A caneta Montblanc pesava uma tonelada na mão de Isabel. Não pelo ouro de que era feita, mas pela sentença que estava prestes a assinar.
O silêncio no salão principal da mansão dos Albuquerque não era calmo; era espesso, carregado de uma hostilidade que se colava à pele. Três anos. Três anos da sua vida reduzidos àquele pedaço de papel sobre a mesa de mogno.
— Vais assinar hoje ou esperamos que aprendas a escrever? — a voz de Camila, sua cunhada, cortou o ar. Estava recostada no sofá de couro, segurando uma taça de Vinho Verde com aquela elegância preguiçosa de quem nunca teve de trabalhar para nada.
Isabel levantou os olhos. Seus olhos, vermelhos mas secos, procuraram Rodrigo. Seu marido. O homem a quem jurara amor eterno num altar cheio de flores brancas que, agora percebia, tinham custado mais do que a casa onde ela crescera. Rodrigo olhava pela janela, evitando o seu olhar, com aquela covardia morna que Isabel confundira com timidez durante tanto tempo.
— Deixa-a, Camila — disse dona Margarida, sua sogra, com um sorriso que não chegava aos seus olhos frios —. A coitada deve estar a calcular quanto perde. Chegou a esta casa com uma mala de roupa barata e vai-se embora com a mesma mala. É justiça divina.
Isabel sentiu o ardor na garganta. Quis gritar. Quis dizer-lhes que amara Rodrigo quando ele não era ninguém na empresa do pai, que suportara os seus desprezos não por dinheiro, mas pela estúpida esperança de ter uma família.
— O acordo é claro — interveio o advogado da família, um homem com cara de doninha —. Renuncia a qualquer pensão, a qualquer bem imóvel e a qualquer reclamação futura. Em troca, os Albuquerque… benevolentemente, decidem não publicar as provas da sua “indiscreção”.
Isabel largou a caneta de repente. O som ecoou como um tiro.
— Indiscreção? — a sua voz saiu rouca, mas firme —. Eu nunca lhe fui infiel. Nunca.
Dom Artur, o patriarca, suspirou com aborrecimento da cabeceira da mesa.
— Por favor, menina. O Rodrigo contou-nos tudo. Sabemos da tua aventura com aquele… instrutor. Temos fotografias. Se não assinares agora e te puseres a andar, vamos garantir que o teu nome fique tão sujo que nem na padaria do teu bairro te deem trabalho.
Era uma mentira. Uma armadilha vil para não lhe dar um tostão. Rodrigo sabia que era mentira, mas ali estava, em silêncio, permitindo que os pais a destruíssem.
— Rodrigo — Isabel chamou-o pela última vez —. Olha para mim e diz-me tu. Diz que é verdade.
Ele virou-se, com o rosto tenso.
— Assina, Isa. É o melhor. Volta para o teu pai, para a oficina mecânica. É aí que pertences. Entre a graxa e a gente sem educação. Nós somos… demais para ti.
Algo quebrou dentro de Isabel. Mas não foi o seu coração. Foi o medo.
Lembrou-se do seu pai. Eduardo. O homem que chegava a casa com as mãos manchadas de óleo, que lhe ensinou que a dignidade não se compra, que o valor de uma pessoa se mede pela sua palavra, não pela sua carteira. Eles gozavam com ele. Chamavam-lhe “o mecânico” como se fosse um insulto.
— Está bem — disse Isabel, fechando a pasta —. Vou assinar. Mas antes, tenho de fazer um telefonema.
Dona Margarida soltou uma gargalhada estridente.
— A quem? Ao teu pai para que venha buscar-te na sua carrinha velha? Diz-lhe para estacionar na rua, não quero que deite óleo na minha entrada de calçada.
Isabel não respondeu. Marcou o número. Esperou dois toques.
— Pai… já é hora. Estão a fazê-lo agora mesmo.
Desligou.
— Ele diz que já está aqui.
O que os Albuquerque não sabiam era que a “oficina” do Eduardo não consertava carros velhos. O que ignoravam, na sua bolha de arrogância, era que o mundo fora das suas grades douradas estava prestes a mudar drasticamente.
O som que se ouviu lá fora não foi o motor a tossir de uma carrinha velha. Foi o rugido grave e poderoso de um motor V12, seguido pelo chiar de pneus de dois veículos de escolta.
— Mas que raio…? — Dom Artur levantou-se, indignado.
O mordomo entrou no salão, pálido como um fantasma.
— Senhor… há gente à entrada. Segurança privada. E um senhor que… exige entrar.
— Põe essa choldra lá para fora! — gritou Margarida.
Mas era tarde. As portas duplas do salão abriram-se de par em par.
E então, Isabel sorriu.
Porque a tempestade acabara de entrar, e trazia posto um fato italiano de três mil euros.
Eduardo Marques atravessou a soleira. Não havia vestígio de graxa nas suas mãos. Usava uns óculos escuros que tirou com lentidão cinematográfica, revelando um olhar de aço que varreu a sala. Atrás dele, dois advogados com malas de couro e quatro guardas de segurança enormes espalharam-se pelo salão com eficiência militar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Rodrigo ficou de boca aberta. Margarida deixou cair a sua taça, manchando o tapete persa, mas ninguém ligou.
— Boa noite — a voz de Eduardo era profunda, educada e terrivelmente perigosa —. Venho buscar a minha filha. E fechar alguns negócios.
Dom Artur, recuperando um pouco de compostura, inflou o peito.
— Quem é que você pensa que é para entrar assim na minha casa? Vou chamar a polícia!
— Faça-o — respondeu Eduardo com calma, caminhando até se pôr ao lado de Isabel e pondo uma mão protetora no seu ombro —. Na verdade, o Comissário da Polícia está na minha lista de marcação rápida. Jantamos juntos na quinta-feira. Quer que eu o chame?
Isabel sentiu o calor da mão do pai e, pela primeira vez em três anos, conseguiu respirar fundo.
— Pai, eles dizem que me vou embora sem nada. Que sou uma vergonha por ser filha de um mecânico.
Eduardo sorriu, um sorriso de lobo.
— Bom, tecnicamente comecei como mecânico. É verdade. Adoro motores. Mas há trinta anos que não reparo um carro por dinheiro. Dom Artur, você conhece o Grupo Global Marques?
A cor desapareceu do rosto do patriarca Albuquerque.
— O… o conglomerado de investimento? São donos de metade do setor bancário.
— Exatamente — Eduardo sacou um cartão preto e dourado e atirou-o sobre a mesa, deslizando até parar em frente ao acordo de divórcio —. Sou o fundador e acionista maioritário. Mantive a minha identidade privada para proteger a minha filha, para que crescesse com valores reais, longe de parasitas e interessados.
Virou-se para Rodrigo, que tremia visivelmente.
— Queria ver se a amavas a ela ou ao seu apelido. E afinal a prova foi eficaz. Demonstraste ser um homem pequeno, Rodrigo.
— Eu… eu não sabia… — balbuciou Rodrigo, aproximando-se de Isabel como um cão espancado —. Isa, meu amor, isto é um mal-entendido. Os meus pais… eles pressionaram-me.
Isabel olhou-o com uma mistura de pena e nojo.
— Não, Rodrigo. Tu escolheste. Gozaste com a minha origem. Permitiste que inventassem que fui infiel.
— Falando nisso — interrompeu um dos advogados de Eduardo, abrindo a sua pasta —, temos provas forenses digitais que demonstram que as fotografias da suposta infidelidade da senhora Isabel foram fabricadas. E, curiosamente, temos recibos de transferências mensais da contada conta pessoal de Rodrigo para uma tal de Vanessa Oliveira, aluguer de um apartamento, despesas médicas, escola…