Viúvo Rico Jura Nunca Amar de Novo, Mas Tudo Muda Quando Conhece uma Mães de Coração

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Ricardo Almeida ficou imóvel na entrada do restaurante do Hotel Vista Dourada, como se o ar tivesse endurecido ao redor do seu corpo. Dali, viu algo que não via há semanas: sua filha Beatriz, de quatro anos, abria a boca com entusiasmo para receber uma colherada de sopa. Não uma colher qualquer, mas a que uma jovem garçonete lhe oferecia com paciência, sorrindo como se aquela cena fosse a coisa mais natural do mundo. Beatriz, que transformara as refeições numa batalha desde a morte da mãe, agora engolia sem protestar, com as bochechas coradas, e até erguia o polegar com a solenidade de uma rainha em miniatura.

—Olha, pai! Está gostoso! —disse Beatriz, limpando o queixo com o guardanapo que a garçonete lhe estendeu antes que uma gotinha caísse.

Ricardo sentiu um aperto no peito. Aquele “pai” não era novo, mas a forma como ela o disse, com brilho e não com resignação, era como ouvir uma canção esquecida. Ao lado dele, uma babá de roupa impecável recolhia suas coisas com o rosto tenso.

—Senhor Almeida… peço desculpas, mas renuncio. Sua filha é… difícil demais para qualquer um —murmurou, sem esperar resposta.

Ricardo nem sequer a olhou. Fez um gesto automático, como se falasse de um contrato e não da quinta demissão em menos de um mês.

—O acerto estará pronto amanhã.

A babá foi-se embora, e Ricardo continuou a observar. A garçonete dizia algo a Beatriz em voz baixa, como um segredo compartilhado. Beatriz ria com uma risada pequena, meio tímida, mas verdadeira. Ricardo sentiu que, se piscasse, a cena se desfaria.

—Quem é ela? —perguntou ao gerente, Eduardo Sousa, quando o viu aproximar-se.

—Uma garçonete nova. Carolina Mendes. Contratei-a há um mês. Algum problema?

Ricardo negou com a cabeça sem desviar o olhar.

—Pelo contrário… ela acabou de resolver um.

Eduardo franziu a testa, incomodado. Notava-se que o aborrecia ver sua equipe “fora do lugar”.

—Ela devia atender as mesas de sete a doze, não brincar de babá. Vou falar com ela.

—Não —interrompeu Ricardo, com uma calma que soou a ordem—. Eu me encarrego.

Ricardo caminhou até a mesa sentindo que os dois últimos anos o golpeavam por dentro. Isabel, sua esposa, morrera de repente, e desde então ele refugiara-se em reuniões, voos, contratos. Expandir a cadeia de hotéis pelo mundo era mais fácil do que olhar nos olhos da filha e admitir que ele também estava partido. Voltara a Lisboa buscando um “novo começo”, mas só encontrara sua incapacidade de aproximar-se de Beatriz sem que a menina o olhasse como se ele fosse um estranho de terno caro.

—Como conseguiu que ela comesse? —perguntou, direto, sem rodeios.

Carolina ergueu o olhar e assustou-se ao reconhecê-lo. Apertou a colher como se fosse uma prova num exame.

—Senhor Almeida… eu… peço desculpas se ultrapassei os limites…

—Perguntei como conseguiu —insistiu ele, mas a voz não era dura, era desesperada.

Carolina respirou e a expressão mudou, como se lembrasse que ali havia uma criança, não o dono do hotel.

—Contei-lhe uma história —disse, acariciando o cabelo de Beatriz—. Disse que as princesas guerreiras precisam de energia para as aventuras. Não é, Bia?

—Sim! Como a Vaiana! —saltou Beatriz, orgulhosa, abrindo a boca para outra colherada.

Ricardo sentiu um calor estranho atrás dos olhos. Não era só o fato de ela comer. Era que confiava. Que se deixava cuidar.

—Preciso voltar ao trabalho, senhor —murmurou Carolina, levantando-se com o desconforto de quem cruzou um limite invisível.

Ricardo assentiu, mas antes que pudesse dizer algo mais, Eduardo apareceu com o tom severo.

—Senhorita Mendes, preciso falar consigo. Agora.

Carolina seguiu-o até à cozinha. Ricardo ficou com Beatriz, e a menina, como se o mundo fosse desmoronar, fez bico.

—Quero que a Carolina me dê de comer, não tu! —protestou, cruzando os braços.

Naquela tarde, na suíte presidencial, Ricardo tentou concentrar-se em documentos, mas a imagem de Beatriz rindo não o deixava. Então recebeu um chamado da receção: uma jovem insistia em despedir-se da sua filha. Chamava-se Carolina Mendes.

Quando Carolina entrou, Beatriz correu para ela como se reencontrasse o seu porto seguro.

—Carolina, vamos brincar!

Carolina abraçou-a com um sorriso triste.

—Olá, princesa… vim dizer-te adeus.

Ricardo levantou-se de um salto.

—Adeus? Do que estás a falar?

Carolina olhou para o chão.

—O senhor Sousa despediu-me. Disse que abandonei as minhas funções.

Ricardo sentiu a raiva subir-lhe ao pescoço. No seu mundo, despedir alguém era um trâmite. Mas despedir a única pessoa que conseguira chegar a Beatriz era… sabotagem.

—Despediu-te por ajudar a minha filha? —perguntou, incrédulo.

—Foram as regras, senhor Almeida. Não devia ter deixado o meu posto.

Beatriz agarrou-se à perna de Carolina como se a vida dependesse disso. Ricardo olhou para ela e, pela primeira vez em muito tempo, tomou uma decisão impulsiva sem pedir licença ao próprio medo.

—Ofereço-te o dobro do teu salário para seres a babá temporária da Beatriz.

Carolina olhou para ele como se não tivesse ouvido bem.

—Senhor… eu não tenho certificações…

—E daí? —interrompeu ele, apontando para a filha—. A minha filha confia em ti. Isso vale mais que qualquer papel.

Carolina hesitou. Os lábios tremeram antes de falar.

—A minha mãe está doente —confessou—. Precisa de tratamentos caros. Eu estava a juntar dinheiro… e agora…

Ricardo aproximou-se, mais humano que empresário.

—O hotel cobrirá o teu seguro como funcionária direta —disse—. E podemos discutir um adiantamento para o urgente.

Os olhos de Carolina humedeceram-se, mas ela manteve-se firme.

—Aceito… mas que fique claro que é temporário.

Ricardo estendeu a mão.

—Bem-vinda à família. Temporariamente.

Nenhum dos dois imaginou, ao apertarem as mãos, que aquela palavra começaria a doer mais que qualquer contrato. Porque, a cada dia que passava, “temporário” parecia menos uma regra e mais uma ameaça. E a ameaça tornou-se real quando se aproximou o baile anual do hotel, aquela noite elegante onde todos olhariam, julgarNaquela noite, enquanto dançavam ao som de um fado melancólico, Ricardo olhou nos olhos de Carolina e percebeu que o amor, como a vida, nunca segue um roteiro pré-estabelecido, mas sempre encontra seu caminho.

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