Quando cheguei a casa naquela quarta-feira à tarde, a minha vizinha, Dona Maria, estava na varanda com os braços cruzados e um olhar mais aborrecido do que o normal. “A tua casa faz imenso barulho durante o dia, Miguel!”, queixou-se. “Está alguém lá dentro aos gritos.”
“Impossível,” respondi, equilibrando os sacos das compras. “Vivo sozinho e passo o dia todo no trabalho.”
Ela abanou a cabeça com força. “Pois bem, está lá alguém. Ouvi gritos outra vez ao meio-dia. Uma voz de homem. Bati à porta, mas ninguém respondeu.”
A insistência dela deixou-me desconfortável, mas forcei um sorriso. “Deve ter sido a televisão. Às vezes deixo-a ligada para assustar ladrões.”
Mas ao entrar, o ar parecia errado—como se a casa estivesse a segurar a respiração. Deixei as compras e percorri todos os quartos. Tudo estava no seu lugar. Janelas fechadas. Sem sinais de arrombamento. Nada em falta. Convenci-me de que a vizinha teria ouvido mal e tentei esquecer o assunto.
Naquela noite, mal dormi.
Na manhã seguinte, depois de andar de um lado para o outro na cozinha, decidi ficar em casa. Às 7h45, abri o portão da garagem, saí com o carro só para os vizinhos verem, e depois voltei a metê-lo lá dentro em silêncio. Entrei pela porta lateral, corri para o quarto e escondi-me debaixo da cama. O meu coração batia tão forte que tinha medo que me descobrissem.
As horas passaram numa quietude sufocante. Por volta das 11h20, quando já duvidava da minha sanidade, ouvi o som inconfundível da porta da frente a abrir.
Devagar. Cuidadoso. Familiar.
Passos ecoaram no corredor com a confiança de quem achava que ali pertencia. Sapatos a roçar levemente no chão—um ritmo que reconhecia, mas não conseguia identificar de imediato. O meu pulso saltou.
Depois, os passos entraram no meu quarto.
Uma voz de homem—baixa, irritada—resmungou: “Sempre a deixar tudo desarrumado, Miguel…”
O sangue gelou-me nas veias.
Ele sabia o meu nome.
E a voz parecia-me estranhamente familiar.
Fiquei imóvel, cada músculo travado de terror, enquanto as pernas dele se moviam pelo quarto—e pararam mesmo ao lado da cama.
Eu mantive-me em silêncio, a poeira a arranhar-me a garganta a cada respiração curta. O homem abria gavetas e mexia nas minhas coisas como se conhecesse cada centímetro da casa. O tom dele, calmo mas aborrecido, puxava por uma memória que eu não conseguia alcançar.
Uma gaveta fechou-se com força e ele murmurou: “Sempre a esconder as coisas em sítios diferentes, Miguel…”
A pele arrepiou-me. Como é que ele sabe disso?
Dirigiu-se ao armário, abrindo-o. As cabides balançaram suavemente. Da minha posição, via apenas as suas botas—de couro castanho, velhas mas bem engraxadas. Isto não era um ladrão apressado. Ele agia como alguém que regressava a casa depois de muito tempo.
Precisava de o ver melhor. Aos poucos, deslizei para a borda da cama. Ele pegou numa caixa azul que eu não reconhecia e murmurou algo num sotaque que não identifiquei.
Foi então que o meu telemóvel vibrou no bolso.
O som foi quase impercetível, mas senti-o como um estrondo. Ele parou. Eu congelei.
Lentamente, ele agachou-se. Os dedos dele apareceram, a puxar a coberta para espreitar por baixo.
Rolei para o lado oposto e levantei-me a tremer. Ele investiu, derrubando um candeeiro. Quando se endireitou, vi o seu rosto com clareza.
Parecia-se comigo. Não exatamente—o queixo era mais forte, o nariz um pouco torto—mas era suficiente para me revirar o estômago. Ele olhou-me com uma estranha mistura de irritação e resignação.
“Não devias estar aqui,” disse, calmo.
“Quem és tu?” gritei, agarrando o candeeiro como arma.
“Chamo-me Tiago,” respondeu, levantando as mãos. “Não queria que descobrisses assim.”
“O que estás a fazer na minha casa?”
“Tenho ficado aqui. Só durante o dia. Estás sempre fora. Nunca reparas.”
O meu pulso acelerou. “Há meses?”
“Sim,” admitiu, baixinho. “Nunca quis magoar-te.”
“Entraste na minha casa!”
“Não entrei.”
“Como assim?”
Ele hesitou. “Tenho uma chave.”
Um arrepio percorreu-me a espinha. “Onde arranjaste uma chave da minha casa?”
Ele engoliu em seco e respondeu com simplicidade devastadora: “Foi o teu pai quem ma deu.”
“O meu pai morreu quando eu tinha dezanove anos,” disse, ainda a segurar o candeeiro.
Tiago acenou. “Eu sei.”
“Então como é que te deu uma chave?”
Ele suspirou e sentou-se na cama, sem medo. “Porque também era meu pai.”
Por um momento, as palavras não fizeram sentido. Pareciam absurdas, como uma peça de puzzle errada. Olhei para ele, à espera de ironia ou loucura. Mas a expressão dele era séria.
“Estás a mentir,” declarei.
“Não estou.” Ele abriu a caixa azul. “O teu pai deixou isto. Queria que um dia descobrisses.”
Dentro estavam cartas antigas, amarelecidas, na letra do meu pai. A primeira estava endereçada não à minha mãe, mas a uma mulher chamada Leonor. Ao ler, o peito apertou-se-me. Havia uma relação escondida, um filho, uma vida que o meu pai nos ocultara.
Um filho chamado Tiago Mendes.
“Porque é que ele nunca me contou?” sussurrei.
Tiago encolheu os ombros. “Quis proteger a tua mãe. Ou a ti. As famílias são complicadas. Ele fez o que achou certo.”
“E porque vieste agora? Porque te escondeste na minha casa?”
Ele esfregou a testa. “Não devia ter sido assim. Há seis meses perdi o emprego. O meu apartamento tornou-se perigoso. Não tinha para onde ir. Tentei falar com familiares, mas ninguém acreditou. Esta casa… era a única ligação que tinha a ele.”
Tentei assimilar as palavras dele. Nada justificava o que fizera, mas a desesperança na sua voz era real.
“Podias ter falado comigo,” disse.
Tiago riu-se, sem humor. “Chegar à tua porta e dizer ‘Olá, sou teu irmão’? Não achei que acreditasses.”
Ficámos em silêncio. A raiva dentro de mim transformou-se em confusão, dor, e uma estranha empatia.
“Não podes ficar na minha casa,” concluí, por fim.
“Eu sei.”
“Mas também não tens de desaparecer.” Engoli em seco. “Se estás a dizer a verdade, quero saber. Sobre ele. Sobre tudo.”
Os olhos de Tiago suavizaram-se. Aquele olhar fechado que mantinha desde o início afinal partira-se.
“Eu gostava disso,” murmurou.
E assim conversámos—sobre o nosso pai, sobre as nossas vidas, sobre os caminhos paralelos que tínhamos seguido. Não apagou o medo ou a traição. Mas revelou algo inesperado.
Não um intruso.
Um irmão.
Alguém que, tal como eu, estivera sozinho durante demasiado tempoE, no final, percebi que a família pode surgir das formas mais inesperadas, ensinando-me que o sangue nem sempre define os laços, mas sim a vontade de compreender e aceitar quem está ao nosso lado.