O rosto dela estava a centímetros do meu. Não era autoridade. Apenas alguém que tinha ajudado o meu marido a tentar silenciar-me.

— Não… não, não — murmurou.

A minha boca formou uma única palavra:

— Ajuda.

A voz do agente cortou a noite.

— O que foi isso?

Ela endireitou-se demasiado depressa.

— Ela… ela só…

Levantei a mão, a tremer, e apontei.

— Ele… foi ele.

As botas do agente rangeu ao correr.

— Senhora, fique comigo! Senhor, para trás! Mãos à vista!

O Tiago protestou.

— Ela está confusa! Bateu com a cabeça!

O agente ajoelhou-se ao meu lado e tocou-me o pescoço com cuidado. A sua expressão mudou.

— Tem pulso. Central, preciso de assistência médica imediata. Possível agressão prévia.

Pensei que já estava a salvo. Enganei-me.

Parte 2 …

Vi o olhar da mulher desviar-se para as árvores.
Os passos do Tiago recuaram.

Então, de forma repentina, o Tiago atirou-se ao agente e a noite encheu-se de vozes alteradas.

Tudo aconteceu ao mesmo tempo.

O agente conseguiu afastá-lo, mas o Tiago tinha a vantagem da surpresa e do desespero. Forcejaram, as botas a resvalarem sobre o cascalho. O rádio do agente emitiu um apito ao balançar contra o seu peito.
A mulher levantou as mãos de imediato, fingindo ser apenas uma testemunha, como se não tA mulher, aproveitando o caos, tentou fugir, mas um segundo agente que chegava ao local bloqueou-lhe a passagem, e naquele instante, com as sirenes a ecoar por todo o vale, percebi que a pesadelo tinha finalmente terminado.

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