O Segredo Sussurrado das MontanhasEla descobriu que a sua diferença era a chave para libertar uma magia antiga que estava aprisionada naquelas montanhas.

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A família vendeu-a a um homem que vivia nas serras, sobre quem na aldeia apenas se falava em sussurros, porque ela era “manca”… Um ano depois, os pais decidiram ir ver como a filha vivia e ficaram chocados ao abrir a porta da casinha. 😲😵

A velha carroça de madeira rangia com força a cada pedra da estreita estrada de serra. As rodas saltavam perigosamente nos buracos, e parecia que, a qualquer instante, a carroça poderia despenhar-se no precipício escuro que beirava o caminho.

Lá dentro ia sentada uma rapariga chamada Inês. Entrelaçava os dedos sobre os joelhos com tanta força que as articulações ficaram brancas de tensão e frio.

Na sua cabeça ecoavam repetidamente as palavras cruéis do seu tio Artur:

— Uma rapariga coxa não serve para nada. Que ao menos dê algum rendimento.

E foi exactamente assim que aconteceu. Por alguns escudos, foi simplesmente vendida. Como um saco de trigo estragado que se deita fora do celeiro.

Agora teria de viver nas montanhas, longe das pessoas, com um homem sobre quem na aldeia só se falava em segredo.

Quando a estrada começou a descer para um vale fundo rodeado por altos pinheiros, Inês sentiu uma estranha sensação, como se estivesse a deixar para trás o mundo que conhecia. O vento frio assobiava entre as árvores, e o ar tornava-se cada vez mais cortante e pesado.

De repente, o silêncio foi cortado por um som seco e ritmado — alguém estava a cortar lenha. O machado batia repetidamente no tronco.

O carroceiro puxou as rédeas e parou a carroça. Nem sequer olhou para a rapariga, e disse brevemente:

— Chegámos. É aqui que vai ser a tua vida agora, menina.

Inês desceu lentamente. Cada movimento lhe custava esforço. Apertou ainda mais contra o peito o velho xaile de lã, tentando proteger-se do vento gelado.

A sua perna direita, aleijada muitos anos atrás e que nunca sarara por completo, tremia de dor quando pisou o chão gelado.

Já estava habituada aos olhares das pessoas. Aqueles mesmos olhares — uma mistura de pena e repulsa disfarçada — quando viam que arrastava ligeiramente a perna ao andar.

Mas o homem que baixou o machado e se voltou para ela olhou de um modo completamente diferente.

Joaquim era enorme. Alto, de ombros largos, como se tivesse crescido das próprias montanhas duras. A sua barba espessa parecia um pouco descuidada, e o casaco grosso estava coberto de agulhas de pinheiro e serradura.

No entanto, o que mais impressionava eram os seus olhos — calmos, atentos, profundos.

Não olhou para a sua perna aleijada. Olhou para o seu rosto. Para o cansaço, para a palidez, para a inquietação silenciosa no seu olhar… como se tentasse perceber se ainda lhe restava lá dentro uma faísca de vida.

Um momento depois, apenas acenou com a cabeça e disse calmamente:

— Entra em casa. Pareces estar completamente gelada.

Sem troça. Sem piedade.

Dentro da cabana cheirava a fumo de lenha e a madeira de pinho. O ambiente era muito simples — sem adornos, sem excessos. Mas tudo estava arrumado e limpo.

Joaquim colocou diante dela uma chávena de metal com café quente e aproximou um prato com um guisado espesso.

Não fez longos discursos de boas-vindas. Mas no seu comportamento não havia nem uma gota de aspereza.

Ainda assim, o coração de Inês batia tão depressa como um pássaro preso numa gaiola.

Durante toda a vida lhe disseram que não passava de um peso. E naquele momento sentiu uma estranha necessidade de se justificar.

Disse baixinho, quase num sussurro:

— Eu sei trabalhar… sei limpar, cozinhar, remendar roupas… Às vezes a perna atrapalha, mas eu esforço-me… Só não quero que o senhor pense que não presto para nada.

Joaquim parou. Virou-se lentamente para ela e olhou-a com atenção.

Então, inesperadamente, disse com uma voz suave:

— Eu não penso isso.

Ficou um pouco em silêncio e acrescentou:

— Não deixes que as palavras dos outros se aninhem dentro de ti. Quando entram fundo demais… depois é muito difícil livrares-te delas.

Inês ficou imóvel.

Há muitos anos que ninguém lhe falava com tanto respeito.

Naquela noite, deitou-se no pequeno sótão sob o telhado de madeira. Lá fora, a chuva caía silenciosamente, e as gotas batiam suavemente no vidro.

Chorou, mas pela primeira vez em muito tempo aquelas não eram lágrimas de desespero…

😲😨 Um ano depois, os pais decidiram descobrir como a filha estava a viver e ficaram chocados ao abrir a porta da cabana…

Passou um ano. E um dia os seus familiares decidiram ir ver como vivia a rapariga de quem se tinham livrado com tanta facilidade. Na aldeia corriam rumores de que o eremita das montanhas começara a ganhar bom dinheiro com madeira, e isso despertou a sua curiosidade.

Quando a carroça parou diante da cabana, o tio Artur abriu a porta sem bater — e ficou paralisado.

Lá dentro tudo parecia diferente. A casa estava quente e arrumada, sobre a mesa havia pão fresco, e na lareira ardia um bom fogo.

E junto à janela estava Inês.

Ainda mancava ligeiramente, mas mantinha-se direita e tranquila. No seu olhar já não havia medo nem vergonha — apenas uma serena confiança.

— Inês… — disse Artur, confuso. — Decidimos vir ver como estás a viver aqui. Afinal de contas, somos família.

Nesse momento Joaquim apareceu ao lado dela. Limitou-se a ficar perto da jovem, e um único olhar calmo seu bastou para que o silêncio se instalasse na sala.

Inês olhou para os familiares por um longo momento.

— Uma família não vende uma pessoa por uns escudos — disse ela com calma.

Ninguém encontrou palavras para responder.

Um minuto depois, saíram da casa constrangidos.

Quando a porta se fechou, Inês respirou fundo e olhou para as montanhas através da janela.

Um dia enviaram-na para aquele lugar pensando que se livravam de um fardo.

Mas foi exactamente ali que encontrou, pela primeira vez, alguém que viu nela não uma fraqueza… mas um verdadeiro valor.

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