A nova secretária ficou paralisada quando viu a fotografia da sua infância no gabinete do patrão… O elevador subia a todo o vapor no arranha-céus de vidro, refletindo o céu azul de Lisboa.
Sofia Santos apertou a pasta com o seu currículo contra o peito, enquanto revia mentalmente todos os conselhos que a mãe lhe dera naquela manhã. Nunca estivera tão nervosa. Este emprego mudava tudo. Piso 35. “Silva, Costa & Associados”, anunciou a voz metálica do elevador.
Sofia inspirou fundo, alisou a saia preta, a única formal que possuía, e caminhou com determinação para a receção. Os seus saltos ecoaram no chão de mármore enquanto observava o luxo discreto do escritório de advogados mais prestigiado da cidade.
Bom dia, sou a Sofia Santos, a nova secretária do Sr. Silva, disse com uma confiança que estava longe de sentir. Uma mulher de meia-idade com um penteado impecável olhou para ela por cima dos óculos. Está mesmo a tempo. O advogado detesta atrasos. A Carminho está à sua espera. Vai explicar-lhe as suas funções.
Sofia seguiu a Carminho, uma senhora mais velha de rosto bondoso mas olhar perspicaz, através de corredores onde advogados de fatos caros falavam em vozes baixas sobre casos de milhões de euros. Era um mundo completamente diferente do seu, onde todos os meses eram uma batalha para pagar a medicação da sua mãe.
“O Sr. Silva é muito exigente”, explicou a Carminho, mostrando-lhe a sua secretária. “Pontualidade perfeita, organização impecável e discrição absoluta. Nunca, mas nunca o interrompa quando está numa chamada importante.” Sofia assentiu, memorizando cada instrução.
“E quando é que o vou conhecer?” “Ele está à sua espera, agora mesmo, para lhe dar as primeiras instruções.” A Carminho baixou a voz. “Não se assuste se ele parecer frio. É assim com toda a gente.”
O gabinete do advogado Rodrigo Silva era exatamente o que Sofia esperava. Elegante, discreto e intimidante. Grandes janelas ofereciam uma vista panorâmica sobre o rio Tejo. Estantes de madeira escura cobriam duas paredes inteiras, e uma secretária imponente presidia à sala.
Um homem de 53 anos assinava documentos sem levantar os olhos. O seu cabelo grisalho, perfeitamente penteado, e o fato sob medida exalavam poder e riqueza. Quando finalmente olhou para cima, Sofia sentiu um arrepio inexplicável. Eram olhos cinzentos, penetrantes e estranhamente tristes.
“Menina Santos”, disse com uma voz grave, “faça o favor de se sentar.” Sofia obedeceu, notando que o advogado quase não a olhava diretamente. “O seu currículo é modesto, mas as suas referências académicas são excelentes. Espero que demonstre a mesma dedicação aqui.”
“Não o vou desiludir, senhor doutor.”
Rodrigo começou a explicar-lhe as suas responsabilidades, mas Sofia mal conseguia concentrar-se. Os seus olhos tinham detetado algo na secretária que a fez perder a respiração. Numa elegante moldura de prata repousava uma fotografia desbotada pelo tempo. Uma menina de cerca de quatro anos, vestida de branco, a segurar um girassol. Era ela.
O mundo pareceu parar. O mesmo vestido branco de renda que a sua mãe guardava numa caixa. O mesmo girassol que ela tinha colhido naquele dia no jardim. A mesma fotografia que a sua mãe guardava como um tesouro, idêntica. Até à pequena mancha no canto. “Está a ouvir, Menina Santos?”
A voz do advogado trouxe-a abruptamente de volta à realidade. Sofia sentiu que não conseguia respirar. As pernas tremiam-lhe por baixo da secretária. “Desculpe, eu…”, gaguejou, incapaz de desviar o olhar da fotografia. Rodrigo seguiu o seu olhar e, apercebendo-se do que ela estava a ver, o seu rosto enrijou. Uma sombra de dor cruzou os seus olhos.
“Está bem? Está pálida.” Sofia apontou para a fotografia com dedos trémulos. “Aquela foto, posso perguntar quem é?” O advogado Silva ficou em silêncio durante alguns segundos. Quando falou, a sua voz soou diferente, quase quebrada. “É uma fotografia pessoal, não é importante.”
Mas era, e ambos pareciam saber disso. “Pode sair. A Carminho explicará o resto das suas funções”, disse Rodrigo, terminando a reunião. Sofia passou o resto do dia em piloto automático. A Carminho mostrou-lhe o sistema de arquivo, explicou os horários e apresentou-lhe o pessoal-chave, mas a sua mente permaneceu naquela fotografia.
Como era aquilo possível? O que estava a sua fotografia a fazer no gabinete do homem mais poderoso da firma?
Quando saiu do edifício, já anoitecia. Apanhou o metro apinhado de gente, depois um autocarro que a deixou a três quarteirões de casa, num bairro modesto na margem sul. Durante toda a viagem, a imagem da moldura de prata não saiu da sua mente. A sua casa era pequena, mas acolhedora. Sofia girou a chave com cuidado para não acordar a mãe, caso estivesse a descansar, mas encontrou-a na cozinha a preparar o jantar.
“Como é que correu, minha menina?”, perguntou a Isabel, de 51 anos, com um sorriso que iluminava o seu rosto, cansado pela doença.
“Correu bem, acho eu”, respondeu Sofia, pousando a mala em cima da mesa. A Isabel olhou para ela com atenção. Conhecia cada expressão da sua filha. “Aconteceu alguma coisa? Pareces diferente.”
Sofia sentou-se, aceitando a chávena de chá que a mãe lhe ofereceu. “O senhor doutor Silva tem uma fotografia minha na secretária dele.” A chávena que a Isabel segurava caiu ao chão, desfazendo-se em estilhaços.
“O que estás a dizer?”, sussurrou a Isabel, o seu rosto subitamente branco como papel.
“A fotografia do girassol, Mãe, aquela que tens guardada na tua caixa, é exatamente a mesma.” A Isabel apoiou-se na mesa como se as pernas já não a sustentassem. Os seus olhos, tão parecidos com os da filha, encheram-se de lágrimas. “Não pode ser”, murmurou. “Não pode ser ele.” “Conheces o advogado Silva?”
“Mãe?”, perguntou Sofia, cada vez mais confusa. A Isabel não respondeu. Levantou-se lentamente e foi para o seu quarto. Sofia observou enquanto a sua mãe, com as mãos a tremer, puxava uma pequena caixa de metal de debaixo da cama. A Isabel inseriu uma chave minúscula na fechadura e levantou a tampa.
Lá dentro estavam os tesouros mais preciosos da sua mãe: cartas amarelecidas, uma mecha de cabelo de criança, um anel de prata barato e a fotografia, exatamente igual à que repousava no gabinete de Rodrigo Silva. A Isabel pegou na foto entre os dedos e olhou para ela como se contivesse todos os segredos do universo.
“Há algo que nunca te contei sobre o teu pai, Sofia”, disse finalmente, a voz a quebrar após 26 anos de silêncio. “Está na hora de saberes a verdade.”
A noite caía sobre Lisboa, e numa casinha na margem sul, um segredo guardado durante décadas estava prestes a ser revelado, mudando para sempre a vida de todos os envolvidos. Sofia sentou-se na beira da cama. A observar a sua mãe, que segurava a fotografia com mãos trémulas.
Nunca a tinha visto assim, tão frágil e assustada. “O teu pai, Sofia”, mal conseguia falar. “Sempre me disseste que ele morreu antes de eu nascer.” A Isabel abanou a cabeça. OsA Isabel sentiu o peso de vinte e seis anos a levantar-se dos seus ombros enquanto as lágrimas corriam livremente, finalmente liberta do segredo que a aprisionara por toda uma vida.