Conduzi direitinho ao hospital, a rezar para estar errada… e aterrada com a possibilidade de não estar. A viagem até lá pareceu-me mais longa do que realmente era.
Os pneus do carro cantavam no alcatrão, cada rugido era como uma agulha no meu peito. Não parava de olhar para o Rodrigo pelo espelho retrovisor, com o coração a bater tão forte que o ouvia nos ouvidos.
— Água, meu amor — sussurrei, apertando o paninho com força. — A avó está a tratar de ti.
Quando cheguei à entrada das urgências, nem me preocupei em estacionar direito. Agarrei no Rodrigo, dei um pulo para fora do carro e entrei a correr pelas portas de vidro deslizantes.
Uma enfermeira da receção levantou-se de imediato.
— O que se passa?
— O meu neto — disse, ofegante. — Não para de chorar e descobri uma equimose nele. Só tem dois meses.
A expressão dela mudou instantaneamente.
— Siga comigo.
Em segundos, estávamos numa pequena sala de observação. Outra enfermeira tirou-me o Rodrigo dos braços com delicadeza e colocou-o em cima de uma mesa almofadada.
Ele gritou no momento em que lhe tocaram na barriguinha.
— É aí que está a equimose — disse rapidamente, apontando com os dedos trémulos.
A enfermeira levantou-lhe a roupa com cuidado.
E, no instante em que viu, o rosto dela ficou sombrio.
— Vou buscar o médico — disse em voz baixa.
O meu estômago contraiu-se. Algo estava muito errado.
O Dr. Silva chegou em poucos minutos. Era um homem calado, de meia-idade, com olhos cansados mas bondosos. Examinou o Rodrigo com delicadeza, pressionando suavemente em redor da equimose.
O Rodrigo voltou a gritar.
O médico franziu a testa.
— Quando é que viu isto pela primeira vez? — perguntou.
— Há uns dez minutos — respondi. — Começou a chorar descontroladamente. Pensei que fosse a fralda, até ver a equimose.
O Dr. Silva olhou-me fixamente.
— Mais alguém esteve com ele ultimamente?
— Só os pais — disse eu.
Ele acenou lentamente.
— Vamos fazer uma ecografia rápida.
Senti uma opressão no peito.
— Ele vai ficar bem?
— Primeiro temos de ver uma coisa — respondeu gentilmente.
O aparelho de ultrassons emitia um zumbido suave na sala silenciosa. O técnico moveu a sonda pela pequena barriga do Rodrigo enquanto o médico estudava o ecrã.
A princípio, não percebi o que ele estava a ver.
Mas a expressão do médico ficou cada vez mais séria.
Ele inclinou-se para o monitor.
— Pare um momento — disse.
O técnico congelou a imagem.
O Dr. Silva virou-se para mim lentamente.
— Minha senhora — disse com cuidado —, o bebé sofreu alguma queda recentemente?
— Não — respondi de imediato. — Ele só tem dois meses. Quase não se mexe.
O médico acenou.
— Era o que me parecia.
O meu coração começou a acelerar novamente.
— O que foi?
Ele hesitou. Depois apontou para o ecrã.
— Há uma hemorragia hepática.
A minha respiração cortou-se.
— O quê?
— Parece que alguém apertou a barriga dele com muita força.
As minhas pernas fraquejaram.
— Apertou?
— Sim.
Ele olhou novamente para o ecrã.
— Em bebés tão pequenos, até um aperto mais forte pode danificar os órgãos.
Fiquei em branco.
— Está a dizer que… alguém o magoou?
O Dr. Silva não respondeu diretamente. Mas o seu silêncio disse tudo.
— Vamos tratá-lo de imediato — afirmou. — E, devido ao padrão das lesões, somos obrigados a notificar as autoridades de proteção infantil.
Senti como se a sala tivesse começado a girar.
— Proteção infantil?
Ele confirmou.
— Em bebés tão pequenos, este tipo de equimoses é extremamente raro sem que tenha havido algum trauma.
As minhas mãos começaram a tremer novamente.
— Doutor — sussurrei —, o meu filho e a mulher adoram este bebé. Nunca lhe fariam mal.
A voz do Dr. Silva era calma.
— Compreendo. Mas temos de averiguar tudo.
Duas horas depois, o Rodrigo estava a recuperar da pequena incisão no braço. O médico disse que a hemorragia tinha sido detetada a tempo e que o bebé iria recuperar.
Mas a equimose… a equimose ainda me atormentava.
Estava sentada sozinha na sala de espera quando o telemóvel tocou.
Foi o Daniel.
— Mãe — disse, ansioso —, estamos em casa. Onde é que estás? A Mafalda está preocupada porque o Rodrigo não está.
A minha garganta apertou-se.
— Daniel — disse lentamente —, estou no hospital.
Silêncio.
— O quê?
— O Rodrigo sofreu uma lesão.
O pânico na voz dele foi imediato.
— Lesão? De que é que estás a falar?!
— Ouve — pedi. — O médico diz que alguém o apertou com tanta força que lhe provocou uma hemorragia.
Houve um silêncio longo e pesado.
Então, o Daniel disse uma coisa que me deixou com o coração nas mãos.
— Isso é impossível.
— Daniel…
— Não — interrompeu abruptamente. — Mãe, a Mafalda e eu nunca…
— Eu sei — interrompi. — Mas alguém o fez.
Seguiu-se outro silêncio.
Depois, ouvi a voz da Mafalda ao fundo.
— O que se passa?
O Daniel sussurrou-lhe qualquer coisa.
Um segundo depois, a Mafalda pegou no telefone. A voz dela tremia.
— Ele tem uma equimose? — perguntou. — Isso não é possível.
O meu estômago embrulhou-se.
— Porque é que tens tanta certeza? — perguntei.
A resposta dela foi firme.
— Porque… o Rodrigo já tinha essa equimose ontem.
Apertei mais o telefone.
— Viram-na ontem?
— Sim.
— E não o trouxeram ao hospital?
— Pensámos que estava apenas a ficar com um hematoma normal — respondeu rapidamente.
Mas havia algo na voz dela que soava nervoso.
Depois, disse mais alguma coisa. Algo que me fez ficar com os cabelos em pé.
— Ontem estava tão escuro…
De repente, a sala ficou muito fria.
— Esperem — disse devagar. — Se a equimose estava pior hoje…
Então, um pensamento terrível assaltou-me.
— Quem é que esteve com o Rodrigo hoje… antes de eu chegar?
Houve um longo silêncio do outro lado.
E quando a Mafalda respondeu finalmente…
A voz era quase impercetível.
— …a ama.
A palavra pairou no ar entre nós.
O meu coração deu um salto.
— Contrataram uma ama? — perguntei.
O Daniel voltou ao telefone.
— Só a tempo parcial — disse depressa. — Umas horas de manhã para a Mafalda poder descansar.
— Quando é que isso começou?
— Há cerca de duas semanas.
Fechei os olhos por um instante, tentando controlar a respiração.
— E hoje? — perguntei. — Ela esteve com o Rodrigo antes de eu chegar?
O Daniel hesitou.
— Sim — admitiu.
Senti um arrepio percorrer-me a espinha.
— Durante quanto tempo?
— Cerca de uma hora. A Mafalda tinha uma consulta no médico.
Senti um calafrio.
— Daniel — disse com cuidado —, notaram alguma coisa estranha nela?
— Não — respondeu de imediato. — Parecia simpática. Calma, profissional. Tinha excelentes referências.
— Como se chama?
— Sara.
Nesse preciso momento, a porta do quarto do hospital abriu e o Dr. Silva entrou.
— Estabilizámos o Rodrigo — disse gentilmente. — Ele está a descansar.
Senti um grande alívio, mas durou apenas um instante.
— DescobO Dr. Silva entregou-me então uma imagem impressa da ecografia e apontou: — Veja aqui estas marcas ovais à volta do hematoma — e naquele momento, percebi que a verdade, ainda que dolorosa, traria a cura que todos precisávamos.