A Moto Vendida, Um Amor PreservadoCompreendi. Eis a continuação da história em português, com uma única frase e um ponto final:

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Para perceberes o que vender aquela Harley significava, tens de compreender o que vinte e sete anos numa única moto fazem a um homem.

Comprei a Heritage Softail a 12 de julho de 1996. Tinha trinta e cinco anos. Naquela altura, já conduzia camiões frigoríficos de longo curso há nove anos. Tinha uma filha de quatro anos chamada Beatriz. A Isabel estava grávida da nossa segunda filha, a Inês. Vivíamos numa pequena casa alugada na Rua de Santa Catarina, em Braga.

Eu queria ter uma Harley desde os dezanove. A Isabel tinha-me dito no ano anterior: “Henrique. Se juntares o dinheiro, compra a mota. A vida é curta. Não esperes até aos sessenta.”

Juntei dinheiro durante catorze meses.

Comprei-a a dinheiro na loja em Lisboa numa sexta-feira à tarde. Conduzi-a até casa sob chuva. A Isabel esperou-me à porta da casa alugada. Estava de oito meses. Saiu para o estacionamento debaixo de chuva. Colocou as duas mãos no depósito. Disse: “Henrique. Esta é tua. Mereceste-a. Não deixes que alguém a tire de ti.”

Beijou-me no estacionamento molhado enquanto a nossa filha de quatro anos observava da varanda.

Foi naquela mota que aprendi a andar com a minha mulher na garupa. Foi naquela mota que fui ao hospital no dia em que a Inês nasceu – três dias depois, depois de ter andado de um lado para o outro na maternidade a noite toda. Foi a mota que me levou a todas as corridas de Guimarães entre 1998 e 2019. Foi a mota que conduzi até ao funeral do meu pai no Porto em 2009 – mil e trezentos quilómetros, sozinho, em dois dias, porque precisava do tempo na estrada para perceber o que ia dizer na minha homenagem. Foi a mota que conduzi ao lado de três caixões de três irmãos diferentes em três funerais diferentes entre 1999 e 2022.

Foi a mota que conduzi todos os domingos de manhã, sempre que o tempo permitiu, durante vinte e sete anos.

Era também a única coisa que eu possuía, neste mundo, que valia mais de doze mil euros em dinheiro e que eu poderia transformar rapidamente em pagamentos para as contas do hospital.

A casa tinha uma hipoteca que eu não ia conseguir renegociar aos sessenta e três.

O camião valia seis mil e nós precisávamos dele.

O fundo de pensões estava fora de questão.

A Heritage era a resposta.

Tomei a decisão no final de setembro. Não contei a ninguém. Nem à Isabel. Nem aos irmãos. Nem às minhas filhas.

Conduzi-a até um comprador privado em Famalicão numa quarta-feira à tarde, enquanto a Isabel estava na quimioterapia com a nossa filha mais velha, a Beatriz. O comprador era um homem de quarenta e um anos chamado Carlos Mourão que trabalhava numa concessionária Volvo e procurava comprar a sua primeira Harley.

Pedi catorze mil. Ele contrapropôs com doze mil e quinhentos. Fechámos em treze mil.

Pagou em dinheiro.

Conduzi a Heritage até à garagem dele. Entreguei-lhe o documento de propriedade. Entreguei-lhe as chaves. Dei uma palmadinha no depósito.

Não me despedi em voz alta.

Chamei um Uber para me levar para casa.

Depositei o dinheiro na nossa conta à ordem numa agência do Montepio na Avenida Central na manhã seguinte.

Paguei diretamente ao centro de quimioterapia. Paguei diretamente ao Hospital de Braga. Paguei diretamente ao especialista.

As contas foram pagas.

A Isabel perguntou-me naquela quarta-feira à noite, quando cheguei a casa: “Henrique. Onde está a mota?”

Eu disse: “Na oficina. O carburador não está bom. Vai demorar umas semanas.”

Ela disse: “Está bem, querido.”

Ela não perguntou novamente durante dez meses.

Quero ser honesto acerca de uma coisa.

Menti à minha mulher de trinta e quatro anos durante dez meses.

Cada vez que ela perguntava: “Já há novidades da oficina?” – e ela perguntava talvez uma vez a cada seis semanas – eu dizia: “Estão com muito trabalho. Vou lá na semana que vem.”

Cada vez que ela dizia: “Devias andar de mota este fim de semana, Henrique. O tempo está lindo,” eu dizia: “Assim que a mota voltar, vou.”

Cada vez que os irmãos me mandavam mensagem a perguntar se eu ia aparecer no passeio de domingo, eu dizia que tinha um projeto para acabar na garagem.

Durante dez meses, menti à minha mulher e ignorei os meus irmãos.

Porque a verdade era esta: se eu dissesse à Isabel que tinha vendido a Heritage para pagar as suas contas do cancro, ela teria parado a quimioterapia.

Eu sabia isso dela.

Conheço-a há trinta e quatro anos.

Ela teria parado o tratamento antes de me deixar vender aquela mota.

Eu não estava disposto a apostar a vida dela na sua teimosia.

Por isso, menti.

E voltaria a fazê-lo.

A Isabel terminou o seu último ciclo de quimio a 14 de março de 2024.

Terminou a radioterapia a 22 de junho.

A sua tomografia de acompanhamento de três meses, a 19 de julho, voltou limpa.

Sem evidência de doença.

Sentámo-nos no consultório do Dr. Silva numa quarta-feira às 11:30 da manhã e ambos finalmente chorámos na frente de um médico pela primeira vez. A Isabel chorou de alegria. Eu chorei de alegria e de onze meses de dor contida – nenhum dos quais a Isabel conseguiu ver, porque não a deixei vê-lo. Guardei tudo para dentro enquanto conduzíamos para casa.

Naquela noite, sentei-me sozinho na varanda traseira depois de ela se ter deitado.

Chorei pela primeira vez sobre a Harley.

Tinha-a carregado no peito durante dez meses e não a tinha largado.

A Isabel encontrou-me na varanda às 23:30.

Ela saiu no seu roupão. Sentou-se ao meu lado.

Disse: “Henrique. O que se passa.”

Eu disse: “Nada, querida. Estou apenas feliz.”

Ela disse: “Henrique. Diz-me o que é.”

Eu disse: “Não é nada. Vai para a cama.”

Ela não insistiu.

Beijou-me a face.

Entrou.

Eu sentei-me na varanda por mais duas horas.

Não lhe contei sobre a mota.

Não sabia como.

O que eu não sabia – o que só viria a descobrir a 11 de agosto – era que o meu capitão de estrada nos Falcões do Norte, um homem de sessenta e dois anos chamado Rui “Padre” Almeida, tinha descoberto o que eu tinha feito em outubro de 2023.

Ele tinha descoberto porque se tinha cruzado com o Carlos Mourão – o comprador – num posto de combustível em Famalicão em novembro de 2023. O Carlos estava na minha Heritage. O Padre reconhecera a mota pelas pequenas iniciais “H.S.” que eu tinha gravado no interior da mala do lado esquerdo em 1997. Ele parou o Carlos. Perguntou-lhe onde tinha arranjado a mota.

O Carlos contou-lhe.

O Padre juntou as peças a partir daí.

O Padre, nas suas exatas palavras mais tarde, disse-me: “Henrique. Ficaste na sombra com os irmãos em outubro. Eu sabia que algo se passava. Quando vi a tua mota debaixo de outro homem, soube exatamente o que era.”

Ele não me tinha contado.

Ele não me tinha perguntado.

Ele tinha ido ter com os irmãos.

Ele tinha contado aos irmãos.

Os irmãos tinham votado em algo na reunião seguinte do clube.

O voto tinha sido unânime.

Durante dez meses, vinte e três membros oficiais dos Falcões do Norte MC contribuíram silenciosamente para um fundo.

Um pequeno fundo. Duzentos euros por mês de cada irmão.

Alguns irmãos deram mais. O presidente – um eletricde torneiro reformado chamado José Martins – pôs três mil euros num mês e recusou-se a dizer qual.

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