O Segredo no SilêncioEra apenas o início do meu pesadelo.

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A minha mãe pressionou-me para casar aos trinta e dois anos, e acabei por me casar com um milionário da tecnologia que era supostamente surdo. Aprendi língua gestual, abandonei a minha carreira e engravidei. Quando estava de seis meses, parada na nossa cozinha, ele falou de repente: “Não sou surdo. Nunca fui.”

Estava na nossa cozinha, em Lisboa, com seis meses de gravidez, as minhas mãos a tremer enquanto segurava o bilhete que tinha acabado de escrever para o meu marido.

Era assim que comunicávamos. Como sempre tínhamos comunicado.

Através de palavras escritas. Pela língua gestual. Por toques e olhares.

O Ricardo era surdo. Tinha ficado surdo depois de um acidente de moto, cinco anos antes de nos conhecermos.

Ou, pelo menos, era isso em que eu tinha acreditado durante o último ano e meio da nossa relação.

Ele estava a ler o bilhete por cima do meu ombro, tão perto que eu sentia o seu hálito no meu pescoço, quando disse—com uma clareza impressionante, numa voz que nunca tinha ouvido—

“Margarida, preciso de te contar uma coisa.”

Deixei cair o papel. O bilhete pairou no ar entre nós, e eu observei a sua queda como se estivesse num sonho. Ou num pesadelo.

Porque o meu marido surdo tinha acabado de falar.

Deixem-me recuar. Deixem-me contar como cheguei àquele ponto—parada naquela cozinha, com o meu mundo a desmoronar-se como gelo fino.

Tenho agora sessenta e oito anos, e aprendi que algumas histórias precisam de ser contadas desde o início, mesmo quando o início é doloroso de recordar.

Era 1991, e eu tinha trinta e dois anos. Ainda solteira. Ainda a trabalhar como arquiteta júnior num escritório em Lisboa. Ainda a viver num apartamento minúsculo que mal podia pagar.

A minha mãe telefonava-me todos os domingos, pontualmente, e todas as semanas a conversa acabava por voltar ao mesmo assunto.

“A tua irmã Catarina disse-me que está à espera de outro bebé. Já são três os netos que me deu, Margarida. Três.”

“Isso é maravilhoso, mãe.”

“A filha dos Silvas acabou de ficar noiva. Lembras-te da Amélia? Brincavam juntas. Ela tem vinte e seis anos.”

Eu apertava o telefone com mais força e olhava pela minha janela, para o nevoeiro que rolava sobre o rio.

“Fico contente pela Amélia.”

“Só não percebo o que estás à espera. Não és nenhuma menina. Os homens não querem casar com mulheres de trinta e tantos que—”

“Mãe, tenho de desligar. Tenho trabalho para fazer.”

Mas ela era persistente.

E, se for sincera comigo mesma, depois de três décadas de casamento e de criar dois filhos, posso admitir que me sentia sozinha. Cansada de chegar a casa para um apartamento vazio. Cansada de ver os meus colegas a sair mais cedo para os jogos de futebol dos filhos, enquanto eu ficava até tarde para cumprir prazos. Cansada de ser a única pessoa solteira em todos os jantares de família.

Por isso, quando a minha mãe me falou do Ricardo Silva, ouvi.

“É filho da Dona Doroteia. Lembras-te da Doroteia? Estava no meu clube de leitura. O filho dela montou uma empresa de informática. Tem muito sucesso, é muito bonito e quer casar.”

“Mãe, não vou a mais nenhum encontro às cegas.”

“Este é diferente. Ele é… bem, é especial, Margarida. Teve um acidente há uns anos—um acidente de mota. Perdeu a audição.”

Havia algo na sua voz que me fez parar.

“É surdo. Totalmente. Mas aprendeu a adaptar-se. Lê os lábios perfeitamente e sabe língua gestual. A Dona Doroteia diz que é o mesmo homem encantador de sempre, apenas mais calado.”

“Muitas mulheres não querem lidar com isso, sabes. Mas achei que tu podias ser diferente. Sempre foste tão paciente, tão compreensiva.”

Devia ter ouvido a manipulação naquelas palavras, mas em vez disso ouvi uma oportunidade.

Um homem que não me julgasse por ter trinta e dois anos e ser solteira. Um homem que pudesse ficar grato por alguém disposto a aprender língua gestual, a adaptar-se ao seu mundo. Um homem que, por causa da sua deficiência, me visse realmente por quem eu era, em vez de pelo que eu não era.

“Está bem,” disse. “Um jantar.”

O Ricardo Silva era tudo o que a minha mãe tinha prometido e mais.

Alto, com cabelo escuro a ficar grisalho nas têmporas. Olhos castanhos intensos que observavam os meus lábios quando eu falava. Vestia fatos caros, impeccavelmente cortados, conduzia um Mercedes e trabalhava em Lisboa, em algo relacionado com software que eu não entendia bem.

O nosso primeiro jantar foi num restaurante italiano elegante, em Lisboa.

Eu tinha passado duas semanas a aprender o básico da língua gestual com um livro, a praticar em frente ao espelho da casa de banho, mas o Ricardo facilitou tudo. Trouxe um bloco e uma caneta e, quando os meus gestos falhavam, escrevíamos um para o outro como adolescentes a passar bilhetes na aula.

“A tua mãe fala constantemente em ti,” escreveu ele.

“A filha arquiteta brilhante. A teimosa que não quer assentar.”

Eu ri, um pouco embaraçada.

“Ela faz-me parecer uma égua de prémio que está a tentar vender,” escrevi de volta.

Ele sorriu e, quando escreveu a mensagem seguinte, senti algo mudar dentro de mim.

“Ela não te fez justiça.”

Começámos a namorar—se é que se podia chamar isso.

Encontrávamo-nos para jantares, dávamos passeios na praia, íamos ao cinema, onde nos sentávamos lado a lado no escuro, e eu esquecia-me de que ele não ouvia os diálogos. Ele lia as legendas quando apareciam e, por vezes, agarrava na minha mão e apertava-a durante as cenas românticas.

Aprendi língua gestual corretamente, frequentando aulas à noite, depois do trabalho. O Ricardo era paciente comigo, corrigindo as posições das minhas mãos com suavidade, os dedos dele quentes contra os meus, enquanto me mostrava o gesto correto para amor ou amanhã ou linda.

A mãe dele, a Dona Doroteia, estava radiante.

Convidava-nos para jantares de domingo na sua casa enorme, em Cascais, onde nos observava a fazer gestos um para o outro através da mesa, com lágrimas nos olhos.

“Estava tão preocupada que ele nunca encontrasse ninguém,” disse-me uma noite, quando o Ricardo saiu para atender uma chamada—ou assim pensei. Mais tarde soube que estava apenas a ver algo no seu bip.

“Depois do acidente, ele isolou-se muito. Deixou de ver os amigos. Terminou com a namorada, a Joana. Ela disse que não conseguia lidar com alguém que era surdo. Consegues imaginar tamanha crueldade?”

Eu não conseguia.

Pensava muitas vezes na Joana, naqueles primeiros meses. Que tipo de pessoa abandona alguém que ama por causa de uma deficiência? Que tipo de mulher superficial e egoísta seria ela?

Oito meses depois de começarmos a namorar, o Ricardo pediu-me em casamento—não com palavras. Ele não podia falar, afinal de contas.

Ou assim eu pensava.

Levou-me à praia ao pôr do sol, onde tinha escrito na areia, com letras enormes:

Queres casar comigo, Margarida?

Chorei. Fiz o gesto para sim vezes sem conta. E quando ele colocou a aliança no meu dedo, um belíssimo diamante que devia ter custado três meses do meu salário, pensei que era a mulher mais sortuda do mundo.

Casaram-nos três meses depois, numacasámos numa pequena cerimónia numa capela na região do Alentejo.

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