O Inesperado Pedido do Chefão no Dia de Levar a Filha ao Trabalho.

6 min de leitura

Ela esfregava o chão para ganhar a vida. Ele era dono de metade da cidade e enterrava os seus inimigos sem pensar duas vezes. Ela fugia de um monstro que jurou matá-la. Ele já havia perdido tudo o que amava e contava os dias até que a morte o viesse buscar também. Mas quando uma mãe desesperada, escondendo a sua bebé doente, tropeçou na mansão do homem mais perigoso do Porto, nenhum dos dois esperava o que viria a seguir.

Chamam-lhe Fantasma porque aqueles que o atravessam simplesmente desaparecem. No entanto, este assassino de sangue frio que nunca demonstrou piedade encontrou-se incapaz de desviar o olhar de uma menina de oito meses com olhos que lhe lembravam o filho que ele enterrara. O que acontece quando o homem que todos temem se torna o único em quem ela pode confiar? O que acontece quando um coração de pedra começa a rachar?

Uma noite de janeiro no Porto era tão fria que o hálito parecia gelar no instante em que saía dos lábios. Leonor Santos estava de joelhos, a esfregar o chão de uma casa de banho no 12.º andar de um arranha-céus na Avenida da Boavista, quando o telemóvel vibrou no bolso.

Olhou para o relógio na parede: cinco da manhã. Ninguém ligava àquela hora, a menos que algo estivesse terrivelmente errado. O seu coração apertou-se num nó de pânico ao ver o número da creche a brilhar no ecrã. Apressadamente, tirou as luvas de borracha, as mãos a tremer tanto que mal conseguiu atender.

A voz da educadora do outro lado era monocórdica e distante, como se lesse um comunicado oficial. A Matilde tivera febre alta desde a meia-noite. A bebé não parava de tossir. A política da creche era clara: não podiam aceitar uma criança com sinais de doença. A Leonor tinha de a ir buscar. Imediatamente.

Antes que a Leonor pudesse articular uma palavra, um pedido, uma súplica, a chamada terminou. Ela levantou-se de um salto, o mundo a girar à sua volta. Matilde. A sua pequena filha de oito meses, a única pessoa que lhe restava neste mundo.

Leonor saiu a correr do edifício sem avisar ninguém, atirando-se à escuridão gélida. Uma chuva miudinha e persistente começara a cair, as gotas a chicotear o seu rosto como agulhas minúsculas. Correu durante três quarteirões porque não tinha dinheiro para um táxi ou um Uber. Quando chegou finalmente à creche, os seus lábios estavam azuis e as pernas, dormentes.

A Matilde estava nos braços da educadora, o rostinho corado pela febre. Os seus choros fracos soavam como os de um gatinho abandonado. Leonor pegou na filha ao colo, sentindo o calor a irradiar do pequeno corpo através das finas camadas de roupa. A sua filha estava a arder em febre.

Ela carregou a Matilde de volta para o quarto alugado e decrépito num prédio degradado no Bonfim. O cômodo mal tinha dez metros quadrados, as paredes manchadas de bolor e humidade, a janela remendada com fita-cola porque o vidro se partira há muito tempo. O aquecedor estava avariado há duas semanas. O senhorio prometera consertá-lo, mas nunca aparecera.

Leonor deitou a Matilde na cama, envolveu-a em todos os cobertores que possuía e abriu o armário dos medicamentos. Vazio. Usara a última dose do antipirético na semana anterior e não tivera dinheiro para comprar mais. Lágrimas quentes escorreram pelas suas faces enquanto observava a sua filha a contorcer-se em dor febril.

O telemóvel vibrou novamente. Desta vez, era a empresa de limpeza. Leonor atendeu e a voz do seu supervisor soou, áspera e irritada. Onde é que ela estava? Porque é que tinha abandonado o seu turno? Leonor tentou explicar sobre a Matilde, sobre a febre, sobre precisar de um dia de folga.

O supervisor interrompeu-a. Havia um trabalho especial hoje, um cliente VIP, uma mansão em Foz do Douro. Se ela não aparecesse, estava despedida. Sem exceções.

Leonor quis gritar. Quis atirar o telefone contra a parede, mas não podia. Se perdesse o emprego, não teria dinheiro para a renda, nem para o leite da Matilde, nem para os remédios. Ela e a sua filha estariam na rua, neste inverno brutal. E o Ricardo, o seu ex-marido violento que a caçava pela cidade, encontrá-la-ia mais facilmente do que nunca.

Leonor olhou para a Matilde, que adormecia e acordava, exausta pela febre. Ela não tinha com quem deixar a sua filha. A sua mãe estava morta. Os amigos haviam desaparecido. Estava sozinha numa cidade de um milhão e meio de habitantes, sem uma única mão para a ajudar.

Ela tomou a única decisão que podia.

Leonor vestiu a Matilde com camadas extras de roupa, envolveu-a em três cobertores e colocou-a no carrinho de bebé frágil que comprara num brechó por vinte euros. Enfiou um biberão, fraldas e o antipirético que pedira emprestado a uma vizinha na sua bolsa. Depois, empurrou o carrinho para fora do quarto escuro e entrou na chuva miudinha cinzenta.

O endereço na mensagem levou-a até Foz do Douro, onde viviam as pessoas mais ricas do Porto. Leonor nunca ali tinha pisado antes. Passou por ruas impecavelmente limpas, montras de lojas de luxo, carros importados alinhados nos passeios. Sentia-se como uma nódoa numa pintura perfeita.

Quando parou em frente ao endereço indicado, o seu coração quase parou. Diante dela, erguia-se uma mansão colossal, escura como a noite, com portões de ferro imponentes esculpidos com cabeças de leões a rugir. Leonor não sabia que estava diante dos portões do inferno, e o seu dono esperava-a lá dentro.

Leonor ficou parada diante do portão de ferro por um longo momento, sem coragem de entrar. A Matilde resmungou no carrinho, os seus choros fracos engolidos pelo vento e pela chuva. Leonor respirou fundo e empurrou o pesado portão. Ele abriu-se sem um ruído, como se perfeitamente lubrificado, como se convidasse a sua presa a entrar.

Um caminho de pedras negras conduziu-a por um jardim árido. Estátuas de pedra estavam espalhadas por ambos os lados, os seus rostos frios salpicados de chuva miudinha, os seus olhos vazios pareciam seguir cada passo dela. Leonor estremeceu e puxou o cobertor com mais força sobre o rosto da Matilde. Ela andou mais rápido, as rodas do carrinho a bater contra as pedras, o som a ecoar pela quietude.

A porta da frente da mansão era de carvalho maciço, três vezes a sua altura, esculpida com padrões intrincados que ela não conseguia reconhecer. Leonor procurou por uma campainha, mas não encontrou nenhuma. Empurrou levemente, e a porta abriu-se como se a casa a estivesse à sua espera.

Lá dentro, Leonor teve de parar para os seus olhos se ajustarem à penumbra. Depois ela viu, e esqueceu-se de respirar. O salão principal era vasto como uma catedral. O teto altíssimo, com um enorme lustre de cristal suspenso no ar. Milhares de cristais capturavam o brilho fraco de velas espalhadas pelo espaço. O chão de mármore preto brilhava como um espelho, refletindo a sua figura pequena, suja e perdida em meio ao luxo frio. Ladeando a escEle ajoelhou-se, os seus próprios olhos agora também cheios de lágrimas, e sussurrou o nome da filha que partira, encontrando finalmente, naquele jardim cheio de luz, um perdão que nunca pensara ser possível.

Leave a Comment