A minha parte de motociclista queria arrastá-lo para fora do asfalto e espancá-lo até sangrar por aquilo que ele tinha feito à minha Harley.
Aquele sem-abrigo, veterano, com a barba até ao peito, olhos fundos como sepulturas, tinha-se aproximado da minha mota em frente ao café e cuspiu a maior cuspidela que já vi no meu depósito cromado.
Eu tinha reconstruído aquela moto para honrar o meu filho. Oito meses de trabalho. O nome do meu filho, Rodrigo, pintado no depósito com letras douradas, mesmo ao lado do emblema dos Fuzileiros.
Agarrei o velho pelo colarinho do casaco, pronto para o atirar para o meio do estacionamento.
Foi então que os joelhos dele fraquejaram.
Caiu como um saco de areia, e da sua mão trémula caiu uma fotografia. Desbotada. Dobrada em todas as pontas. Manchada com o que parecia sangue seco.
Era o Rodrigo.
O meu rapaz com o seu uniforme de gala, a sorrir aquele sorriso torto que herdou da mãe. A mesma fotografia que guardei na minha carteira durante onze anos, desde que o trouxeram para casa num caixão coberto com a bandeira.
Ajoelhei-me ao lado do velho. As minhas mãos tremiam enquanto pegava na fotografia.
“Onde é que arranjaste isto?”, sussurrei. “ONDE É QUE ARRAJASTE ISTO?”
Ele não respondeu. Apenas olhou para o asfalto e começou a chorar. Os ombros largos a sacudir em silêncio, as lágrimas a abrir caminho através de anos de sujidade no seu rosto.
A porta do café abriu-se. As pessoas juntaram-se. Alguém disse que estava a ligar para o 112.
Disse-lhes para se afastarem.
Ergui a cabeça do velho e fiz com que olhasse para mim. De perto, consegui ver a tatuagem a espreitar por baixo do colarinho. Águia, globo e âncora. Um Fuzileiro.
“Conhecias o meu filho?”
Ele anuiu.
– Serviste com ele?
Ele anuiu novamente. Depois, com dedos trémulos, meteu a mão no casaco e tirou outra coisa. Um pequeno caderno de couro. Páginas inchadas de tanto apanhar intempéries.
Entregou-mo.
Abri-o.
A primeira página tinha a caligrafia do Rodrigo. Com data de três dias antes de ele morrer.
O que o meu filho tinha escrito naquele caderno foi a última coisa que eu esperava ler.
“Pai, se estás a ler isto, é porque não consegui chegar a casa. Peço desculpa. Sei que prometi. Por favor, procura o Sargento Caldeira. Não deixes que ele se culpe. Não deixes que ele carregue isto sozinho. Ele já perdeu demais.”
Li três vezes até as palavras fazerem sentido. Depois, reli a data. 14 de novembro. Três dias antes de o Rodrigo morrer numa patrulha fora de Marjah.
O meu rapaz sabia que não ia voltar.
Olhei para o homem que estava de joelhos à minha frente no alcatrão do café. O homem que tinha acabado de cuspir na minha mota. O homem que o meu filho me tinha pedido para encontrar há onze anos atrás. O homem que eu tinha falhado em encontrar desde o novembro em que o trouxeram para casa.
“Caldeira?”, disse eu. “Sargento Caldeira?”
Ele estremeceu ao ouvir o seu próprio nome. Como se eu o tivesse agredido.
– Carlos Caldeira?
A cabeça dele baixou. Ranho escorreu-lhe pela barba. Ele anuiu uma vez.
Não sabia o que fazer com as minhas mãos. Não sabia o que fazer com o meu rosto. Onze anos de luto que pensei ter enterrado saíram do meu peito como um trem de carga.
Tive de pousar a mão no alcatrão para não cair.
Uma empregada estava à porta com um telefone na mão. Fiz-lhe sinal para se afastar.
“Não ligues para ninguém”, disse eu. “Traz-lhe um copo de água. Por favor.”
Ela desapareceu lá dentro.
Virei a página do caderno.
A letra ficou mais pequena, mais apertada. O Rodrigo tinha escrito isto depressa, como se lhe estivesse a faltar o tempo.
“O Sargento é a única razão pela qual ainda estou vivo. Todas as patrulhas, todas as más decisões, todos os IEDs que me deviam ter abatido e não abateram, o Sargento estava lá. Ele é a coisa mais próxima de ti que alguma vez encontrei por aqui, pai. Ele tem uma mulher no Tennessee e três filhos e leva a fotografia deles no capacete. Ele disse-me na semana passada que esta é a sua última missão. Ele está pronto. Vai voltar para casa para treinar futebol no secundário.”
“Ele fala sobre ti, pai. Todas as vezes que estamos de guarda juntos. Eu falei-lhe da Harley. Disse-lhe como me ensinaste a conduzir quando eu tinha doze anos e a mãe te ralhou durante um mês. Contei-lhe sobre o café aonde me levavas aos sábados. Ele ri-se. Ele é a única coisa aqui que se ri.”
Tive de parar de ler.
Onze anos. Onze anos a perguntar-me quem era o meu filho nos seus últimos dias. O que é que ele pensava. Se estava assustado. Se estava sozinho.
Ele não tinha estado sozinho.
Ele tinha tido este homem.
Este homem partido, com mau cheiro, destroçado e sem-abrigo, de joelhos no alcatrão à minha frente.
Virei para a última página.
Só havia três frases. Com data da manhã do dia em que o Rodrigo morreu.
“O Sargento foi atingido ontem. Ele vai sobreviver mas está mal. Vou fazer a patrulha dele amanhã para ele poder descansar. Se acontecer alguma coisa, pai, por favor. Encontra-o. Toma conta dele. Ele salvou-me demasiadas vezes.”
O caderno caiu-me das mãos.
O Carlos balançava-se para a frente e para trás, de joelhos. A murmurar qualquer coisa que eu não conseguia perceber.
Inclinei-me mais perto.
“Devia ter sido eu. Devia ter sido eu. Devia ter sido eu.”
Eu já tinha ouvido aquela voz antes. Eu próprio tinha usado aquela voz, nos meses depois de terem trazido o Rodrigo para casa. Três da manhã na garagem, sozinho com uma garrafa, a olhar para a fotografia dos Fuzileiros dele na bancada.
Devia ter sido eu.
Eu sabia exatamente o que estava dentro daquele homem. Porque a mesma coisa esteve dentro de mim durante onze anos.
Sentei-me no alcatrão ao lado dele. Já não me importava com o cuspo no meu depósito. Já não me importava com os curiosos à janela do café. Não me importava com nada exceto com o Fuzileiro destroçado que o meu filho tinha amado como a um pai.
“Carlos”, disse. A minha voz saiu rouca. “Carlos. Olha para mim.”
Ele não o fez.
“Carlos. O meu nome é Rui Botelho. Sou o pai do Rodrigo.”
Os ombros dele começaram a tremer novamente.
“Carlos, o meu rapaz deixou-me uma carta há onze anos. Pediu-me para te encontrar. Ando à tua procura. Nunca soube o teu nome completo. Os Fuzileiros não me quiseram dizer. Disseram que era informação classificada. Fui até ao Tennessee duas vezes. Sabias disso? Bati a portas em Knoxville e Chattanooga a perguntar se alguém conhecia um Fuzileiro chamado Caldeira.”
Ele olhou para mim pela primeira vez.
Os olhos dele eram as coisas mais azuis que eu já vi num homem tão destruído.
“Procuraste-me?”
“Durante onze anos.”
“A minha mulher deixou-me”, disse ele. “Três anos depois de eu ter voltado. Disse que eu não era o homem com quem ela se tinha casado. Não era. Ela tinha razão.”
“Onde estão os teus filhos?”
“Cresceram. Eles nãoE, enquanto ficava ali, com o cheiro da gasolina e da terra molhada a preencher o ar, finalmente senti a paz que tinha andado a procurar desde aquele novembro há onze anos atrás.