Voltou Mais Cedo e o Que Encontrou na Cozinha o Deixou Sem Reação

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Era quase meio-dia quando o carro do Sr. Sousa entrou na garagem—mais cedo do que o habitual, mais cedo do que se esperava.

Normalmente, ele não almoçava em casa. Seus dias eram rigidamente agendados, cheios de reuniões, chamadas, decisões que afetavam centenas de funcionários. A casa era apenas um lugar para dormir, trocar de roupa, existir entre obrigações.

Mas naquele dia, uma reunião fora cancelada de última hora. E por razões que não sabia explicar, sentiu um desejo de voltar para casa.

Talvez fosse o cansaço silencioso que carregava há meses.
Talvez fosse culpa.
Talvez não fosse nada.

Destrancou a porta da frente e entrou no silêncio familiar da casa. O aroma de limão do produto de limpeza permanecia no ar—sutil, limpo, quase reconfortante.

“Olá?” chamou ele, afrouxando a gravata.

Nenhuma resposta.

Assumiu que a Gabriela, a empregada doméstica, estivesse em um dos quartos dos fundos. Ela trabalhava para sua família há quase um ano—eficiente, quieta, invisível, como costumam ser aqueles que servem. Ele mal sabia algo sobre ela além do nome e do fato de que sempre chegava cedo e saía tarde.

Caminhou em direção à cozinha.

E então parou.

Ali, no chão da cozinha, Gabriela estava ajoelhada.

O carrinho de limpeza estava abandonado ao lado. O esfregão encostado inutilmente no armário. Ela não estava esfregando. Não estava organizando. Não estava fazendo nada do que ele pagava para ela fazer.

Ela estava rezando.

As mãos estavam unidas, a cabeça baixa, os olhos fechados.

À frente dela, sentadas em um pequeno tapete, estavam duas menininhas—gémeas, não mais que dois anos de idade. O cabelo estava bem penteado, os vestidinhos limpos mas claramente gastos. Cada uma delas tinha as mãos juntas, como as da Gabriela, rostos sérios com a solenidade que só as crianças têm quando imitam algo sagrado.

Na frente de cada criança, havia um pequeno prato.

Não era uma refeição.
Apenas algumas frutas cortadas.

E elas estavam agradecendo por aquilo.

O Sr. Sousa congelou na porta.

Sentiu-se um intruso na própria casa.

Por um momento, ninguém o notou. A casa estava tão silenciosa que ele podia ouvir o leve zumbido da geladeira, o som suave da respiração de Gabriela enquanto sussurrava palavras que ele não conseguia distinguir.

Então uma das gémeas abriu os olhos.

Olhou para cima—e viu-o.

As mãos caíram instantaneamente. O rosto ficou pálido.

“Mãe…” sussurrou, puxando a manga da Gabriela.

Os olhos da Gabriela abriram-se de repente.

Ela virou-se.

E quando o viu ali parado, todo o seu corpo ficou tenso.

“Oh—senhor,” disse ela, levantando-se apressadamente. “Eu—peço desculpa. Não o ouvi chegar. Eu sei que isto parece—”

Interrompeu-se, baixando o olhar.

“Vou limpar isto agora mesmo,” disse rapidamente, alcançando os pratos. “Não devia ter—por favor, posso explicar—”

“Pare,” disse o Sr. Sousa.

A palavra saiu mais cortante do que pretendia.

Gabriela paralisou.

As gémeas fitaram-no, olhos arregalados, imóveis.

“O que… estavam a fazer?” perguntou ele, a voz mais baixa agora.

Gabriela engoliu em seco. Por um instante, pareceu que poderia chorar.

“Estávamos a agradecer,” disse suavemente.

“Pela comida.”

O Sr. Sousa olhou novamente para os pratos. Para as pequenas porções. Para o modo como as crianças se aproximaram instintivamente da mãe.

“É… o vosso almoço?” perguntou.

Gabriela hesitou. Depois assentiu.

“Trago-as comigo,” disse. “Não posso pagar a creche. E não queria deixá-las sozinhas.”

Ele reparou então como ela parecia magra. Cansada. As sombras suaves sob os olhos.

“E isso é tudo que estão a comer?” perguntou.

Os ombros levantaram-se num pequeno e desamparado encolher.

“É suficiente,” disse. “Elas não se queixam.”

Uma das gémeas abanou a cabeça, como se discordasse—mas permaneceu em silêncio.

Algo dentro do Sr. Sousa quebrou.

Ele tinha três casas. Desperdiçava mais comida numa semana do que muitas famílias usavam num mês. A sua geladeira estava tão cheia que metade estragava antes de alguém tocar nela.

E ali, no chão da sua cozinha, estavam duas crianças agradecendo a Deus por um punhado de fruta.

“Quando foi a última vez que comeu uma refeição completa?” perguntou.

Gabriela não respondeu.

Isso foi resposta suficiente.

“Sentem-se,” disse ele.

“Eu—senhor?” gaguejou ela.

“Sentem-se,” repetiu. “Todos.”

Ela hesitou, o medo cruzando-lhe o rosto. Empregadas não se sentavam. Não assim. Não na sua casa.

Mas algo na sua expressão fez com que obedecesse.

Ele foi até à geladeira, abriu-a e olhou.

Ovos. Leite. Pão fresco. Sobras de jantares que mal se lembrava de comer.

Começou a tirar coisas.

“Senhor, não precisa—” Gabriela começou.

“Preciso,” disse ele.

Cozinhou desajeitadamente, como alguém que não o fazia há anos. Ovos mexidos. Torradas. Fruta. Mais do que fruta.

As gémeas observavam-no como se estivesse a fazer mágica.

Quando colocou os pratos à frente delas, os olhos brilharam.

“Para nós?” perguntou uma delas.

“Sim,” disse ele, engolindo em seco. “Para vocês.”

Não esperaram para serem convidadas.

Gabriela cobriu a boca com a mão.

“Não sei como agradecer,” sussurrou.

“Já o fez,” disse ele. “Só não reparei até hoje.”

Comeram em silêncio. O tipo de silêncio que não era vazio—mas carregado de coisas não ditas.

Finalmente, Gabriela falou.

“O meu marido faleceu no ano passado,” disse baixinho. “Agora somos só nós. Faço o que posso.”

O Sr. Sousa assentiu.

“Eu também perdi alguém,” admitiu. “Há muito tempo. Enterrei-me no trabalho para não sentir.”

Olhou para as gémeas, migalhas nas faces, alegria nos olhos.

“E algures no caminho,” acrescentou, “esqueci-me do que importa.”

Quando terminaram de comer, uma das meninas subiu para o seu colo sem pedir. Ele ficou tenso—depois relaxou, pousando uma mão hesitante nas suas costas.

Ninguém o tocara assim há anos.

“Senhor,” disse Gabriela nervosamente, “ela não devia—”

“Está bem,” disse ele. “A sério.”

Naquela tarde, cancelou as reuniões restantes.

No dia seguinte, arranjou uma creche.

Na semana seguinte, aumentou o salário da Gabriela—silenciosamente, sem alarde.

E um mês depois, quando alguém lhe perguntou porque tinha começado a sair mais cedo do trabalho todos os dias, ele sorriu e disse algo que ninguém esperava.

“Tenho planos para o almoço,” disse.

Em casa.

Com família.

E assim percebeu que a verdadeira riqueza não está no que se acumula, mas no que se partilha.

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