Pai, a Fome Nos Consome e o Sono Não Tem Fim

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«Olá.»

«Pai.»

«Afonso, o que aconteceu? Porque é que me estás a ligar de outro número?»

«Pai, a Leonor não acorda.»

«O quê? Onde estás? Onde está a tua mãe?»

«Ela não está cá. Não está desde sexta-feira. Estou com fome. Não há mais nada para comer.»

«Como assim não está cá? Tens estado sozinho?»

«Sim. Já não sei o que fazer.»

Afonso ficou em silêncio por um segundo, depois levantou-se de um salto, atirou a cadeira para o lado, agarrou as chaves da secretária e saiu a correr sem dizer uma palavra a ninguém. Desceu de elevador enquanto telefonava à Leonor. O telemóvel dela estava desligado. Mais uma vez. Três vezes seguidas. Nada.

Entrou no carro, ligou o motor e discou novamente. Caixa postal.

— Raios!

Afonso conduziu directamente para casa da Letícia. Demorou menos de meia hora. Estacionou de qualquer maneira, saltou do carro e bateu na porta com toda a força.
«Afonso, sou o teu pai! Abre!»

Nada. Empurrou a porta. Não estava trancada. Entrou. A casa estava em silêncio absoluto. Na sala, encontrou Afonso sentado no chão a abraçar uma almofada. O rosto estava sujo, os olhos inchados e o estômago parecia colado às costas.
«Pai, já achava que não vinhas.»
«Onde está a Leonor?»

Afonso apontou para a poltrona. Leonor estava deitada lá, imóvel, o rosto pálido e os lábios secos. Afonso aproximou-se e tocou-lhe. Estava a arder em febre, não reagia. Agarrou-a rapidamente.
«Vamos depressa. Não digas nada, vem apenas.»
«Ela está a dormir, pai?»
«Não. Mas vai ficar bem. Vamos já!»

Afonso saiu com Leonor nos braços, e Afonso seguiu atrás dele. Entraram no carro, ligou os quatro piscas e acelerou a fundo. A conduzir, ligou novamente à Letícia. Caixa postal.

Afonso, do banco de trás, perguntou,
«A minha mãe está zangada?»
Afonso apertou o volante.
«Não, filho. A tua mãe não está bem. Mas eu vou tomar conta de vocês, prometo.»

«Como está a menina?» perguntou uma enfermeira mal Afonso entrou a correr na urgência com Leonor nos braços.
«Quantos anos tem?» perguntou, aproximando-se rapidamente com uma maca.
«Três anos. Não comeu decentemente há pelo menos dois dias. Tem febre. Estava inconsciente quando cheguei.»
«Vamos estabilizá-la. Por favor, fique aqui.»

Um médico pegou em Leonor e colocou-a na maca. Afonso agarrou-se à perna do pai, sem dizer uma palavra. Afonso ajoelhou-se e abraçou-o.
«Vão tratar dela. Ela vai ficar bem.»
«Ela não vai morrer, pois não?»
«Não, filho. Prometo-te.»

Enquanto Leonor era levada para a pediatria, Afonso dirigiu-se à recepção. Deu os nomes dos filhos, explicou o pouco que sabia e pediu para falar com a assistente social.

Em menos de meia hora, duas pessoas já lhe perguntavam por que é que as crianças tinham ficado sozinhas.
«Elas deviam estar com a mãe. Ela disse-me que iam passar o fim-de-semana num sítio sem rede, e que eu não a devia incomodar. O meu filho ligou-me hoje. Disse que a menina não acordava e que não comiam há dias. É tudo o que sei.»
«E onde está a mãe deles agora?»
«Não faço ideia. O telemóvel dela está desligado desde sexta-feira.»

Uma das assistentes sociais começou a tirar notas.
«Têm a custódia partilhada?»
«Sim, está no acordo legal. Alternamos as semanas. Esta semana era a vez dela.»
«Vamos ter de fazer uma participação por abandono, Sr. Mendes.»
«Faça o que tiver de fazer. Só quero saber como está a minha filha.»

O médico voltou pouco depois.
«A menina está estabilizada. Tem uma ligeira infecção intestinal por desidratação e por não ter comido. Vamos mantê-la em observação. A sorte é que chegou a tempo; mais um dia e a história teria sido muito diferente.»

Afonso soltou o ar que inconscientemente estava a reter. Afonso apertou-lhe a mão.
«Posso vê-la?»
«Daqui a pouco. Ela está a dormir agora, mas está bem.»
«Sim.» Afonso acenou com a cabeça. «E a minha mãe?»

Afonso não soube o que responder. Inclinou-se e pôs a mão no ombro do rapaz.
«Ainda não sei, mas vamos descobrir.»

Duas horas depois, uma enfermeira aproximou-se de Afonso.
«Sr. Mendes, acabámos de receber um comunicado da PSP. A sua ex-companheira foi admitida no hospital geral no sábado de manhã, depois de um acidente de carro. Estava com um homem que fugiu do local. Foi admitida como desconhecida porque não tinha documentos, mas já a identificaram.»
«Ela está viva?»
«Sim. Estável, mas está sedada. Tem fracturas e um traumatismo craniano. Está a recuperar.»

Afonso fechou os olhos por um momento. Teve vontade de gritar, de partir qualquer coisa, mas Afonso estava ali ao seu lado.
«Posso vê-la?»
«Vai ter de esperar que ela acorde. Ainda não pode falar.»

Afonso levantou-se, pegou no telemóvel e ligou ao seu advogado.
«Miguel, preciso de avançar com o processo da custódia. É urgente. Não posso deixar que isto aconteça outra vez.»
«Manda-me a informação, e amanhã tratamos logo disso.»

Afonso desligou e olhou para o filho.
«Vamos ficar aqui, está bem? Mesmo ao pé da tua irmã.»
«Posso ficar contigo para sempre?»
Afonso encarou-o.
«A partir de hoje, não te largo.»

Afonso passou a noite inteira sentado numa cadeira ao lado da cama do hospital onde Leonor dormia, ligada a um soro. Afonso, já de sono pesado, tinha adormecido numa poltrona com um cobertor que uma enfermeira lhe tinha emprestado. Lá fora, o dia começava a nascer quando a assistente social espreitou novamente.

«Sr. Mendes, precisamos de lhe fazer mais algumas perguntas. É parte do protocolo.»
Afonso acenou sem se levantar.
«Claro, pergunte o que for preciso.»
«É a primeira vez que as crianças ficam sozinhas com a mãe?»
«Que eu saiba, sim. Mas o meu filho disse-me que ela já as tinha deixado sozinhas antes, embora por períodos mais curtos.»
«E tentou contactá-la durante o fim-de-semana?»
«Não. Ela pediu-me para não ligar. Disse que ia para uma quinta onde não havia rede, com uns amigos. Segundo ela, queria desligar.»
«Disse-lhe com quem ia?»
«Não, disse apenas ‘com amigos’.»
«O Hospital Geral comunicou-nos que a Sra. Silva foi admitida com ferimentos graves e um traumatismo craniano. Estava com um homem que fugiu. Conhece-o?»
«Não faço ideia de quem seja, mas imagino que seja o namorado. Esse tipo desde a primeira vez que o vi me pareceu pouco sério.»
— Percebemos. Vamos fazer uma participação com tudo isto. Por agora, ficará como único tutor temporário dos menores. A participação será enviada ao tribunal.

Afonso limitou-se a anuir. Não queria perder tempo com burocracias, mas sabia que tinha de o fazer pelos filhos. Pouco depois, uma enfermeira aproximou-se.
«Senhor, a bebé acordou. Quer entrar?»

Os olhos de Afonso abriram-se muito quando ouviu aquilo.
«A Leonor já acordou?»
«Sim, meu amorO pai abriu um sorriso e respondeu que claro que sim, porque agora nada podia separar a família que, mesmo depois de tudo, tinha aprendido a ser inteira.

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