Uma mãe solitária estava sentada sozinha num casamento, alvo das gargalhadas de todos, quando um chefe da máfia se aproximou e disse: “Finge ser minha mulher e dança comigo”…
As risadas ao redor ecoavam mais alto que a música.
Beatriz estava sentada no canto mais distante do salão, as mãos cruzadas no colo, os olhos fixos na taça de champanhe intocada à sua frente. O vestido floral —emprestado, já desbotado— mal disfarçava o cansaço no seu olhar. Do outro lado, os convidados dançavam sob lustres dourados, enquanto os sussurros a rodeavam como abutres.
—É a mãe solteira, não é? — disse uma dama de honra com desdém.
—O marido a deixou. Não admira que esteja sozinha — riu outra.
Beatriz engoliu em seco. Prometera a si mesma que não choraria, não hoje, não no casamento da prima. Mas quando viu o baile do pai com a filha, algo dentro dela quebrou. Lembrou-se do pequeno Tomás, a dormir em casa com a ama. Lembrou-se das noites em que fingia estar bem.
Foi então que uma voz profunda lhe sussurrou: — Dança comigo.
Ela virou-se e deparou-se com um homem de fato preto impecável. Ombros largos, olhos escuros, uma presença que silenciou a sala. Reconheceu-o na hora: Álvaro Mendes, um empresário poderoso do Porto, embora os rumores o chamassem por outro nome: o rei do crime.
—Eu… nem sequer o conheço — gaguejou.
—Então vamos fingir — respondeu ele, estendendo a mão. — Só por uma dança.
O salão emudeceu quando ela se levantou, os dedos trémulos entrelaçando-se com os dele. Murmúrios de espanto percorreram o recinto enquanto Álvaro a levava para o centro da pista. A música mudou, uma melodia lenta e intensa enchendo o ar.
Enquanto dançavam, Beatriz percebeu algo estranho: as piadas cessaram. Ninguém mais ousava sussurrar. Pela primeira vez em anos, não se sentiu invisível. Sentiu-se vista. Protegida.
E quando Álvaro se inclinou, as palavras que lhe disse mudaram tudo:
—Não olhes para trás. Apenas sorri.
A música parou, mas o salão permaneceu em silêncio. Todos os olhos estavam neles: o homem misterioso e a mãe solteira que, de repente, parecia uma rainha. A mão de Álvaro repousava na sua cintura, mas o seu olhar percorria a multidão com frieza.
Quando a música acabou, ele levou-a de volta à mesa. — Lidaste bem — murmurou.
Beatriz pestanejou. — O que acabou de acontecer?
—Digamos — respondeu ele com um meio-sorriso — que eu precisava de uma distração.
Sentaram-se num canto, o coração dela ainda acelerado. Ele serviu-lhe uma bebida, cada gesto calculado. — Essa gente não te vai chatear mais — disse, olhando para os convidados. — Têm medo do que não entendem.
Ela estudou-o: o maxilar forte, a cicatriz perto da orelha, a contradição entre perigo e gentileza. — Não precisava de me ajudar.
—Não foi por ti — admitiu. — Alguém aqui queria humilhar-me. Viraste o jogo a meu favor.
Ela franziu a testa. — Então fui só uma desculpa?
—Talvez — respondeu ele. Depois, o tom suavizou-se. — Mas não esperava que me olhasses assim. Como se eu fosse… humano.
Antes que pudesse responder, dois homens de fato escuro se aproximaram, sussurrando em voz baixa. O rosto de Álvaro endureceu. Levantou-se. — Fica aqui — ordenou.
Mas a curiosidade de Beatriz falou mais alto. Seguiu-o até à entrada, os saltos ecoando no mármore.
Perto do valet, viu Álvaro a falar com outro homem, este com uma arma escondida sob o casaco. As palavras eram cortantes. Finalmente, o desconhecido afastou-se de carro, e Álvaro virou-se, surpreendendo-a ali.
—Não devias ter visto isto — disse, aproximando-se. — Eu só…
—És corajosa — interrompeu ele. — Ou imprudente.
Os olhos dele prenderam-se nos dela. — Agora que me viste, não podes simplesmente desaparecer, Beatriz.
A brisa trazia o cheiro das rosas e do perigo.
Ela percebeu, então, que se metera em algo muito maior do que ela.
Dois dias depois, Álvaro apareceu à porta do seu pequeno apartamento. Tomás brincava com Legos na sala quando perguntou: — Mãe, é o teu amigo do casamento?
Álvaro sorriu. — Algo assim.
Beatriz ficou paralisada, sem saber se o deixava entrar. — Não devias estar aqui.
—Eu sei — respondeu ele, avançando. — Mas não gosto de deixar coisas por terminar.
Ele viu o papel de parede descascado, os móveis em segunda mão, a força nos olhos dela. — Lutas sozinha há muito tempo — disse. — Já não tens de o fazer.
Ela cruzou os braços. — Nem me conheces.
—Sei o que é ser julgado pelo mundo — sussurrou ele. — Ser o vilão na história de toda a gente.
O silêncio encheu a sala. Tomás espreitou por trás do sofá, com um carrinho de brincar na mão. Álvaro ajoelhou-se. — Rodas fixes — disse. O sorriso do miúdo derreteu o coração de Beatriz.
Os dias viraram semanas, e Álvaro começou a aparecer mais vezes. Umas vezes trazia compras, outras consertava a fechadura quebrada. E às vezes, ficava apenas em silêncio, a ouvi-la ler histórias a Tomás antes de dormir.
Os rumores continuavam (poder, perigo, sangue), mas nada disso importava quando ele estava na sua cozinha a ajudar Tomás com os trabalhos de casa. Não era o homem de quem todos falavam. Era só… Álvaro.
Numa noite de chuva intensa, Beatriz finalmente perguntou: — Porquê eu?
Ele olhou para ela com intensidade. — Porque quando todos viraram a cara, tu não viraste.
Ela não sabia se alguma vez poderia confiar nele por completo, mas, pela primeira vez em anos, não tinha medo do futuro. A mulher de quem outrora se riam e tinham pena encontrara a sua força outra vez — não num conto de fadas, mas em algo real, imperfeito e vivo.
Enquanto ficavam à janela a olhar a chuva, Álvaro sussurrou: — Talvez fingir não tenha sido uma má ideia.
Beatriz sorriu. — Talvez não.
O que farias se um homem como Álvaro te pedisse para fingires ser sua mulher por uma noite? Dizias sim… ou afastavas-te?