Cara, sabes aquela noite de janeiro em Lisboa, daquelas em que o vento corta como uma faca e a humidade te entra nos ossos? A Leonor Silva estava de joelhos no chão, a esfregar a casa de banho do 12º andar de um prédio de escritórios, quando o telemóvel no bolso começou a vibrar. Olhou para as horas: 5 da manhã. Ninguém liga a estas horas a não ser que algo esteja muito mal. O coração apertou-lhe quando viu o número da creche no ecrã. A voz da educadora do outro lado era plana e distante, como se estivesse a ler um comunicado. A Matilde estava com febre alta desde a meia-noite. A bebé não parava de tossir. A creche não podia aceitar uma criança doente. A Leonor tinha de a ir buscar imediatamente. Antes que ela pudesse dizer uma palavra, a chamada terminou. Ela pôs-se de pé de um salto, com a cabeça à roda. A Matilde, a sua filhinha de 8 meses, a única pessoa que lhe restava neste mundo.
A Leonor saiu a correr do edifício sem dizer nada a ninguém, atirando-se à escuridão gelada. A chuva miudinha começara a cair, picando-lhe o rosto como alfinetes. Correu três quarteirões porque não tinha dinheiro para um táxi. Quando chegou à creche, os lábios estavam azuis e as pernas dormentes. A Matilde estava ao colo da educadora, com a face corada de febre. Os seus gritos fracos soavam como os de um gatinho abandonado. A Leonor apertou a filha contra o peito, sentindo o calor que irradiava daquele corpinho através da roupa fina. A sua criança estava a arder. Carregou a Matilde de volta para o quarto degradado que alugava num bairro social da Amadora. O quarto mal tinha 10 metros quadrados, as paredes manchadas de humidade, a janela tapada com fita cola porque o vidro partira há muito. O aquecedor estava avariado há duas semanas.
A Leonor deitou a Matilde na cama, envolveu-a em mantas e abriu o armário dos medicamentos. Estava vazio. Usara o último xarope para a febre na semana anterior e não tivera dinheiro para comprar mais. Lágrimas rolaram-lhe pelas faces enquanto via a filha a contorcer-se com a dor da febre. O telemóvel vibrou de novo. Desta vez era a empresa de limpeza. A Leonor atendeu e a voz da sua supervisora surgiu, severa e zangada. Onde estava ela? Porque é que tinha abandonado o turno? A Leonor tentou explicar sobre a Matilde, sobre a febre, sobre precisar de faltar um dia. A supervisora cortou-lhe a palavra. Havia um trabalho especial hoje, um cliente VIP, uma mansão em Cascais. Se não aparecesse, estava despedida. Sem exceções.
A Leonor quis gritar. Quis atirar o telemóvel contra a parede, mas não pôde, porque se perdesse o emprego, não teria dinheiro para a renda, nem para o leite da Matilde, nem para os medicamentos. Ela e a filha ficariam na rua naquele inverno brutal. E o Dinis, o seu ex-marido violento que a andava a caçar pela cidade, encontrá-la-ia mais facilmente do que nunca. A Leonor olhou para a Matilde, que ora adormecia ora acordava de exaustão. Não tinha com quem deixar a criança. Tomou a única decisão que podia. Vestiu a Matilde com mais camadas de roupa, envolveu-a em três mantas e colocou-a no carrinho de bebé desengonçado que comprara numa loja de segunda mão por cinco euros. Enfiou na mala um biberão, fraldas e um xarope para a febre que uma vizinha lhe emprestara. Depois, empurrou o carrinho para fora do quarto escuro e entrou na tempestade.
O endereço na mensagem levou-a a Cascais. A Leonor nunca lá pusera os pés. Sentiu-se como uma nódoa num quadro perfeito. Quando parou em frente ao endereço indicado, o coração quase lhe parou. Diante dela erguia-se uma mansão enorme, escura como a noite, com portões de ferro altíssimos ornamentados com carrancas de leão. A Leonor ficou parada diante do portão de ferro por um longo momento, sem se atrever a entrar. A Matilde resmungava no carrinho, os seus gritos fracos engolidos pelo vento e pela chuva. A Leonor respirou fundo e empurrou o portão pesado. Este abriu-se sem um som, como se estivesse perfeitamente oleado. Um caminho de pedra negra levou-a por um jardim árido. Estátuas de pedra pontuavam os lados. A Leonor estremeceu e puxou a manta para tapar melhor o rosto da Matilde. A porta da frente da mansão era de carvalho maciço. Empurrou-a levemente, e a porta abriu-se como se a casa estivesse à sua espera.
Lá dentro, o hall principal era vasto como uma catedral. O chão de mármore negro brilhava como um espelho, refletindo a sua pequena figura perdida. A Leonor sentiu-se como uma formiga que tinha entrado no palácio de demónios. Havia algo naquela casa que a aterrorizava até à medula. O ar era pesado e frio, transportando um cheiro de solidão e dor. Uma fina camada de pó cobria tudo. A Matilde começou uma crise de tosse prolongada. A Leonor precisava de encontrar calor imediatamente. Abriu a primeira porta no rés-do-chão — uma sala de estar, mas o aquecedor estava avariado. Entrou a correr na sala seguinte — uma sala de jantar. O aquecedor também estava avariado. O pânico começou a subir-lhe no peito. Agarrou na Matilde ao colo e subiu a escadaria a correr. O quarto de hóspedes, a biblioteca, a sala de jogos — todos avariados. A Matilde começou a chorar mais alto. Depois, no fundo do corredor no terceiro andar, encontrou um estudo com um aquecedor que libertava ar quente.
A Leonor quase chorou de alívio. Colocou a Matilde perto do aquecedor, tirou-lhe algumas camadas de roupa e deu-lhe o xarope. A Matilde acalmou lentamente, as pálpebras pesadas fecharam-se. A Leonor meteu a monitorização para o bebé no bolso e decidiu começar a trabalhar enquanto a Matilde dormia. Ela não sabia que, enquanto ela esfregava a escada no primeiro andar, um carro preto e elegante tinha parado lá fora e o dono da mansão entrava em sua casa. A Leonor estava de joelhos no 12.º degrau quando ouviu o choro — o choro da Matilde, mas era um choro de medo. A Leonor largou o esfregão e disparou escada acima. A monitorização no bolso não fazia som; tinha avariado. Correu pelo corredor. O choro da Matilde parou. O silêncio súbito foi aterrador.
Abriu a porta do estudo com um empurrão e gelou. Um homem estava no centro da sala de costas para ela, alto, de ombros largos, usando um sobretudo preto longo. Nos seus braços estava a Matilde, encostada ao peito de um estranho. A Leonor viu uma arma preta e elegante em cima da secretária de madeira. O homem balouçava-a suavemente, emitindo um som baixo de shhh. Depois, o homem virou-se. O seu rosto era talhado como granito, os olhos da cor de uma tempestade. No entanto, no fundo daqueles olhos, a Leonor viu uma dor profunda.
“Quem é você?” A voz dele era baixa.
“Chamo-me Leonor. Leonor Silva. A mulher da limpeza. Não Não sabia que vinha hoje.”