Um motociclista do tamanho de um frigorífico estava parado à minha porta às sete e catorze da manhã.
Não abri a porta de rede. Fiquei a observá-lo através da rede. Barba grisalha longa, tatuagens a subir-lhe pelo pescoço, colete de couro com insígnias que não reconheci.
As mãos eram do tamanho de pratos de jantar e estavam cruzadas à frente, como se estivesse num funeral.
“Minha senhora”, disse. A voz mais grave do que o camião do lixo duas ruas acima. “É a mãe do Tomás?”
O meu estômago contraiu-se. Ninguém naquela vila sabia o nome do meu filho. Tínhamos mudado para ali há quatro meses, depois do funeral. Os vizinhos nem nos conheciam ainda.
“Quem é o senhor?”, perguntei.
Ele enfiou a mão no bolso interior do colete. Devagar. Como se soubesse que eu estava prestes a bater-lhe a porta na cara.
Tirou de lá uma folha amarela dobrada de um caderno. As pontas estavam gastas de ter sido aberta e fechada centenas de vezes.
“Acho que isto lhe pertence”, disse. “Acho que precisa de o ler antes de me mandar embora.”
Entreei a porta de rede e peguei no papel que ele me estendia. As minhas mãos tremiam tanto que quase o deixei cair.
Desdobrei-o no parapeito da varanda. Era a letra do meu filho de nove anos. A lápis. Letras tortas. O tipo de caligrafia de um miúdo que se esforça muito mas que não tem jeito natural para aquilo.
No topo da página, em grandes e cuidadosas maiúsculas, estava escrito: PARA DEUS NO CÉU.
Senti a garganta a fechar-se.
Li a primeira linha. “Querido Deus. Sei que o meu pai está aí em cima contigo e não o quero chatear muito.”
Tive que me agarrar ao parapeito para me manter de pé.
Li a linha seguinte. “Mas preciso que me envies um motociclista. Não me importa que tipo. Por favor. A mãe ainda não sabe do Gregório. Não posso contar-lhe porque o Gregório disse que, se eu disser, ele lhe fará o mesmo que fez ao Buster. Disse que é fácil e que ninguém saberá.”
Baixei a carta.
O motociclista na minha varanda não se mexera. Continuava ali parado, com as mãos cruzadas, a olhar para as tábuas do chão.
“O Buster era o nosso cão”, disse eu.
“Eu sei”, respondeu ele.
“Morreu há dois meses. Afogou-se no riacho por trás da casa.”
O motociclista ergueu os olhos e olhou para mim. Não disse nada. Não precisava.
Senti a varanda a inclinar-se.
“Sente-se”, pediu. “Por favor. Vou aproximar-me e sentar-me consigo. Não lhe vou tocar. Mas precisa de se sentar antes de cair.”
Sentei-me no degrau superior. Ele subiu o caminho lentamente. Sentou-se a mais de um metro de distância, no mesmo degrau. A madeira rangeu sob o seu peso.
Li o resto da carta.
“O Gregório anda a bater-me há muito tempo, Deus. Não onde se veja. Ele aprendeu com a ex-mulher. Disse-me que ela era chata como eu. Escrevo isto para pedir um motociclista porque o meu pai era motociclista e ele saberia o que fazer se cá estivesse. Sei que o tens aí em cima. Sei que ele anda ocupado. Mas talvez algum dos seus amigos pudesse descer cá. Por favor. Estou sempre com medo. Não é por mim. É pela mãe. O Gregório disse que se eu disser, ele lhe fará o mesmo que fez ao Buster. Disse que os cães são fáceis e as pessoas também. Por favor envia um motociclista. Qualquer motociclista. Eu saberei quando ele chegar. Com amor, Tomás. PS, desculpa não ir muito à igreja. Acho que és real à mesma.”
Deixei cair a carta na varanda.
Acho que fiz um ruído. Não me lembro.
O motociclista esticou o braço, apanhou a carta, voltou a dobrá-la em quatro e pô-la na minha mão.
“Chamo-me Tanque”, disse. “Andei com o Edgar durante vinte e dois anos. Ele era meu irmão. Não de sangue. Do outro tipo.”
Olhei para ele. O sol da manhã batia-lhe no rosto. Tinha uma cicatriz que ia da orelha até à barba.
“Conhecia o meu marido?”
“Estive no vosso casamento”, disse. “Estou na foto que tens na lareira. Atrás do homem com o fato desajustado.”
Comecei a chorar. Não alto. Apenas lágrimas a correr.
“Como é que recebeu a carta?”, perguntei.
Ele respirou fundo.
“Na terça-feira de manhã, por volta das cinco, um dos meus irmãos encontrou-a enfiada por baixo da porta do nosso clube. O Tomás foi lá a pé. Sozinho. No escuro. Depois reconstituímos o percurso. São quase seis quilómetros e meio.”
“Seis quilómetros e meio”, repeti. O número não parecia real.
“Ele deve ter-se lembrado da morada. O Edgar costumava levá-lo lá quando era bebé. Tínhamos um cantinho com brinquedos. O Tomás costumava adormecer num sofá de couro que tínhamos lá atrás. O Edgar chamava-lhe o sofá do novato.”
Estava a chorar com mais força. Não conseguia parar.
“Ele tem nove anos”, disse. “Andou seis quilómetros e meio no escuro.”
“Andou”, disse o Tanque. “E escreveu a carta a Deus mais educada que alguma vez li na minha vida.”
Ficámos sentados na varanda por um minuto. Passou um carro. Ninguém nos olhou.
“Porque é que demorou quatro dias a vir?”, perguntei.
“Porque tive de ter a certeza”, respondeu. “Tive de descobrir quem era o Gregório. Tive de ter a certeza de que não ia bater a uma porta e estragar um casamento que não precisava de ser estragado. Por isso fiz uns telefonemas. Perguntei a algumas pessoas. E à Dona Cristina.”
“Dona Cristina?”, perguntei. “A minha antiga vizinha?”
“Ela ainda lhe telefona. Disse-me que deixou de atender. Disse-me que o Tomás deixou de sair. Disse-me que viu hematomas nos braços dele quando estava a entrar no seu carro no mês passado. Achou estranho. Ia ligar. Não sabia a quem.”
Encostei o rosto às mãos.
“Não reparei”, disse.
“Ele tem nove anos”, disse o Tanque. “Ele escondeu. Estava a protegê-la. Era isso que o seu filho estava a fazer.”
“Onde é que ele está agora?”, perguntei. Ergui a cabeça. “O Tomás. Está na escola. O Gregório deixou-o. O Gregório disse que queria criar laços. Eu deixei.”
Ergui-me para me levantar.
“Sente-se”, disse o Tanque. “Ele está seguro na escola. O Gregório está no trabalho até às cinco. Temos tempo. Precisamos de fazer isto direito senão pioramos a situação.”
“O que quer dizer com piorar?”
“Quero dizer que se formos buscar o Tomás agora e a senhora confrontar o Gregório nesta casa, ele desaparece. Ou magoa alguém. Precisamos de a levar consigo e ao seu filho para um lugar seguro antes que o Gregório saiba que alguma coisa mudou.”
“Onde?”
“A minha mulher é assistente social reformada. Costumava dirigir o abrigo na Avenida do Vale. Temos um quarto de hóspedes. A senhora e o Tomás ficam connosco até decidirmos o próximo passo. O próximo passo é a polícia. Depois o advogado. Depois um sítio novo para viver. Temos um irmão que gere apartamentos no centro. Podemos tê-los instalados numa casa para a próxima semana.”
Ele disse tudo isto com calma. Como se já o tivesseO dia em que o motociclista apareceu à minha porta, a nossa vida antiga ficou para trás e, sob o olhar quieto daquele homem chamado Tanque, uma nova e mais corajosa começou.