O entreposto comercial de Vale Amargo estava mais ruidoso do que o habitual naquela tarde.
Homens amontoavam-se no alpendre de madeira, com botas a ecoar nas tábuas, vozes roucas de poeira e aguardente. As carroças rangiam. Os cavalos bufavam. Lá dentro, alguém ria de forma exagerada.
João Silva mantinha-se afastado do barulho, encostado a um poste de amarrar cavalos, com os braços cruzados.
Ele tinha descido da serra apenas duas vezes naquele ano.
O alto e corpulento caçador parecia deslocado entre os mercadores e garimpeiros. O seu casaco era feito de pele de veado. A barba, espessa após um Inverno passado sozinho nas terras altas.
João gostava que assim fosse.
A serra não mente.
A serra não engana.
As pessoas sim.
Mas hoje ele tinha vindo por algo invulgar.
Uma esposa.
Ou, pelo menos… essa tinha sido a ideia.
Seis meses antes, um dos mercadores que passava pelo seu vale tinha sugerido isso.
“A serra não é lugar para um homem sozinho para sempre,” dissera o mercador. “Há muitas mulheres no Litoral a procurar maridos por aqui. Noivas por correspondência.”
João tinha-se rido da ideia, inicialmente.
Mas as noites de Inverno eram longas.
E silenciosas.
Por isso, escreveu uma carta.
Agora estava parado fora do entreposto, onde várias noivas por correspondência tinham chegado para homens de todo o território.
Mas algo de estranho estava a acontecer.
Lá dentro, vozes zangadas erguiam-se.
“Levem-na daqui!” gritou alguém.
“Eu paguei bom dinheiro, não foi para isto!”
Outro homem praguejou alto.
João franziu a testa e aproximou-se da porta.
Lá dentro, um pequeno grupo de homens rodeava uma jovem mulher que estava no centro.
Ou melhor… uma jovem com um saco de serapilheira amarrado sobre a cabeça.
As mãos da mulher estavam fracamente atadas à sua frente.
Ela estava perfeitamente imóvel.
Como se tivesse aprendido a não lutar mais.
Um homem magro, com um colete engraçado, agitava uma pilha de papéis.
“Esta é a última,” anunciou ele. “Se ninguém a reclamar, envio-a de volta para o Litoral.”
Um rancheiro cuspiu no chão.
“Porque é que ela tem a cabeça coberta, afinal?”
O agente limpou a garganta com embaraço.
“O seu pretendente anterior… recusou o acordo.”
“Porquê?” perguntou alguém.
O agente hesitou.
“Razões pessoais.”
Uma onda de riso percorreu a sala.
“Quer dizer que é feia,” disse outro homem, sem rodeios.
Mais risos se seguiram.
O maxilar de João apertou.
A mulher não se moveu.
Ela não falou.
Mas algo na forma como ela estava—pequena, silenciosa, à espera que estranhos decidissem o seu destino—fez algo revolver-se no peito de João.
“Quanto?” perguntou ele, de repente.
A sala calou-se.
O agente virou-se para ele.
“Está interessado?”
João encolheu os ombros.
“Talvez.”
O agente baixou a voz.
“Vinte mil réis.”
Vários homens bufaram.
“Demasiado por um saco misterioso!” gracejou alguém.
João meteu a mão no casaco e puxou as moedas.
Elas tilintaram com peso em cima da mesa.
A sala ficou em silêncio.
“Bem,” disse o agente rapidamente, agarrando o dinheiro, “parabéns, Senhor…?”
“Silva.”
“Parabéns, Senhor Silva. Ela é sua.”
As palavras pairaram no ar desconfortavelmente.
João caminhou na direção da mulher.
De perto, ela parecia ainda mais pequena do que ele pensara.
O seu vestido era de lã cinza simples. As suas botas estavam gastas.
O saco de serapilheira cobria-lhe a cabeça inteira, amarrado frouxamente no pescoço.
“Vamos,” disse João baixinho.
Ela não se moveu.
“Vem?” perguntou ele.
Uma voz suave respondeu de debaixo do saco.
“Sim… senhor.”
As palavras soaram ensaiadas.
Obedientes.
Isso deixou João desconfortável.
Ele desfez a corda que prendia os seus pulsos.
“Podes andar sozinha.”
Ela acenou com a cabeça.
Lentamente, o estranho par saiu para a luz da tarde.
Seguiram para norte, na direção da serra.
João montava o seu cavalo enquanto a mulher seguia numa mansa mula atrás dele.
O saco ainda cobria a sua cabeça.
João tinha reparado que várias pessoas olhavam fixamente quando saíram da cidade.
Não os culpava.
Um homem da serra a liderar uma mulher com um saco na cabeça parecia estranho, mesmo para os padrões da fronteira.
Após algumas léguas, João finalmente parou perto de um ribeiro.
Apeou-se e virou-se para ela.
“Podes tirar isso agora,” disse ele.
Ela gelou.
“Eu… não posso.”
“Porquê não?”
A sua voz tremeu ligeiramente.
“Eles disseram… que o senhor devia decidir primeiro.”
João franziu a testa.
“Decidir o quê?”
“Se me quer enviar de volta.”
O silêncio encheu a floresta.
O vento sussurrava através dos pinheiros.
João aproximou-se.
“Menina,” disse gentilmente, “eu já paguei.”
“Não é por isso.”
As suas mãos tremiam.
“Eles disseram… que a maioria dos homens muda de ideias quando vê.”
João suspirou.
“Tira o saco.”
Ela levantou lentamente as mãos e desfez o nó que segurava o saco.
Por um momento, ela não se moveu.
Depois, a serapilheira deslizou para baixo.
João suspirou.
Não porque ela fosse feia.
Porque o lado esquerdo do seu rosto estava marcado.
Velhas cicatrizes de queimadura estendiam-se da sua têmpora até ao maxilar, torcendo a pele em cordões pálidos.
Mas o seu lado direito era surpreendentemente belo.
Olho azul claro. Traços suaves.
Ela observou a sua reação cuidadosamente.
À espera.
Apreensiva.
“Viu?” sussurrou ela.
João olhou por mais um momento.
Depois, fez algo inesperado.
Encolheu os ombros.
“Só isso?”
A confusão cruzou o seu rosto.
“O senhor… não está zangado?”
“Porque haveria de estar?”
“A maioria dos homens fica.”
João coçou a barba.
“Bem, a maioria dos homens naquela sala parecia uns palermas.”
Ela pestanejou.
“O meu nome é Mariana,” disse ela baixinho.
“João.”
Ficaram parados, awkwardamente, por um momento.
Finalmente, João gesticulou na direção da serra.
“A minha cabana fica a cerca de duas horas daqui.”
“O senhor… ainda me leva?”
“A não ser que prefiras voltar.”
Mariana olhou para a estrada distante.
Depois para as imponentes montanhas à frente.
“Não,” disse suavemente.
A cabana situava-se num vale alto, rodeada por pinheiros e picos nevados.
Quando Mariana a viu pela primeira vez, ficou a olhar maravilhada.
“O senhor vive aqui sozinho?”
“Maioritariamente.”
Ele ajudou-a a descer da mula.
Lá dentro, a cabana era simples, mas quente.
Uma lareira de pedra.
Uma mesa rústica de madeira.
Prateleiras cheias de mantimentos.
Mariana entrou lentamente, como se entrasse noutro mundo.
“Eu sei cozinhar,” disse ela, de repente. “E coser. E limpar.”
João pestanejou.
“É bom saber.”
“Vou trabalhar muito,” continuou ela, nervosamente. “O senhor não se vai arrepender—”
“Ele estendeu a mão, não para a sua face marcada, mas para o seu coração intacto, e naquele gesto simples, ambos encontraram uma beleza que os olhos sozinhos nunca poderiam ver.