Os motociclistas apareceram no Hospital Infantil de Santo António com marretas e martelos, e ninguém disse uma palavra.
Nem os médicos. Nem os seguranças. Nem os pais sentados na receção, a observar trinta homens de coletes de couro a passar por eles com ferramentas que poderiam destruir o edifício.
O primeiro golpe atingiu a janela do segundo andar, no fundo do corredor. Vidros por todo o lado.
Um menino de sete anos, numa cadeira de rodas, começou a bater palmas.
Chamo-me Rui. Ando com os Lobos do Mar, do Oeste de Portugal. E quero contar-vos porque é que destruímos aquele hospital. Porque o que faziam àquelas crianças por trás daquelas paredes era algo de que eu não me podia afastar.
A minha filha, Beatriz, passou quatro meses naquele hospital quando tinha nove anos. Leucemia. Ela venceu. Mas voltou para casa diferente. Calada. A estremecer com sons. Recusava-se a dormir com as luzes apagadas.
Demorei dois anos a descobrir o porquê.
Um funcionário da limpeza do quarto andar entrava nos quartos à noite. A Beatriz nunca me contou. Contou a uma enfermeira. A enfermeira contou a um supervisor. O supervisor abafou o assunto.
Quando a Catarina, enfermeira do turno da noite, contactou o nosso clube na primavera passada, não perguntou pela minha filha. Ela perguntou pelo próprio edifício. Bolor atrás das placas de gesso. Janelas seladas. Aquecimento que não funcionava desde dezembro. Crianças a dormir em quartos a cinco graus, com mantas de hospital finas como papel.
Mas quando percorri aquele hospital pela primeira vez, fingindo visitar o filho de um amigo, vi algo atrás da porta da manutenção no quarto andar que me fez ficar sentado na minha carrinha durante trinta minutos antes de conseguir conduzir.
O mesmo armário. A mesma fechadura. O mesmo banco encostado ao interior da porta, que eu reconheci da descrição da Beatriz seis anos antes.
Alguém ainda o estava a usar.
Liguei ao Mocho, o nosso presidente, do parque de estacionamento. Não conseguia controlar a voz. Contei-lhe o que vi. Contei-lhe o que a Catarina me dissera sobre o edifício. Disse-lhe que ou ia voltar lá sozinho naquela noite, ou o clube ia ajudar-me a fazer isto como deve ser.
O Mocho não disse nada durante uns dez segundos. Depois disse: “Reunião. Hoje. Vinte horas.”
Cada cadeira estava ocupada. Irmãos vieram da secção de Coimbra e da secção de Aveiro. Tipos que não vinham a uma reunião há dois anos apareceram.
Fiquei à frente e contei-lhes tudo.
Contei-lhes sobre a Beatriz. Foi a primeira vez que o disse em voz alta a alguém além da minha mulher. A minha voz falhou duas vezes e eu deixei. Eram os meus irmãos. Mereciam a verdade.
Contei-lhes sobre as nove queixas da Catarina. Todas ignoradas. Contei-lhes sobre o bolor que ela fotografou atrás das paredes. Bolor preto tão espesso que se podia raspar com a unha. Contei-lhes sobre o sistema de aquecimento que estava “em reparação” desde novembro. Crianças em quimio com o sistema imunitário debilitado, em quartos tão frios que se via o vapor da respiração.
Contei-lhes sobre as janelas. Todas as janelas do segundo e terceiro andar tinham sido seladas e tapadas durante uma renovação que começou há catorze meses. O empreiteiro desistiu quando o hospital deixou de pagar. A administração selou tudo com plástico e contraplacado e disse às famílias que era “provisório”.
Catorze meses de provisório.
Crianças que não viam a luz do dia a partir do seu próprio quarto há mais de um ano.
O Mocho levantou-se quando eu terminei. Olhou à volta. Disse quatro palavras.
“Quando é que partimos?”
Passámos a semana seguinte a planear. A Catarina era o nosso contacto interno. Deu-nos as plantas do edifício. Disse-nos quais as janelas que estavam seladas, quais as paredes com bolor, quais os quartos com crianças para não assustarmos ninguém.
Não íamos pedir autorização. Já tentáramos isso. A Catarina tentou nove vezes e foi repreendida por insubordinação. Um canal de notícias local fez uma peça de quarenta segundos e nada aconteceu. O inspetor de saúde da região apareceu, percorreu a receção, assinou um formulário e foi-se embora sem subir acima do primeiro andar.
Ninguém vinha salvar aquelas crianças. Então, íamos fazê-lo nós.
Terça-feira. Dez da manhã. Trinta e dois Lobos do Mar entraram no parque do Hospital de Santo António em formação. Todos de colete. Metade deles com marretas e pés-de-cabra. A outra metade com material de construção. Madeira. Vidros. Placas de gesso. Isolamento. Silicone. Aquecedores industriais.
Não íamos só destruir o sítio. Íamos reconstruí-lo.
A Catarina encontrou-nos na entrada lateral. Ela tinha aquele olhar que as pessoas têm quando lutam sozinhas há tanto tempo que se esqueceram de como é ter apoio. As mãos tremiam-lhe quando abriu a porta.
“Terceiro andar primeiro”, disse. “É onde estão as crianças mais doentes.”
O Grande Paulo abriu a primeira janela selada no segundo andar com um único golpe. O contraplacado estilhaçou-se. O plástico rasgou. E, pela primeira vez em catorze meses, a luz verdadeira do sol entrou naquele corredor.
O pó flutuava no feixe de luz como neve.
Uma enfermeira no balcão deixou cair a pasta. Não a levantou. Ficou ali a observar enquanto mais três irmãos começaram a arrancar o contraplacado da janela seguinte.
O segurança. Nunca me esquecerei dele. Talvez vinte e dois anos. Magro. Parecia aterrado. Dobrou a esquina e viu um corredor cheio de motociclistas com marretas a desmontar um edifício.
Apanhou o rádio.
A Catarina colocou-se à frente dele. Disse algo que eu não ouvi. Ele olhou para ela. Olhou para nós. Olhou para a luz do sol que inundava a primeira janela aberta. Voltou a colocar o rádio no cinto. Afastou-se.
Nunca mais voltou.
Atuámos andar a andar. Todas as janelas seladas foram abertas. As que tinham vidros partidos foram substituídas. O Mocho chamou dois irmãos que trabalham na construção e eles tinham equipas a montar nova estrutura em menos de uma hora.
No terceiro andar, a ala de oncologia pediátrica, trabalhámos em silêncio. Sem marretas. Pés-de-cabo e luvas. Com cuidado. Devagar. Porque aquelas crianças estavam ali mesmo, nas suas camas. A observar-nos.
Uma menina chamada Sofia. Talvez com oito anos. Careca da quimio. Tubos nos dois braços. Ela observou o Gigante, o nosso irmão maior, com dois metros e cento e quarenta quilos, a tirar cuidadosamente uma folha de contraplacado da janela com as próprias mãos.
Quando a luz entrou, a Sofia fechou os olhos e virou o rosto para ela. Como uma flor. Ela não sentira o sol na pele a partir daquela cama em onze meses.
O Gigante virou-se para ela não ver o seu rosto. Mas eu vi-o. O homem de aparência mais durona que conheço. A chorar como uma criança.
Encontrámos o bolor no segundo andar. Atrás da parede de gesso em quatro quartos. Preto. Espesso. O cheiro quando abrimos aquelas paredes era de cortar a respiração. Crianças tinham dormido a dois metros daquilo durante mais de um ano.
O Dinis e o Marco, ambos empreiteiros licenciados, começaram logoa cortar as paredes contaminadas e instalar os ventiladores e filtros que o hospital deveria ter providenciado há muito tempo.