Inspiro fundo, um ar trémulo que sacode o peito quando sabemos que vamos entrar num campo de batalha sem armadura. Rodo a maçaneta de latão e entro.
A atmosfera da casa é sufocantemente perfeita, um museu esterilizado de uma família que só existe nas fotografias. A minha mãe, Catarina, põe a mesa da sala de jantar com a “louça boa” — a porcelana delicada, quase translúcida, de borda dourada que nunca me deixaram tocar em criança. O meu pai, Roberto, está entrincheirado na poltrona de couro gasta, e o rugidodo Benfica contra o Porto preenche o silêncio pesado e sufocante que nos separa.