A Garota Que a Aldeia EscondiaA jovem descobriu que o homem das montanhas guardava consigo o segredo de uma cura milagrosa.

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A família vendeu-a a um homem que vivia nas montanhas, sobre quem na aldeia só se falava em segredo, porque ela era “coxinha”… Um ano depois, os pais decidiram ir ver como a filha vivia e ficaram estupefactos ao abrir a porta da cabana. 😲😵

A velha carroça de madeira rangeva com força a cada pedra do estreito caminho montanhoso. As rodas saltavam perigosamente nos solavancos e parecia que, a qualquer instante, a carroça poderia despenhar-se no precipício escuro que margeava a vereda.

Lá dentro ia sentada uma jovem chamada Beatriz. Ela entrelaçava os dedos sobre os joelhos com tal força que as suas juntas branqueavam de tensão e frio.

Na sua cabeça ressoavam, repetidamente, as palavras cruéis do seu tio Carlos:

— Uma rapariga coxa não serve para ninguém. Que, pelo menos, dê algum proveito.

E foi exactamente o que aconteceu. Por uns escudos, foi simplesmente vendida. Como se fosse um saco de grão velho que se atira fora do celeiro.

Agora teria de viver nas montanhas, longe das pessoas, com um homem sobre quem na aldeia só se falava em surdina.

Quando o caminho começou a descer para um vale profundo, rodeado de altos pinheiros, Beatriz sentiu uma estranha sensação, como se estivesse a deixar para trás o mundo que conhecia. O vento frio assobiava entre as árvores e o ar tornava-se cada vez mais cortante e pesado.

De repente, o silêncio foi cortado por um som seco e ritmado — alguém cortava lenha. O machado batia, repetidamente, num tronco.

O carroceiro puxou as rédeas e parou a carroça. Sem sequer olhar para a rapariga, disse de forma breve:

— Chegámos. É aqui que será a sua vida agora, menina.

Beatriz desceu lentamente. Cada movimento lhe custava esforço. Apertou ainda mais contra o peito o velho xaile de lã, tentando proteger-se do vento gelado.

A sua perna direita, aleijada há muitos anos e que nunca sarara por completo, tremeu de dor quando pisou o chão congelado.

Já estava habituada aos olhares das pessoas. Aqueles mesmos olhares — uma mistura de pena e repulsa disfarçada — quando viam que arrastava ligeiramente a perna ao andar.

Mas o homem que baixou o machado e se voltou para ela olhou de um modo completamente diferente.

Gonçalo era enorme. Alto, de ombros largos, como se tivesse nascido das próprias montanhas severas. A sua barba espessa parecia um pouco descuidada, e o pesado casaco estava coberto de agulhas de pinheiro e serradura.

No entanto, o que mais impressionava eram os seus olhos — calmos, atentos, profundos.

Ele não olhou para a sua perna aleijada. Olhou para o seu rosto. Para o cansaço, para a palidez, para a inquietação silenciosa no seu olhar… como se tentasse descobrir se ainda restava dentro dela uma faísca de vida.

Um momento depois, limitou-se a acenar com a cabeça e disse com calma:

— Entre. Parece estar gelada.

Sem troça. Sem piedade.

Dentro da cabana cheirava a fumo de lenha e madeira de pinho. O ambiente era muito simples — sem adornos, sem exageros. Mas tudo estava arrumado e limpo.

Gonçalo colocou à sua frente uma caneca de metal com café quente e aproximou um prato com um cozido espesso.

Não fez longos discursos de boas-vindas. Mas no seu comportamento não havia sequer um traço de grosseria.

Ainda assim, o coração de Beatriz batia tão depressa como um pássaro enjaulado.

Durante toda a vida lhe disseram que era apenas um fardo. E naquele momento sentiu uma estranha necessidade de se justificar.

Disse baixinho, quase num murmúrio:

— Eu sei trabalhar… sei limpar, cozinhar, coser… Às vezes a perna atrapalha, mas eu esforço-me… Só não quero que o senhor pense que não presto.

Gonçalo parou. Virou-se lentamente para ela e observou-a com atenção.

Depois, inesperadamente, disse com voz suave:

— Eu não penso isso.

Ficou um momento em silêncio e acrescentou:

— Não deixes que as palavras dos outros se instalem dentro de ti. Quando entram demasiado fundo… depois é muito difícil livrar-se delas.

Beatriz ficou imóvel.

Há muitos anos que ninguém lhe falava com tanto respeito.

Naquela noite, deitou-se no pequeno sótão sob o telhado de madeira. Lá fora, a chuva caía em silêncio, e as gotas batiam suavemente no vidro.

Chorou, mas pela primeira vez em muito tempo não eram lágrimas de desespero…

😲😨 Um ano depois, os pais decidiram descobrir como a filha estava a viver e ficaram chocados ao abrir a porta da cabana…

Passou um ano. E um dia os seus parentes decidiram ir ver como vivia a jovem de que se tinham livrado com tanta facilidade. Na aldeia corriam rumores de que o eremita das montanhas começara a ganhar bom dinheiro com a madeira, e isso despertou-lhes a curiosidade.

Quando a carroça parou em frente à cabana, o tio Carlos abriu a porta sem bater — e ficou paralisado.

Lá dentro estava tudo diferente. A casa estava quente e arrumada, sobre a mesa havia pão fresco e na lareira ardia um fogo.

E junto da janela estava Beatriz.

Ainda mancava ligeiramente, mas mantinha-se erecta e tranquila. No seu olhar já não havia medo nem vergonha — apenas uma serena confiança.

— Beatriz… — disse Carlos, confuso. — Decidimos vir ver como estavas a viver aqui. Afinal, somos família.

Nesse momento, Gonçalo apareceu ao lado dela. Limitou-se a ficar perto da jovem, e um único olhar calmo seu bastou para que o silêncio se instalasse na sala.

Beatriz olhou para os parentes por um longo momento.

— A família não vende uma pessoa por uns escudos — disse ela, com calma.

Ninguém encontrou palavras para responder.

Um minuto depois, saíram da casa de forma constrangida.

Quando a porta se fechou, Beatriz respirou fundo e olhou para as montanhas através da janela.

Um dia, enviaram-na para aquele lugar pensando que se livravam de um fardo.

Mas foi exactamente ali que ela encontrou, pela primeira vez, alguém que viu nela não uma fragilidade… mas um verdadeiro valor. A verdadeira riqueza não é medida em moedas, mas na dignidade que se reconhece no outro.

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