O chão de mármore do Grand Belmont estava gélido. Cláudia bem sabia, pois estava de joelhos tentando recolher freneticamente as roupas de maternidade que se espalharam pelo saguão, depois que Ricardo atirou sua mala ao chão com toda a força. Seu marido permanecia em pé diante dela, com o terno impecável, a mandíbula cerrada e um olhar completamente vazio.
— Você é patética, Cláudia — ele esbravejou com desprezo —. Recolha sua bagunça e suma.
Cláudia estava com trinta e duas semanas de gravidez. Seus tornozelos estavam inchados. Costas doendo a cada movimento. E o bebê se mexia freneticamente dentro dela, como se sentisse o medo que percorria o corpo da mãe.
Essa viagem deveria ser a sua “lua de mel de maternidade”. A última chance de salvar um casamento que vinha se deteriorando lentamente nos últimos meses. Mas tudo havia explodido minutos antes.
Cláudia havia visto uma mensagem no telefone de Ricardo.
“Não vejo a hora de sua esposa sair de cena. Te espero hoje à noite no apartamento. — Joana.”
Quando a confrontou, Ricardo não se deu ao trabalho de negar. Apenas perdeu a cabeça. Arrancou a mala de suas mãos e a jogou diante de todo o saguão.
Agora, ele tentava descartá-la como se fosse lixo.
— Ricardo… por favor… — suplicou ela entre lágrimas —. Estou grávida. Não tenho dinheiro. Você cancelou meus cartões…
— Cancelou você — respondeu ele, arrumando os punhos da camisa.
Foi então que surgiu Marcos, o gerente do hotel. Cabelos perfeitamente penteados. Roupas perfeitamente ajustadas. Perfeitamente disposto a proteger o homem rico.
— Algum problema, senhor Ricardo? — perguntou, ignorando completamente Cláudia.
Ricardo deslizou um cartão preto sobre o balcão.
— Sim. Esta mulher já está de saída. O apartamento está apenas em meu nome. Ela não é bem-vinda aqui.
Cláudia tentou se levantar, apoiando-se em uma carrinho de bagagens.
— Eu sou a esposa dele! Estou grávida! Só preciso sentar um minuto…
Marcos avaliou rapidamente o vestido simples de Cláudia e, em seguida, o cartão luxuoso de Ricardo. A decisão foi instantânea.
— Senhora, você precisa deixar o saguão imediatamente. Não toleramos escândalos no Grand Belmont.
— Ele jogou minha mala! — soluçou Cláudia, apertando nervosamente a velha pulseira de prata que usava desde bebê.
— A segurança a acompanhará para fora se continuar incomodando nossos hóspedes VIP.
Cláudia sentiu o mundo desabar. Não tinha família. Não tinha dinheiro. Não tinha pra onde ir. Era novamente a órfã que ninguém queria.
Então…
Ding.
As portas douradas do elevador privado se abriram lentamente.
E o ambiente todo mudou.
Uma mulher elegante de cerca de sessenta anos saiu do elevador com um tailleur cinza impecável e uma presença tão poderosa que até o murmúrio do saguão desapareceu.
Marcos ficou pálido imediatamente.
— D-dona Eleonora…
Eleonora Crawford. A bilionária proprietária do Grand Belmont e de dezenas de propriedades luxuosas por todo o país. Uma mulher famosa por destruir empresas inteiras sem sequer piscar.
Mas Eleonora não olhou para Marcos. Nem para Ricardo.
Seus olhos estavam fixos apenas em Cláudia.
Ou melhor… na pulseira de prata em seu pulso.
Cláudia tentou escondê-la, envergonhada. Era velha. Pesada. Feia em comparação com as joias das outras mulheres presentes.
Mas Eleonora caminhou diretamente em sua direção.
Ignorou os hóspedes. Ignorou Marcos. Ignorou completamente Ricardo.
E então fez algo que deixou todos no saguão em choque.
A bilionária se ajoelhou diante de Cláudia no chão de mármore.
Um silêncio absoluto caiu sobre o local.
As mãos de Eleonora tremiam violentamente enquanto segurava o pulso de Cláudia.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou com a voz embargada.
Cláudia engoliu em seco.
— Sempre estive com ela… estava comigo quando me encontraram, bebê.
Eleonora começou a respirar descontroladamente. Seus olhos azuis se encheram de lágrimas.
Ricardo franziu a testa, irritado.
— Dona Eleonora, lamento essa cena — interveio rapidamente —. Minha esposa está emocionalmente instável…
Eleonora nem se virou para olhar para ele.
Seu polegar percorreu lentamente o fecho desgastado da pulseira.
Então murmurou algo que congelou o coração de Cláudia.
— A verdadeira mensagem nunca foi gravada por fora…
Antes que Cláudia pudesse reagir, Eleonora pressionou uma pequena abertura escondida sob o fecho.
Click.
A pulseira se abriu.
Dentro havia um compartimento oculto.
E gravadas de forma impecável na prata, estavam três letras:
E.W.C.
Eleonora rompeu em lágrimas.
— Evangeline Waverly Crawford… minha Evie…
Todo o saguão ficou paralisado.
Cláudia sentiu como se o chão desaparecesse sob seus pés.
— O que… significa isso? — sussurrou.
Eleonora levantou o olhar cheio de lágrimas.
— Minha filha desapareceu quando tinha três meses.
Um murmúrio percorreu o saguão.
— Mandou fazer esta pulseira em Paris — continuou Eleonora, tremendo —. Era única. Ninguém mais no mundo tinha uma igual.
Cláudia começou a se sentir tonta.
— Não… não pode ser…
Mas Eleonora já chorava abertamente.
— Eu te procurei durante trinta e dois anos.
Ricardo finalmente reagiu.
— Isso é ridículo — soltou nervoso —. Alguma coincidência sentimental absurda…
Então cometeu o pior erro de sua vida.
Segurou violentamente o braço de Cláudia.
— Vamos. Agora.
Cláudia gemeu de dor.
E Eleonora mudou completamente.
A mãe vulnerável desapareceu.
No lugar, ficou a mulher mais perigosa de São Paulo.
Eleonora se levantou lentamente.
A temperatura do saguão pareceu despencar dez graus.
— Tire as mãos da minha filha — ordenou com uma voz tão fria que fez Ricardo recuar.
Ele soltou uma risada arrogante.
— Cláudia é minha esposa.
— Não por muito tempo.
Ricardo tentou arrastar Cláudia em direção à saída. Ela gritou de dor, segurando a barriga.
E em um segundo, Eleonora golpeou a mão de Ricardo com tanta força que o som ecoou pelo saguão.
— Segurança! — rugiu.
Quatro homens enormes apareceram imediatamente, cercando Ricardo.
— Você sabe quem eu sou? — gritou ele furioso —. Gasto milhões em seus hotéis!
Eleonora olhou para ele como se fosse lixo.
— Nome?
— Ricardo Sterling. CEO da Desenvolvimento Urbano Sterling.
Eleonora soltou uma risada seca.
— Desenvolvimento Urbano Sterling…
Em seguida, olhou para um de seus homens.
— David. Ligue para a contabilidade. Quero que todas as contas e associações ligadas ao Desenvolvimento Urbano Sterling sejam congeladas imediatamente.
O rosto de Ricardo perdeu toda a cor.
— O quê?
— Também cancele cada linha de crédito relacionada a ele.
— Você não pode fazer isso!
— Posso fazer qualquer coisa — respondeu Eleonora, com uma frieza na voz que deixaria qualquer um gelado —. Você arrastou minha filha grávida por este saguão. Sua vida terminou hoje.
Ricardo começou a hiperventilar. Pela primeira vez, parecia aterrorizado.
— Por favor… podemos conversar sobre isso…
— Tire-o do meu edifício.
Dois seguranças o agarraram violentamente.
— Cláudia! — gritou desesperado —. Diga a eles para pararem! Sou seu marido!
Cláudia o observou em silêncio.
E finalmente entendeu algo.
Ricardo nunca a amou. Ele só amava ter poder sobre alguém vulnerável.
— Você me cancelou primeiro, Ricardo — disse ela, com firmeza na voz.
Os seguranças o arrastaram para fora, enquanto ele gritava em desespero. Sua mala acabou arremessada em um beco.
E o saguão ficou completamente em silêncio.
Então a dor atingiu Cláudia.
Uma contração brutal atravessou seu abdômen.
As pernas falharam.
Eleonora a segurou antes que ela caísse.
— Chame o médico! Agora! — gritou, aterrorizada.
Minutos depois, Cláudia estava no apartamento privado de Eleonora enquanto uma equipe médica examinava o bebê.
O som forte e estável do coração da criança encheu a sala.
Cláudia rompeu em lágrimas de alívio.
— Está tudo bem — sorriu o médico —. Foram só contrações por estresse.
Eleonora se desabou em lágrimas ao lado da maca.
— Graças a Deus…
Quando finalmente ficaram sozinhas, Eleonora segurou as mãos de Cláudia.
— Nunca parei de te procurar.
Cláudia a observou, tremendo.
— Cresci achando que ninguém me queria.
Eleonora se quebrou completamente.
— Você era a pessoa mais amada do mundo.
Pela primeira vez em sua vida… Cláudia foi abraçada por uma mãe.
Mas o pesadelo ainda não havia terminado.
Naquela mesma noite, Ricardo ligou, desesperado, exigindo que Cláudia resolvesse “o desastre”.
Ele não sabia que Eleonora já havia descoberto algo muito pior.
Ricardo e sua amante Joana haviam roubado milhões da empresa Crawford.
E Eleonora não teve piedade.
Na manhã seguinte, as contas de Ricardo foram congeladas. Seus investidores fugiram. Sua empresa desabou. O FBI abriu uma investigação federal. Joana desapareceu, chorando, diante da imprensa. E Cláudia assinou o divórcio sem derramar uma única lágrima.
Mas então descobriram a verdade mais aterradora de todas.
Ricardo não conheceu Cláudia por acaso.
Ele havia sido enviado.
A organização criminosa que sequestrou Evangeline trinta e dois anos atrás a manteve sob vigilância durante toda a vida.
E Ricardo era parte do plano.
Naquela noite, homens armados invadiram o apartamento.
O luxo se transformou em uma zona de guerra.
Disparos. Explosões. Vidros estilhaçados. Eleonora protegendo sua filha grávida com seu próprio corpo.
Os homens vinham atrás de Evie.
Queriam recuperá-la.
Mas não contavam com algo.
Eleonora Crawford já havia perdido uma filha uma vez.
E estava disposta a matar para não perdê-la novamente.
A batalha terminou com vários atacantes mortos e a polícia cercando o prédio.
Mas no meio do caos…
Cláudia caiu no chão, gritando.
Seu líquido amniótico acabava de romper.
O bebê estava a caminho.
E assim, cercada de sangue, estilhaços de vidro e luzes policiais… Evangeline Crawford deu à luz seu filho.
— É perfeito… — chorou Eleonora, segurando o bebê.
Cláudia abraçou seu pequeno contra o peito.
— Leo Waverly Crawford — sussurrou.
Não Sterling.
Esse sobrenome morreu naquela noite.
Dezoito meses depois…
Evangeline Crawford dirigia o império empresarial de sua mãe. Forte. Intocável. Poderosa.
Ricardo, por outro lado, estava destruído. Grisalho. Arruinado. Vestindo um uniforme laranja diante de um tribunal federal.
Oitenta e cinco anos de prisão. Sem possibilidade de liberdade condicional.
Quando os guardas o levaram, Ricardo gritou desesperado:
— Cláudia! Por favor!
E pela última vez… Evangeline levantou lentamente o pulso onde brilhava a velha pulseira de prata com as letras E.W.C.
Depois, olhou para ele com absoluta indiferença.
— Cláudia morreu no dia em que você tentou jogá-la para a rua — disse com calma —. Eu sou Evangeline.