O milionário chegou sem avisar à sua mansão e se apaixonou ao ver o que a babá estava ensinando aos seus trigêmeos. Eduardo Sousa ficou paralisado na soleira da porta. Suas mãos ainda seguravam a mala de viagem. Sua gravata estava desleixada depois de 18 horas de voo desde Xangai. Ele tinha voltado três dias antes porque as negociações terminaram rápido, porque algo no seu peito disse que ele precisava estar em casa. Agora ele entendia por quê.
No chão do quarto, a nova babá estava ajoelhada sobre o tapete azul. Seu uniforme preto com avental branco contrastava com o chão elegante. Mas não foi isso que tirou o fôlego dele. Foram seus filhos. Afonso, Bernardo e Carlos estavam ajoelhados ao lado dela, suas pequenas mãos entrelaçadas na frente do peito, os olhos cerrados com uma paz que Eduardo nunca tinha visto em seus rostos. “Obrigado por este dia.”
A voz da babá era suave, melodiosa. “Obrigado pela comida que nos alimenta e pelo teto que nos protege.” “Obrigado pela comida”, repetiram os três meninos em uníssono. Eduardo sentiu suas pernas falharem. “Agora digam a Deus o que os fez felizes hoje.” Afonso abriu um olho, olhou para os irmãos e fechou novamente.
“Fiquei feliz quando Luísa me ensinou a fazer bolinhos”, sua voz era tímida, mas clara. “Eu fiquei feliz brincando no jardim”, acrescentou Bernardo. Carlos, o mais quieto dos três, demorou para falar. “Fiquei feliz porque não tenho mais medo à noite.” A mala escorregou da mão de Eduardo e bateu no chão.
Luísa abriu os olhos imediatamente. Seu olhar escuro encontrou o dele através do quarto. Por três segundos que pareceram uma eternidade, ninguém se moveu. As crianças também abriram os olhos. “Papai!”, gritou Bernardo, levantando de um salto, mas Eduardo mal conseguia processar as palavras. Sua visão ficou embaçada.
Algo quente queimava atrás dos seus olhos. “Senhor Sousa”, Luísa levantou-se com graça, alisando o avental. “Não esperávamos o senhor antes de sexta.” “Eu—”, sua voz saiu rouca. “Terminei antes.” Afonso e Carlos correram para ele. Seus pequenos braços envolveram suas pernas. Eduardo os abraçou automaticamente, mas seus olhos permaneceram fixos na mulher que transformara seus filhos em apenas quatro semanas. Quatro semanas.
Sete babás anteriores haviam falhado em 18 meses. Nenhuma conseguira fazer seus filhos dormirem sem gritar. Nenhuma fizera parar de quebrar seus brinquedos. Nenhuma os fizera sorrir daquele jeito. “Quer rezar com a gente, papai?”, a voz de Carlos era esperançosa. Eduardo não sabia rezar.
Não lembrava a última vez que falara com Deus. Talvez quando tinha a idade dos filhos, talvez nunca. “Eu tenho que—”, apontou vagamente para a porta. “Guardar minhas coisas.” A decepção cruzou o rosto de Carlos como uma sombra. “Deixo vocês terminando a oração.”
Eduardo recuou para o corredor. “Continuem, por favor.” Luísa inclinou a cabeça levemente. Não disse nada, mas algo em seus olhos o atravessou como uma faca. Eduardo andou pelo corredor da mansão com passos que não sentia. Desceu as escadas segurando no corrimão como um bêbado. Entrou no escritório e trancou a porta.
Só então permitiu-se desabar contra a madeira. Seus filhos estavam rezando. Seus filhos selvagens, furiosos, destruídos, estavam ajoelhados de mãos unidas, falando com Deus sobre bolinhos, jardins e o medo que desaparecia à noite. Carlos dissera que não tinha mais medo.
Quando começara a ter medo? Quando Eduardo parara de perceber? A imagem dos três com os olhos fechados e expressões serenas gravou-se em sua mente como ferro em brasa. A forma como confiavam naquela mulher, como ela ensinara gratidão, a nomear emoções, a pedir ajuda a algo maior que eles—tudo o que ele não conseguira dar.
Eduardo escorregou pela porta até sentar no chão. Seu terno de 3.000 euros amassou-se contra o assoalho. Seus sapatos italianos esticados sem graça. E pela primeira vez em três anos, desde que sua esposa os abandonara sem olhar para trás, Eduardo Sousa chorou. As lágrimas queimavam suas bochechas.
Seu peito sacudia com soluços silenciosos. Cobriu o rosto para abafar o som. Não sabia quanto tempo ficou assim. Dez minutos? Uma hora? Quando finalmente conseguiu respirar, quando secou os olhos com a manga da camisa, soube algo com certeza absoluta.
Estivera vivendo como um fantasma em sua própria casa, trabalhando até de madrugada, viajando três semanas por mês, evitando os olhos dos filhos porque lembravam tudo o que perdera. E uma mulher de Braga, com seu uniforme simples e voz suave, devolvera algo que ele nem sabia que precisavam. Fé. Esperança. Paz.
Eduardo levantou-se com pernas trêmulas. Olhou-se no espelho. Seus olhos estavam vermelhos, a gravata torta, o cabelo despenteado. Parecia um homem acordando de um pesadelo de três anos. Pegou o telefone e cancelou todos os compromissos. Sua secretária respondeu com um ponto de interrogação. “Emergência familiar”, escreveu. “Ficarei em casa indefinidamente.”
Guardou o telefone e saiu. A casa estava em silêncio. Eram quase 21h. Subiu as escadas sem fazer barulho. A porta do quarto das crianças estava entreaberta. Uma luz suave vazava. Espiou com cuidado. Luísa estava sentada numa cadeira entre as três camas que juntara contra a parede. Um livro aberto no colo, mas não lia. As três crianças dormiam profundamente.
Ela levantou os olhos e o viu observando. Dessa vez, Eduardo não fugiu. Ao contrário, entrou e ajoelhou-se entre as camas, tomando a mão dela. “Ensina-me”, sussurrou. “Ensina-me a ser o pai que eles merecem.” Luísa sorriu, seus olhos úmidos refletindo a luz fraca. “Já está aprendendo”, respondeu. “Eles sabem. Só precisam de você aqui.”
Naquela noite, Eduardo dormiu no chão do quarto dos filhos, ouvindo suas respirações calmas. Pela primeira vez em anos, sentiu-se em casa. E no corredor, Luísa observava com um sorriso, sabendo que a verdadeira riqueza não estava nos bancos, mas naqueles momentos simples—quando um pai aprendia a estar presente, e três crianças descobriam que, afinal, não estavam sozinhas.