O Rugido na EscuridãoO barulho ensurdecedor prenunciou uma chegada que mudaria tudo para sempre.

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Aquela noite, o silêncio foi rasgado por motores.

Não eram carros da vila. Em São Romão os motores soam cansados, como se também tivessem fome. Aquilo foi diferente: um rugido limpo, uniforme, de camionetas novas, aproximando-se sem vergonha pelo caminho de terra.

Apaguei o candeeiro de repente.

Minha casa ficou na penumbra, apenas com o brilho avermelhado do lume. Lá fora, os cães começaram a ladrar como se vissem o diabo.

O homem —Ricardo do Monte, ou como quer que se chamasse de verdade— tentou levantar-se, mas gemeu. Tinha marcas nos pulsos e no pescoço como se o tivessem amarrado com força.

—Não se mexa —sussurrei—. Se o trouxeram ao rio, foi para que não voltasse a levantar-se.

Ele engoliu em seco, com os olhos cravados em mim.

—Se me encontram aqui… matam-na.

Não me surpreendeu. Aos meus setenta e seis anos, uma pessoa já não se assusta facilmente; uma pessoa cansa-se de ter medo.

—Então não te vão encontrar —disse—. Porque esta casa é pobre, mas sabe guardar segredos.

Na parede, atrás de um saco de milho, havia uma portinha de madeira que quase ninguém notava. O meu falecido marido construiu-a nos anos do pós-guerra, quando esconder pessoas era uma questão de vida ou de morte. Dava para um buraco sob o chão, um quarto frio onde antes guardávamos feijão e ferramentas… e onde, uma vez, se escondeu um rapaz perseguido por caciques.

Ricardo olhou para mim sem entender.

—O que é isso?

—A tua segunda oportunidade —respondi.

Arrastei-o como pude, cerrei os dentes, senti os joelhos a ranger, mas não o larguei. Meti-o no esconderijo e deixei-lhe um cobertor, água e uma vela pequena.

—Não faças barulho —ordenei—. Se entras em pânico, morres tu… e matas-me a mim.

Ele anuiu, com o rosto pálido.

Fechei a portinha. Voltei para o lume. Sentei-me como se nada fosse. Esperei.

Os motores pararam em frente à minha casa.

Bateram à porta.

—Abra! —gritou uma voz—. Guarda Nacional.

As minhas costas ficaram tensas. Em São Romão a Guarda Nacional não chegava assim, de noite, sem avisar. Quando vinham era por papéis, por uma discussão… não por urgência de caça.

Levantei-me devagar e abri apenas uma fresta.

Três homens lá fora. Não traziam o cheiro dos agentes da vila: tabaco, café, estrada. Trouxeram perfume caro e pressa. Um tinha colete, sim… mas novo, limpo, como comprado nesse mesmo dia.

—Boa noite, senhora —disse o do meio, forçando simpatia—. Procuramos um homem. Pode ser que tenha caído no rio. A senhora viu alguma coisa?

Agarrei-me à ombreira, curvada de propósito, dando-lhes a velha que esperavam ver.

—Eu? —tossi—. Eu nem os santos vejo, filho. Só vim buscar água e voltei.

O tipo sorriu-me como se sorri quando não se acredita em nada.

—Deixa-nos entrar?

Não. Se entrassem, revistassem, encontravam o espaço sob o chão. E aí acabava-se tudo.

—Entrar? Para quê? —disse—. Esta casa é de uma só peça. Se procuram comida, não há. Se procuram dinheiro… ainda menos.

Um dos homens, o mais jovem, olhou para a janela. Vi nos seus olhos o que era: não era polícia. Era caçador.

—Senhora, não nos faça perder tempo —disse, e a sua mão foi à cintura, onde se via a coronha de uma arma.

Eu respirei fundo. E então fiz algo que jamais pensei fazer à minha idade:

Soltei o grito mais forte da minha vida.

—SÃO ROMÃO! A MIM!

A minha voz ecoou pela rua como pedra em lata. Numa aldeia pequena, um grito assim não é drama: é alarme.

Os homens ficaram parados por um segundo.

—Cale-se, velha! —cuspiu o jovem.

Mas já era tarde.

Acenderam-se luzes nas casas vizinhas. Abriram-se portas. Ladrados. Passos. Vozes.

—O que aconteceu, Amélia?
—Quem está aí?
—Têm pistola!

O do meio praguejou baixinho. Notou-se que não esperavam testemunhas.

—Vamo-nos embora —rosnou.

—Não, revista —disse o jovem, teimoso.

E o terceiro, silencioso, virou a cara… e aí reconheci-o finalmente.

Não pelo nome, mas pela sua maldade.

Era Fábio Aguiar, o filho do “senhor” Aguiar, dono de metade da região, aquele que sempre tinha o presidente da câmara de joelhos. Tinha-o visto de longe nas festas do município, com fato, copo e sorriso de tubarão.

—Amélia —disse ele, como se fôssemos conhecidos—. Não grite. Ninguém quer problemas.

Mantive o seu olhar.

—Os problemas não chegam quando se grita, Fábio. Chegam quando se cala.

Os vizinhos já se amontoavam a uns metros, com paus, lanternas, pedras na mão. Ninguém era corajoso sozinho… mas todos juntos, a coisa mudava.

Fábio estalou a língua e recuou.

—Isto não fica assim —murmurou.

Subiram para as camionetas e foram-se embora levantando poeira.

Mas eu sabia uma coisa: iam regressar. Com mais gente. Com mais armas. Com menos paciência.

Entrei em casa, fechei com tranca e fui ao esconderijo.

Ricardo estava pálido, a ouvir tudo de baixo.

—Quem eram? —sussurrou.

—Os que mandam sem uniforme —disse—. E agora já sabem que estou a atrapalhar.

Ricardo apertou a mandíbula. Notava-se que a vergonha o roía.

—Não devia tê-la arrastado para isto.

—Não me arrastaste —cortei—. Eu própria me meti no rio.

Ele ficou calado uns segundos.

—Amélia… eu não sou um santo. —Respirou fundo—. Ricardo do Monte está desaparecido porque o meu próprio sócio me vendeu. E porque eu… eu descobri algo que não devia.

—O quê?

Ele tirou algo da sua calça molhada: uma pen USB, embrulhada em plástico e fita, como se a tivesse protegido com o corpo.

—Isto. —A sua voz quebrou—. Provas de uma fraude de dez mil milhões. Não só em Portugal… também aqui. Com a água. Com a terra. Com a sua aldeia.

Senti um frio pior que o do rio.

—Como assim com a minha aldeia?

Ricardo engoliu em seco.

—O projeto da “nova barragem”. Aquele que o presidente da câmara ostenta. Aquele que dizem que vai trazer trabalho. É mentira. É branqueamento. Vão inflacionar contratos, desviar dinheiro e depois… vão secar este rio para ficar com a concessão. O seu povo vai ficar sem água e com dívidas.

Fiquei sem ar. Lembrei-me de reuniões na praça, promessas, fotos, bandeiras, discursos:

“São Romão vai crescer.”

E eu, tola, a pensar que crescer era ter um multibanco.

—E tu porque é que sabes?

Ricardo olhou-me diretamente.

—Porque eu financiei o início sem saber. Fui o “nome elegante” de que precisavam para o tornar legal. Quando me apercebi… quis sair e denunciar. Amarraram-me e atiraram-me ao rio.

Olhei para a vela a tremer no esconderijoE eu, que tinha passado a vida a ensinar aos meus netos que a coragem não é a ausência de medo, mas a decisão de agir apesar dele, entendi que a minha maior lição estava apenas a começar.

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