O posto comercial em Vale Amargo estava mais barulhento que o normal naquela tarde.
Homens se amontoavam na varanda de madeira, botas batendo nas tábuas, vozes grossas de cachaça e poeira. Carroças rangiam. Cavalos bufavam. Lá dentro, alguém ria alto demais.
Duarte Lopes mantinha-se afastado do barulho, encostado num tronco de amarrar animais, com os braços cruzados.
Ele tinha descido da serra apenas duas vezes naquele ano.
O alto e corpulento caçador parecia deslocado entre os mercadores e garimpeiros. Seu casaco era de couro de veado. Sua barba estava densa, de um inverno passado sozinho no alto da serra.
Duarte gostava que fosse assim.
A serra não mente.
Não trapaceia.
As pessoas sim.
Mas hoje ele tinha vindo por uma razão fora do comum.
Uma esposa.
Ou, pelo menos… essa tinha sido a ideia.
Seis meses antes, um dos mercadores que passava pelo seu vale tinha sugerido.
“Serra não é lugar para um homem sozinho para sempre,” dissera o mercador. “Há muitas mulheres no Leste à procura de maridos por aqui. Noivas por correspondência.”
Duarte rira à princípio.
Mas as noites de inverno eram longas.
E caladas.
Então ele tinha escrito uma carta.
Agora ele estava do lado de fora do posto comercial, onde várias noivas por correspondência tinham chegado para homens de todo o território.
Mas algo estranho estava a acontecer.
Dentro do edifício, vozes zangadas ergueram-se.
“Leva-a daqui!” gritou alguém.
“Eu paguei bom dinheiro, não por isso!”
Outro homem praguejou alto.
Duarte franziu a testa e aproximou-se mais da porta.
Lá dentro, um pequeno grupo de homens cercava uma jovem mulher que estava no centro.
Ou melhor… uma jovem mulher com um saco de serapilheira amarrado sobre a cabeça.
As mãos da mulher estavam amarradas frouxamente à sua frente.
Ela estava perfeitamente imóvel.
Como se tivesse aprendido a não lutar mais.
Um homem magro com um colete elegante agitou uma pilha de papéis.
“Esta é a última,” anunciou ele. “Se ninguém a reclamar, mando-a de volta para o Leste.”
Um rancheiro cuspiu no chão.
“Porque é que ela tem a cabeça coberta, afinal?”
O agente pigarreou constrangido.
“O seu comprometimento anterior… declinou o acordo.”
“Porquê?” perguntou alguém.
O agente hesitou.
“Razões pessoais.”
Uma onda de riso percorreu a sala.
“Quer dizer que é feia,” disse outro homem, de forma brusca.
Mais risadas seguiram-se.
O maxilar de Duarte apertou.
A mulher não se mexeu.
Não falou.
Mas algo na forma como ela estava—pequena, silenciosa, à espera que estranhos decidissem o seu destino—fez algo torcer no peito de Duarte.
“Quanto?” perguntou ele, de repente.
A sala silenciou.
O agente virou-se para ele.
“Está interessado?”
Duarte encolheu os ombros.
“Talvez.”
O agente baixou a voz.
“Vinte escudos.”
Vários homens deram uma risada.
“Demasiado por um saco misterioso!” gracejou alguém.
Duarte enfiou a mão no casaco e puxou as moedas.
Elas tilintaram com peso em cima da mesa.
A sala ficou em silêncio.
“Bom,” disse o agente rapidamente, agarrando o dinheiro, “parabéns, Senhor…?”
“Lopes.”
“Parabéns, Senhor Lopes. Ela é sua.”
As palavras pairaram no ar desconfortavelmente.
Duarte caminhou na direção da mulher.
De perto, ela parecia ainda mais pequena do que ele pensara.
Seu vestido era de lã cinzenta simples. Suas botas estavam gastas.
O saco de serapilheria cobria toda a sua cabeça, amarrado frouxamente no pescoço.
“Vamos,” disse Duarte baixinho.
Ela não se moveu.
“Vens?” perguntou ele.
Uma voz suave respondeu de debaixo do saco.
“Sim… senhor.”
As palavras soaram treinadas.
Obedientes.
Isso deixou Duarte desconfortável.
Ele desamarrou a corda que prendia seus pulsos.
“Podes andar sozinha.”
Ela acenou com a cabeça.
Lentamente, o par estranho saiu para a luz da tarde.
Cavalgaram para norte, em direção à serra.
Duarte ia no seu cavalo enquanto a mulher seguia numa mula mansa atrás dele.
O saco ainda cobria a sua cabeça.
Duarte tinha notado várias pessoas a olhar enquanto saíam da cidade.
Não os culpava.
Um serrano a liderar uma mulher com um saco na cabeça parecia estranho mesmo para os padrões da fronteira.
Após algumas léguas, Duarte finalmente parou perto de um ribeiro.
Apeou-se e virou-se para ela.
“Podes tirar isso agora,” disse ele.
Ela congelou.
“Eu… não posso.”
“Porque não?”
A sua voz tremeu ligeiramente.
“Eles disseram… que o senhor devia decidir primeiro.”
Duarte franziu a testa.
“Decidir o quê?”
“Se me quer mandar de volta.”
O silêncio encheu a floresta.
O vento sussurrava pelos pinheiros.
Duarte aproximou-se mais.
“Menina,” disse ele gentilmente, “eu já paguei.”
“Não é por isso.”
Suas mãos tremiam.
“Eles disseram… que a maioria dos homens muda de ideias quando vê.”
Duarte suspirou.
“Tira isso.”
Ela levantou lentamente as mãos e desamarrou a corda que segurava o saco.
Por um momento, ela não se moveu.
Então a serapilheira deslizou para baixo.
Duarte deu um suspiro surpreendido.
Não porque ela fosse feia.
Porque o lado esquerdo do seu rosto estava marcado.
Velhas cicatrizes de queimadura estendiam-se da sua têmpora até ao maxilar, torcendo a pele em sulcos pálidos.
Mas o seu lado direito era impressionantemente bonito.
Olho azul límpido. Traços suaves.
Ela observou a sua reação atentamente.
À espera.
Preparando-se.
“Viu?” sussurrou ela.
Duarte ficou a olhar por mais um momento.
Então ele fez algo inesperado.
Encolheu os ombros.
“É só isso?”
A confusão cruzou o seu rosto.
“O senhor… não está zangado?”
“Porque é que eu estaria?”
“A maioria dos homens fica.”
Duarte coçou a barba.
“Bom, a maioria dos homens naquela sala parecia uns palermas.”
Ela pestanejou.
“O meu nome é Madalena,” disse ela baixinho.
“Duarte.”
Ficaram parados, sem jeito, por um momento.
Finalmente Duarte gesticulou na direção da serra.
“A minha cabana fica a cerca de duas horas daqui.”
“O senhor… ainda me leva?”
“A não ser que prefiras voltar.”
Madalena olhou para a estrada distante.
Depois para as imponentes montanhas à frente.
“Não,” disse ela suavemente.
A cabana ficava num vale alto rodeado por pinheiros e picos nevados.
Quando Madalena a viu pela primeira vez, ficou a olhar maravilhada.
“O senhor vive aqui sozinho?”
“Na maior parte do tempo.”
Ele ajudou-a a descer da mula.
Lá dentro, a cabana era simples mas quente.
Uma lareira de pedra.
Uma mesa rústica de madeira.
Prateleiras cheias de mantimentos.
Madalena entrou devagar, como se estivesse a entrar noutro mundo.
“Eu sei cozinhar,” disse ela de repente. “E coser. E limpar.”
Duarte pestanejou.
“É bom saber.”
“Vou trabalhar muito,” continuou ela nervosamente. “Não se vai arrepender—”
“Espera aí.”
Ela parou de falEle estendeu a mão, não para a cicatriz, mas para o seu rosto inteiro, e disse: “O lugar era bonito, mas só ficou completo quando você chegou.”