A Bicicleta de um Pequeno HeróiA bicicleta de um pequeno herói, que levou corações corajosos a enfrentar uma jornada muito maior do que ele podia imaginar.

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O motard em mim quase se riu quando o rapazinho careca se aproximou com um maço de notas amachucadas.

Estávamos sentados à porta de um restaurante de beira de estrada em Coimbra. Éramos cinco, acabados de chegar de uma viagem de doze horas. Tatuagens, *patches*, couro, cicatrizes. Parecíamos exatamente quem somos.

As pessoas geralmente atravessam o parque de estacionamento para nos evitar.

Este miúdo não.

Caminhou direto à nossa mesa como se fosse dono do lugar e parou bem à minha frente. Não teria mais de cinco anos. Calças duas vezes maiores que ele. Uma pulseira de plástico do hospital no pulso.

Sem cabelo. Nem sequer sobrancelhas.

Ergueu o dinheiro. “Quanto custa para bater em alguém?”, perguntou.

A mesa inteira ficou em silêncio. O Denny engasgou-se com o café. Inclinei-me para a frente, com os cotovelos nos joelhos, e tentei manter a cara séria.

“Depende de quem é, parceiro.”

O miúdo anuiu como se fosse uma resposta profissional justa. Depois, vasculhou o bolso e tirou mais. Uma nota de cinco. Duas de um. Um punhado de moedas de cinquenta cêntimos. Pousou tudo na mesa à minha frente como se estivesse a contratar um *freelancer*.

“Tenho sete euros e quarenta cêntimos. Dá para bater no meu cancro?”

Ninguém se mexeu.

Olhei para a mãe dele, do outro lado do parque de estacionamento. Ela estava junto de um Fiat Punto azul, a mão sobre a boca, as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. Não o chamou. Ficou ali parada a deixar aquilo acontecer.

Abaixei-me, ficando à altura dos olhos do rapaz. Os meus joelhos odiaram-me por isso. Senti-me com noventa anos.

“Conta-me como é que o cancro é para ti, amigo.”

Ele pensou por um instante. Depois, enfiou a mão no decote da camisa e tirou um pedaço de papel dobrado num quadrado minúsculo. Desdobrou-o muito devagar e mostrou-mo. Era um desenho a lápis de cera.

Um rabisco negro de corpo. Braços compridos e finos. Olhos vermelhos. Dentes pontiagudos. Sem boca. Apenas dentes, empilhados uns sobre os outros como uma armadilha.

Ao lado do monstro, desenhara uma pequena figura de pauzinhos. Um rapaz sem cabelo, cabeça redonda, uma linha direita por boca. O rapaz estava dentro da barriga do monstro.

“Este sou eu”, disse ele, apontando para a figura. “E isto é o cancro. Está dentro do meu corpo. A minha mãe diz que ele me está a comer.”

Podia-se ouvir o trânsito na A1 a quilómetros de distância.

Conseguia sentir os tipos à mesa atrás de mim. Nem um som de nenhum deles. Denny. Galo. Rodas. Zé Grande. Cinco homens adultos que andam com um clube chamado Fantasmas de Ferro. Homens que estiveram presos. Homens que enterraram mais irmãos do que algum de nós consegue contar.

E nenhum de nós conseguia falar.

Eu tinha sido pai uma vez.

Tinha uma filha chamada Beatriz. Ela tinha sete anos e tinha leucemia e morreu numa terça-feira de março há oito anos. Deixei o emprego na semana seguinte. A minha mulher deixou-me no ano a seguir. Ando nesta mota desde então, a andar de restaurante em restaurante, porque estar parado mata-me.

Levo uma foto da Beatriz no bolso interior do meu colete. Ninguém sabe disso exceto os tipos daquela mesa.

Levantei a mão e limpei o rosto com as costas da mão, na esperança de que ninguém visse.

“Como te chamas, amigo?”

“Gonçalo.”

“Gonçalo, posso ver esse desenho outra vez?”

Ele entregou-me o desenho a lápis de cera. Segurei-o como se fosse feito de vidro. Olhei para o monstro de olhos vermelhos a comer um rapazinho sem cabelo e senti algo partir-se dentro de mim, algo que mantinha fechado desde 2017.

“Gonçalo, vem sentar-te aqui comigo, está bem?”

Coloquei-o no banco ao meu lado. Não pesava nada. As pernas balançavam na borda e os seus ténis nem de perto tocavam no chão.

“Preciso que ouças com muita atenção, está bem?”

Ele anuiu.

“Não podemos entrar no teu corpo para bater no cancro. Não é assim que funciona. Somos grandes, mas não desse tipo de grande.”

A sua expressão desfez-se. Vi-a a acontecer em tempo real. A esperança a esvair-se dele como se alguém lhe tivesse puxado a rolha.

“Mas.”

Ergui um dedo.

“Mas quero que olhes à volta desta mesa. Olha para todos os meus irmãos.”

Ele olhou. Denny. Galo. Rodas. Zé Grande. Todos a olharem para ele com expressões que nunca os tinha visto fazer antes.

“Estás a ver estes tipos? Eles são mesmo maus quando é preciso. E sabes o que é que nós fazemos para viver?”

O Gonçalo abanou a cabeça.

“Lutamos contra monstros. Esse é o nosso trabalho todo. Alguém tem um monstro contra o qual não consegue lutar sozinho, vem ter connosco. E nós aparecemos e ajudamos a lutar contra ele.”

Os seus olhos ficaram muito grandes.

“Agora, não podemos entrar no teu corpo. Mas olha, é o seguinte, está bem? Não podes vencer o cancro sem um exército. E tu acabaste de contratar um. Tens esses sete euros e quarenta cêntimos? Essa é a taxa de inscrição. Agora és um de nós.”

Ele olhou para o dinheiro em cima da mesa como se não conseguisse acreditar que tinha funcionado.

“E quando se é um de nós, nós nunca desistimos de ti. Vamos a todas as consultas do médico. Vamos a todas as idas ao hospital. Somos os teus irmãos agora. E quando tiveres medo, ligas-nos. Nós aparecemos. Todas as vezes. Entendes?”

O Gonçalo olhou para a mãe. Ela chorava tanto que só conseguia anuir.

“É verdade?”, perguntou-lhe ele.

“Sim, meu amor”, disse ela. “Acho que é verdade.”

Descosi um dos *patches* do interior do meu colete. Um pequeno, redondo, apenas uma caveira com asas. A Beatriz costumava brincar com ele. Tinha-o guardado no meu bolso interior durante oito anos.

Alfinetei-o ao casaco do Homem-Aranha do Gonçalo.

“Bem-vindo aos Fantasmas de Ferro, *prospect*.”

O nome dela era Anabel. O pai dele tinha ido embora há seis meses.

Ela contou-nos tudo no parque de estacionamento enquanto o Gonçalo se sentava no joelho do Zé Grande e lhe mostrava a pulseira do hospital. O diagnóstico em setembro. Neuroblastoma em fase três. A primeira ronda de quimio em outubro. A segunda em janeiro. A terceira agora. O seguro que cobriu duas rondas e não a terceira. O segundo crédito habitação. Os turnos de fim de semana no café da esquina.

O marido que disse que já não aguentava mais e foi-se embora numa terça-feira de manhã de abril com um saco de desporto e um bilhete.

“Não sei porque vos estou a contar isto tudo”, disse ela. “Não vos conheço.”

“Está a contar-nos porque precisa de contar a alguém”, disse o Denny. “E nós somos as primeiras pessoas há muito tempo que não tinham sítio nenhum para ir.”

Ela chorou nos braços do Zé Grande durante talvez dez minutos. O Zé Grande costumava traficar droga pelo Alentejo nos anos oitenta. Tem um metro e noventa e cinco e uma tatuagem de uma lágrima debaixo do olho esquerdo. Ele segurou aquela mulher como se fosse sua irmã e não disse uma palavra.

NPagámos o pequeno-almoço deles e prometemos que, a partir daquele dia, a sua família seriam os Fantasmas de Ferro.

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