Voltei Mais Cedo Para Surpreender Minha Filha e Encontrei Valentões a Humilhando – Eles Não Sabiam Que Eu Estava Lá

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CAPÍTULO 1: O LONGO CAMINHO PARA CASA

O ar dentro do avião C-130 sempre cheirava do mesmo jeito: uma mistura de óleo hidráulico, suor velho e ansiedade. Mas desta vez, pela primeira vez em dezoito meses, cheirava a esperança.

Ajustei-me no assento de luta, tentando aliviar as pernas. Os joelhos estavam arruinados—muitas patrulhas, muito peso carregado por terrenos irregulares. Mas a dor não importava hoje.

Eu estava a caminho de casa.

Não apenas de licença por duas semanas. Casa para ficar. Os meus papéis de baixa estavam assinados, selados e guardados no bolso da minha mochila. A guerra tinha acabado para mim. Tinha acabado com a areia.

Olhei para a foto colada no interior do capacete. Era um momento espontâneo da minha mulher, Sofia, e da nossa filha, Beatriz. Beatriz tinha catorze anos na foto, apagando velas num bolo. Agora, estava quase a fazer dezasseis.

Tinha perdido dois anos da vida dela.

“Nervoso, Sargento?”

Olhei para cima. O miúsculo sentado à minha frente, um soldado recém-chegado chamado Carvalho, sorria.

“Podes dizer isso,” grunhi, verificando o relógio pela centésima vez.

“Ela não sabe?”

“Não,” respondi, um pequeno sorriso a surgir nos meus lábios secos. “Ninguém sabe. A Sofia acha que ainda estou na Alemanha a tratar da baixa. A Beatriz acha que só volto no Natal.”

“Vou ser uma surpresa do caraças,” riu-se Carvalho.

Acenei com a cabeça, virando-me para olhar pela pequena janela, embora só houvesse nuvens.

A verdade era que estava aterrorizado.

No exército, sabia quem era. Era o Sargento Almeida. Dava ordens. Protegia os meus homens. Conhecia as regras de combate.

Mas em casa? Não tinha a certeza se ainda sabia ser “Pai”.

A Beatriz estava naquela idade em que tudo muda. Na última videochamada, parecia distante. Calada. Respondia com monosílabos. A Sofia dizia que era só “coisa da idade,” mas o meu instinto dizia outra coisa. A intuição de um pai é estranha—fun

ciona mesmo a seis mil quilómetros de distância.

O avião aterrou na base aérea três horas depois. Quando a rampa baixou e o ar húmido de Portugal me tocou no rosto, o peito apertou-se.

Não chamei um táxi. Não liguei à Sofia. Um amigo da base veio buscar-me.

“Direto a casa?” perguntou, atirando o meu saco para a mala da carrinha.

Verifiquei as horas no telemóvel. 11h45. Era terça-feira.

A Sofia estaria no trabalho. A Beatriz na escola. Escola Secundária de Algés.

Olhei para o uniforme. Estava empoeirado, amarrotado e cheirava a avião. Devia ir a casa, tomar um duche, vestir roupa civil. Devia apresentar uma versão limpa de mim.

Mas não consegui esperar. A vontade de as ver era física, como uma fome.

“Não,” disse, entrando no lugar do passageiro. “Leva-me à escola.”

“Tens a certeza, homem? Pareces que saíste agora de uma trincheira.”

“Foi exatamente o que fiz,” respondi. “Conduz.”

CAPÍTULO 2: O CORREDOR

A Escola Secundária de Algés não tinha mudado muito desde que eu me formei há vinte anos. Os tijolos estavam mais escuros, as árvores mais altas, mas o ambiente era o mesmo.

Registei-me na secretaria. A assistente administrativa era a Dona Margarida. Já lá estava quando eu era aluno.

Ela olhou do computador, irritada com a interrupção, mas a expressão suavizou-se assim que viu o uniforme. Olhou para o distintivo de combate no ombro, para a patente no peito, para a poeira nas botas.

“Posso ajudá-lo, senhor?” perguntou com suavidade.

“Vim ver a Beatriz Almeida,” disse, a voz rouca. “Sou o pai dela.”

As mãos da Dona Margarida voaram para a boca. “Oh! Meu Deus. Ela sabe?”

“Não, senhora. É uma surpresa.”

Ela sorriu, limpando o canto do olho. “Está na quarta aula agora. Estão no refeitório, ao fundo do corredor, à esquerda.”

“Obrigado.”

“Vá buscá-la, Sargento.”

Saí da secretaria e entrei no corredor principal. Estava vazio durante as aulas, mas o murmúrio distante de centenas de adolescentes ecoava pelos cacifos.

O coração batia com força contra as costelas. Já entrei em edifícios em zona de guerra com o pulso mais calmo do que agora.

Porque estava tão nervoso? Era a minha filha. A minha menina.

Mas ela já não era uma menina. E eu estive ausente muito tempo.

Dobrei a esquina para o refeitório. As portas duplas estavam fechadas, mas tinham aquelas janelas estreitas com rede de arame.

Aproxei-me em silêncio. Não queria entrar a despachar. Queria vê-la primeiro. Queria um segundo para me recompor, preparar o “sorriso de Pai.”

Espreitei pelo vidro.

O refeitório era o caos. Tabuleiros a bater, gritos, comida a voar. Era uma selva.

Varri o recinto, procurando o seu rabo-de-cavalo desalinhado.

Encontrei-a.

Estava sentada numa mesa perto da parede, perto dos caixotes do lixo. Sozinha.

Aquilo doeu. A Beatriz costumava ter tantos amigos. Era a miúda extrovertida que convidava todos para as festas dela. Agora, estava curvada, a cabeça baixa, a mexer na côdea do pão.

Parecia isolada. Derrotada.

Estava prestes a empurrar a porta quando vi o movimento.

Três raparigas. Caminhavam entre as mesas com um ritmo próprio. Conhecemos esse andar. Já o vi em senhores da guerra e em instrutores militares. É o andar de quem acha que manda ali.

Dirigiam-se à Beatriz.

Parei, a mão pairando sobre a porta. Espera, disse a mim mesmo. Talvez sejam amigas.

Mas não pareciam amigas.

A líder, uma rapariga alta com roupa cara e um rabo-de-cavalo alto, chegou à mesa da Beatriz. Não cumprimentou. Bateu com a mão na mesa.

Vi a Beatriz sobressaltar-se. Vi o medo na postura dela. Encolheu-se, tornando-se tão pequena quanto possível.

A segunda rapariga, à direita, pegou no tabuleiro da Beatriz. Com um movimento casual, virou-o.

Pizza e leite respingaram na blusa da Beatriz.

Agarrei a maçaneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

O barulho do refeitório tornou-se num rugido surdo. Tudo o que ouvia era o sangue a correr-me nas orelhas.

A Beatriz levantou-se. Estava a chorar. Via as lágrimas no rosto dela mesmo à distância. Tentou afastar-se, pegar na mochila e sair.

A terceira rapariga bloqueou-a. Agarrou-a pelo ombro.

“Não,” murmurei.

A rapariga puxou. Com força.

A Beatriz tropeçou para trás. As raparigas riram-se. Um riso cruel. Agarraram-na pelos braços, puxando-a, arrastando-a para longe da mesa.

Estavam a tratar a minha filha como um objeto. Como lixo.

Algo dentro de mim estalou. Não foi a raivaCom um passo firme, entrei no refeitório e todos os olhos viraram-se para mim enquanto a raiva fria do soldado que ainda era tomou conta do meu corpo, pronto para defender a minha filha com a mesma determinação com que defendi o meu país.

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