O Motociclista que Abre Caminho para Minha FilhaSua moto parava exatamente às sete e meia, formando uma barreira segura enquanto ela atravessava para a escola.

6 min de leitura

A minha filha Leonor tem nove anos. Tem síndrome de Down. É a criança mais feliz que alguma vez vão conhecer. Adora borboletas. Adora música. Adora acenar a estranhos.

A maioria dos estranhos não acena de volta.

Mudámo-nos para esta vila no ano passado, depois do divórcio. Todas as manhãs caminhamos quatro quarteirões até à escola dela. O último tem uma passadeira sem semáforo. Apenas uma linha branca pintada e um sinal que diz para ceder a passagem aos peões.

Ninguém cede.

A Leonor caminha devagar. Não tem culpa. O que leva dez segundos à maioria das pessoas, leva-lhe quase um minuto.

Os condutores buzinam. Aceleram os motores. Um homem gritou-nos para nos despacharmos. A Leonor chorou durante vinte minutos.

Depois disso, recusou-se a atravessar. Todas as manhãs tornaram-se uma batalha. Chegava à passadeira e congelava.

“Assustador”, dizia. “Os carros são assustadores, Mãe.”

Liguei para a câmara municipal a pedir um guarda de trânsito. Disseram que iam verificar. Isso foi há seis meses. Nada mudou.

Então, numa manhã de terça-feira, em março, estávamos paradas na passadeira. A Leonor estava gelada. Os carros passavam a voar.

Foi então que ouvi a mota.

Veio de trás de nós. Um homem grande. Colete de cabedal. Barba. Pilotava uma Harley-Davidson preta mais barulhenta que tudo naquela estrada.

Olhou para a Leonor. Olhou para a passadeira. Olhou para os carros que não paravam.

Depois, pilotou a mota para o meio da rua. Estacionou-a de lado. Bloqueou as duas faixas.

O trânsito parou. Todos os carros. Totalmente imóveis.

Olhou para trás, para nós, e acenou com a cabeça. “Podem passar.”

A Leonor fitou-o. Depois olhou para a passadeira vazia. Sem carros. Sem buzinas. Apenas silêncio e espaço.

Deu um passo. Depois outro.

A meio caminho, parou. Virou-se para o motociclista. E acenou.

Ele acenou de volta.

Conseguimos atravessar. Ele moveu a mota. O trânsito recomeçou. Ele arrancou sem dizer uma palavra.

Pensei que aquilo tinha acabado. Um momento bonito com um estranho simpático.

Mas na manhã seguinte, ele estava lá.

O mesmo sítio. A mesma mota. À espera.

E o que ele disse à Leonor quando ela se aproximou dele é algo que nunca vou esquecer.

A Leonor viu-o antes de mim.

Puxou a minha mão e apontou. “O homem da mota, Mãe.”

Ele estava estacionado no acostamento, a uns seis metros antes da passadeira. Motor desligado. Sentado na mota como se estivesse ali há horas.

Quando nos aproximámos, a Leonor surpreendeu-me. Foi direitinha a ele. A minha filha, que tem medo de carros barulhentos, aproximou-se direta daquele estranho numa Harley.

Ele inclinou-se. Tirou os óculos de sol. Os olhos eram castanhos e bondosos.

“Olá”, disse. “Lembras-te de mim?”

A Leonor acenou com a cabeça. “O senhor parou os carros.”

“Isso mesmo. E vou pará-los outra vez hoje. E amanhã. E todos os dias a seguir. Ninguém te vai buzinar enquanto eu estiver aqui. Está bem?”

A Leonor olhou para mim. Depois para ele.

“Promete?” perguntou.

“Prometo.”

Ela esticou o mindinho. Aquele homem enorme de cabedal com tatuagens em ambos os braços entrelaçou o seu mindinho no dedo da minha filha de nove anos.

“Jura de mindinho”, disse a Leonor.
“Juro de mindinho”, disse ele.

Depois, ligou a mota, pilotou-a para o meio da rua e bloqueou o trânsito outra vez. A Leonor atravessou sem hesitar. Não congelou. Não tremeu. Apenas caminhou.

Quando chegámos ao outro lado, atirou-lhe um beijo.

Ele apanhou-o. Meteu-o no bolso do colete. Igual à primeira vez.

Isso tornou-se a nossa rotina.

O nome dele era Rui Dantas. Soube disso no terceiro dia.

Comecei a levar um café extra. Pareceu-me o mínimo que podia fazer pelo homem que bloqueava o trânsito para a minha filha todas as manhãs às 7:45.

Ele tomava-o puro. Sem açúcar.

“Não tem de fazer isto”, disse eu.
“Eu sei.”
“Somos estranhos.”
“Já não somos.”

Ele não dizia muito. Não de início. Eu fazia perguntas e recebia respostas curtas. Reformado. Vivia na zona sul da vila. Pilotava todos os dias. Não, não se importava com a madrugada. Já estava acordado de qualquer maneira.

A Leonor chamava-lhe Senhor Rui. Ele chamava-lhe Dona Leonor. Todas as manhãs eram iguais. Ela aproximava-se. Ele inclinava-se. Faziam a sua promessa de mindinho. Depois ele bloqueava o trânsito e ela atravessava como se a estrada fosse dela.

Dentro de uma semana, a Leonor deixou de ter medo da passadeira.
Dentro de duas semanas, começou a ficar entusiasmada com ela.
“Dia do Senhor Rui!” anunciava todas as manhãs ao acordar. Todos os dias eram agora dia do Senhor Rui.

Começou a fazer-lhe coisas. Desenhos de motas com uma figura grande e uma pequena de mãos dadas. Deu-lhe um autocolante de uma borboleta para o depósito da mota. Ele colocou-o logo ali, à frente dela.

Uma Harley com um autocolante de uma borboleta cor-de-rosa. Os tipos do seu clube de motards devem ter adorado.

Nem todos apreciavam o que o Rui estava a fazer.

Na segunda semana, os condutores já tinham percebido. A maioria adaptou-se. Encontrou outro percurso ou saiu mais cedo. Mas alguns ficaram zangados.

Uma manhã, um homem num camião ficou a buzinar o tempo todo enquanto a Leonor atravessava. Ela encolheu-se mas continuou a andar. O Rui não se mexeu. Não reagiu. Apenas ficou parado ao lado da mota de braços cruzados.

Quando a Leonor atravessou em segurança, o condutor do camião baixou o vidro.
“Não pode bloquear uma estrada pública, seu idiota!”

O Rui caminhou até ao camião. Devagar. A cara do condutor mudou quando o Rui se aproximou o suficiente para ele ver o quão grande ele era.

“Aquela menina precisa de sessenta segundos para atravessar”, disse o Rui. A sua voz era calma. Quase amigável. “Pode dar-lhe sessenta segundos.”
“Vou chamar a polícia.”
“Força. Eu amanhã também aqui estarei.”

O condutor arrancou com tudo. E acabou por chamar a polícia.

O agente Martins apareceu na manhã seguinte. Um jovem. Educado. Observou da sua viatura enquanto o Rui fazia a sua coisa. Bloqueava o trânsito. A Leonor atravessava. Atirava-lhe o beijo. Ele apanhava-o.

O agente Martins saiu e aproximou-se.
“Sr. Dantas?”
“Bom dia, agente.”
“Recebemos uma queixa sobre si a bloquear o trânsito.”
“Estava à espera.”
“Tecnicamente, o que está a fazer é obstruir a via pública.”
“Tecnicamente, aquele sinal da passadeira diz para ceder a passagem aos peões. Ninguém cede. Por isso eu ajudo a que cedam.”

O agente Martins olhou para a passadeira. Para o sinal. Para os carros que já começavam a formar fila.
“Tenho pedido à câmara um semáforo aqui há dois anos”, disse o agenteO agente Martins ficou calado por um momento, depois acenou com a cabeça e disse: “Tenha um bom dia, Sr. Dantas.”

Leave a Comment