Sofia Almeida tinha trabalhado como ama em Lisboa durante quase seis anos, mas nada a preparou para o que viu na casa dos Costa. Quando aceitou o emprego, tudo parecia perfeito — a casa elegante, os pais simpáticos e, principalmente, o bebé alegre de nove meses, o Tomás. A mãe, Beatriz, passava longas horas a trabalhar como agente imobiliária, enquanto o pai, João, era engenheiro informático e trabalhava maioritariamente de casa.
As primeiras semanas correram bem. Sofia adorava o Tomás — as suas gargalhadas enchiam a casa de alegria, e ele tinha o temperamento mais tranquilo que já vira num bebé. Mas depois, começou a reparar em coisas que não batiam certo. Sempre que mudava a fralda, havia marcas vermelhas nas coxas dele. Primeiro, pensou que fosse irritação ou a fralda muito apertada. Mas as marcas não pareciam normais — tinham formas estranhas, quase como dedos.
Comentou com delicadeza com a Beatriz numa tarde. Ela pareceu genuinamente surpresa, até preocupada, e prometeu falar com o pediatra. Mas na semana seguinte, Sofia viu o mesmo — marcas novas, em sítios diferentes. Era demasiado estranho para ignorar.
Depois, havia os sons. Enquanto o Tomás dormia, ouvia-se passos no andar de cima, mesmo com o João a dizer que estava no escritório no rés-do-chão. Uma vez, foi ver o bebé e ouviu o clique suave de uma porta a fechar — dentro do quarto dele.
O desconforto transformou-se em medo. Uma manhã, depois de encontrar outra marca — uma pequena nódoa negra — decidiu agir. Comprou uma câmara minúscula, disfarçada de difusor de aromas, e colocou-a num canto do quarto.
Nos primeiros dois dias, nada aconteceu. Mas na terceira tarde, enquanto o Tomás dormia, reviu as imagens no telemóvel. As mãos tremeram-lhe quando carregou em “play”.
Os primeiros minutos mostravam apenas o bebé a dormir. Depois, a porta abriu-se — devagar, em silêncio. Uma figura entrou. Sofia gelou. Não era a Beatriz. Nem o João. Era alguém que nunca tinha visto.
A respiração faltou-lhe quando a desconhecida se inclinou sobre o berço.
Era uma mulher, talvez nos cinquenta e poucos anos, com um vestido desbotado de flores. Os movimentos eram suaves, quase carinhosos, enquanto tocava no rosto do Tomás. Depois, para horror de Sofia, a mulher abriu o body do bebé e pressionou algo frio e metálico contra a pele dele. O Tomás choramingou, mas não gritou.
O primeiro instinto de Sofia foi correr para casa, mas forçou-se a continuar a ver. A mulher movia-se pelo quarto como se o conhecesse bem. Pegou na chupeta do Tomás, cheirou-a e sorriu — como quem revive uma memória. Depois, sussurrou algo que a câmara mal captou: “És tão parecido com ele.”
Naquela noite, Sofia não dormiu. A mente dela passava por todas as possibilidades — uma vizinha com chave, uma familiar que não conhecesse, uma intrusa. Mas na manhã seguinte, o João comentou, descontraído, que iria trabalhar até tarde, e a Beatriz estaria numa visita até à meia-noite. A coincédia parecia… estranha.
Decidiu confrontá-los — mas antes, instalou mais duas câmaras: uma no corredor e outra à porta da frente.
Na noite seguinte, ao rever as imagens, a verdade tornou-se ainda mais misteriosa. A mulher aparecia outra vez — mas não entrara pela porta da frente nem pelo corredor. Tinha saído da cave.
O sangue gelou-lhe nas veias. A cave era o local de trabalho do João. Ele dissera expressamente que era “proibida” por causa dos projetos confidenciais. Mas agora, parecia haver algo muito mais sombrio ali.
No dia seguinte, quando o João saiu para fazer compras, Sofia desceu à cave. O ar era húmido, com um cheiro metálico. No fundo, havia uma porta trancada com um teclado. Havia arranhões à volta da fechadura — como se alguém tentara abri-la por dentro.
Recuou a correr, o coração aos saltos. Naquela noite, fez uma chamada anónima à polícia, a relatar um possível intruso.
Quando os agentes chegaram, o João pareceu calmo — até cooperativo. Deixou que revistassem a casa, incluindo a cave. Não encontraram nada. A porta trancada, disse ele, dava para um armário velho. Deu o código e abriu-a: prateleiras vazias, pó e um cheiro fraco de lixívia.
A polícia foi-se embora. Sofia sentiu-se humilhada — mas algo ainda não fazia sentido. Porque é que a mulher desaparecera sem deixar rasto? Porque é que o Tomás ainda tinha marcas no dia seguinte?
Então, manteve as câmaras ligadas. E duas noites depois, viu a verdade.
O vídeo começou como os outros — o quarto silencioso, o Tomás a dormir. Depois, da esquina da imagem, a porta da cave abriu-se outra vez. A mesma mulher saiu, os vidhos vidrados, os movimentos mecânicos.
Mas desta vez, o João seguiu-a.
Sofia prendeu a respiração. Nas imagens, o João falava baixinho, guiando a mulher pelo braço. “Está tudo bem, mãe”, sussurrou. “Podes vê-lo só um minutinho.”
Mãe.
A revelação atingiu Sofia como um murro. A mulher não era uma estranha — era a mãe do João. Mais tarde, os registos policiais confirmariam que ela era Isabel Costa, uma ex-enfermeira psiquiátrica que desaparecera há cinco anos após ser diagnosticada com demência avançada. O João dissera a todos que ela morrera num lar.
Mas não morrera. Ele mantivera-a escondida na cave.
O vídeo mostrava o João a abrir a porta da cave e a levar a mãe de volta para dentro, depois de ela tocar no bebé. Antes de descerem, a Isabel olhou diretamente para a câmara — como se soubesse. “Ele é igual ao meu Joãozinho”, murmurou. “Não os deixes levá-lo.”
Sofia entregou o vídeo à polícia na manhã seguinte. Em horas, os agentes voltaram com um mandado. Atrás de uma parede falsa na cave, encontraram um quarto improvisado — uma cama, fotos antigas e suprimentos médicos. A Isabel estava lá, assustada e confusa, mas ilesa.
O João confessou que não suportara enviar a mãe para um lar após o declínio mental dela. Mantivera-a escondida durante anos, convencendo a Beatriz de que morrera. A Isabel subia às escondidas por uma passagem antiga para ver o neto quando o João não estava a vigiar — até as câmaras da Sofia revelarem tudo.
A história espalhou-se pelo bairro. A Beatriz pediu a separação pouco depois, e o João enfrentou acusações por prisão ilegal e falsificação de documentos. Sofia deixou a casa dos Costa para sempre, mas guardou a câmara disfarçada de difusor — uma lembrança do dia em que o seu instinto salvou uma criança e desvendou um segredo que estava à vista de todos.