Atirada ao mar pelo marido e seu irmão gêmeo, ela sobrevive porque é uma exímia nadadora – e retorna com um plano de vingança terrível.

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4 de novembro

Hoje o mar trouxe-me algo que ainda não consigo arrumar na cabeça. Saí de madrugada com o barco, como sempre faço desde que me conheço, e as ondas estavam zangadas. Perto da ponta da Ericeira, vi um vulto a boiar. A princípio julguei ser um destroço, mas depois distingui um braço pálido. Era uma mulher, de cabelos escuros colados ao rosto, totalmente imóvel. Icei-a para dentro com a ajuda do moço que me acompanha. Estava gelada, mal respirava. Trouxe-a para a minha casa junto ao porto, a minha Maria aqueceu-a com mantas e lhe deu um caldo quente.

Durante dois dias ela quase não falou. Depois, numa noite em que a nortada gemia nas janelas, começou a contar-me tudo. Chamava-se Conceição Almeida, casada com um tal Daniel Almeida, homem de negócios em Lisboa. Ele tinha um irmão gémeo, o Miguel, tão parecido que até os sócios os confundiam. Mas a semelhança não ficava no rosto: ambos carregavam a mesma frieza nos olhos.

A Conceição desfiou a sua história devagar, como quem desembaraça uma rede. Nos primeiros tempos de casada, julgava viver um conto de fadas. O Daniel era atencioso, enchia-lhe a casa de flores e repetia que a amava. O Miguel vivia colado a eles, ajudava na empresa e sorria sempre com uma calma que parecia de confiança. Só que as paredes daquela vivenda em Cascais foram ficando grossas de segredos.

À noite, os irmãos fechavam-se no escritório e discutiam em murmúrios. Calavam-se de repente quando ela entrava. Um dia, a Conceição encontrou uns papéis que o Daniel tentou esconder à pressa: fotografias de um armazém abandonado perto do cais de Alcântara, esquemas de rotas marítimas e listas de nomes com quantias exorbitantes em euros ao lado. Pensou que fosse apenas o lado sujo do negócio de importações. Até que um telefonema anónimo lhe disse baixinho: «Se quer continuar viva, pare de fazer perguntas ao seu marido.» A chamada caiu logo.

A mulher percebeu então que pisava terreno minado. Começou a ouvir atrás das portas e, certa noite, gravou no telemóvel uma conversa entre o Daniel e o Miguel. Falavam de transporte clandestino de pessoas por mar e de uma testemunha que tinha desaparecido sem deixar rasto. A Conceição gelou. Tentou fingir que nada sabia, mas o marido farejou a mudança: ela tornou-se esquiva, agarrada ao telefone, distante. Os gémeos concluíram que ela sabia demasiado.

Havia ainda outro motivo para se livrarem dela. Quando se conheceram, a Conceição tinha pavor da água. Anos antes, quase morrera afogada numa praia do Algarve e, desde então, nunca mais entrara no mar à frente do marido. O Daniel acreditava piamente que ela não aguentaria dois minutos dentro de água. Só não sabia que, depois do susto, ela procurara às escondidas um treinador na piscina dos Bombeiros de Oeiras. Durante quase dois anos aprendeu a nadar, a suster a respiração, a bater-se com as ondas. Ninguém sabia.

E foi essa mentira que quase lhe custou a vida. Na noite da tempestade, os irmãos convidaram-na para um passeio de iate, ao largo da costa de Cascais. Tudo parecia normal: abriram um vinho verde, riram-se de velhas anedotas. Mas o iate afastou-se cada vez mais da terra. O mar encrespou, o vento assobiava nos cabos. A dada altura, o Miguel agarrou-a pelo braço. Ela olhou para o Daniel à espera de socorro, mas ele limitou-se a dizer: «Descobriste coisas a mais.»

A Conceição implorou, chorou, agarrou-se à amurada. Os dois arrastaram-na até à popa. Lá em baixo, a água escura fervia. O Miguel ainda escarneceu: «Tu nem sabes nadar.» Depois empurraram-na.

O choque gelado engoliu-a. ElEla não se afogou, pois o segredo das aulas de natação deu-lhe força para nadar até à costa, e ao trazê-la para minha casa entendi que o destino às vezes devolve ao mar o que os homens tentam esconder.

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