O som agudo das chaves caindo no chão de mármore ecoou pelo hall silencioso, mas ninguém veio.
Afonso Mendes — acostumado a dobrar salas de reunião e mercados à sua vontade — ficou imóvel na entrada da sala de jantar, o sangue gelado mesmo com a fúria latejando nas têmporas.
O que ele via não fazia sentido. Tinha de ser cansaço ou alguma brincadeira cruel do destino. Chegara mais cedo num dia comum para buscar documentos esquecidos antes de voltar ao seu arranha-céu de vidro e aço. Não esperava calor na mansão. Não esperava vida.
E, definitivamente, não esperava isto.
Na longa mesa de nogueira — intocada desde o funeral da mulher, cinco anos atrás — uma cena desafiava todas as regras da sua casa.
Inês, a jovemp empregada mal saída da adolescência, ainda de uniforme cinza impecável, estava sentada em vez de trabalhar. E não estava sozinha. Quatro crianças estavam com ela.
Quatro meninos idênticos.
Afonso pestanejou. Não deviam ter mais de quatro anos. Vestiam camisas azuis claras que despertavam nele uma pontada de reconhecimento, com aventais improvisados. Cabelos castanhos despenteados emoldurando rostos tão iguais que pareciam cópias, os olhinhos atentos seguindo os movimentos de Inês.
— Devagar, meus pequenos — murmurou ela, suave. — Todos vão receber igual.
Com cuidado, serviu arroz amarelo, simples, em cada prato. Era comida humilde, quase pobre, em choque violento com a porcelana fina embaixo. Mas os meninos olhavam para aquilo como se fosse um tesouro.
Suas mãos enluvadas — feitas para esfregar chãos — agora limpavam migalhas das bocas das crianças com um carinho maternal que apertou o peito de Afonso.
Ele devia ter gritado. Devia ter exigido explicações. Mas ficou paralisado.
Quando um dos meninos virou-se para rir do irmão, a luz revelou um perfil que o atingiu como um soco — o formato do nariz, a curva do sorriso, o jeito como a criança segurava o garfo.
Era como olhar para o seu próprio passado.
O coração acelerou. Como entraram? Sua casa era vigiada, monitorada. E, no entanto, ali estavam — quatro pequenos intrusos dividindo arroz em sua mesa proibida.
A intimidade daquilo aterrorizou-o.
— Vão crescer fortes — sussurrou Inês, raspando os últimos grãos da panela. — E um dia vão liderar. Só nunca esqueçam de dividir.
Afonso apertou a pasta até os nós dos dedos ficarem brancos.
Deu um passo. O assoalho rangeu.
Inês endureceu na hora. A colher parou. Ela virou-se, o rosto perdendo a cor.
Os olhos se encontraram.
Os meninos pararam de comer, sentindo o perigo. Afonso viu com clareza — não eram apenas parecidos com ele. Eram idênticos.
Inês pulou, colocando-se entre ele e as crianças, os braços abertos em proteção.
— Senhor… — sussurrou.
Afonso avançou, o choque virando raiva. — O que é isto? — trovejou. — Quem são eles? Por que há estranhos na minha mesa?
As crianças choramingaram, agarrando-se a Inês.
— Eles não são estranhos — disse ela, a voz trêmula, mas firme. — E eu não roubei nada. Esse arroz ia para o lixo.
— Não me importa o arroz! — Afonso bateu a mão na mesa. — Importo-me com esta invasão. De quem são estas crianças?
— São meus sobrinhos — mentiu Inês, mas a voz falhou.
Afonso riu, amargo. — Então por que estão usando minhas roupas velhas?
Apontou para o tecido — uma camisa de seda que fora sua, descartada e reaproveitada.
— Eles só têm o que o senhor joga fora — chorou Inês. — O seu lixo os mantém vivos.
A verdade doeu mais do que ele esperava.
Afonso agarrou o pulso do menino mais corajoso. Inês tentou impedi-lo, mas ele segurou o garoto.
O menino não chorou. Apenas olhou para Afonso com os mesmos olhos azuis gelados.
O olhar de Afonso baixou.
No braço da criança, uma mancha de nascença em forma de folha.
A mesma que ele tinha.
Ele recuou, agarrando o próprio braço.
— Diga-me a verdade — sussurrou, rouco.
Inês baixou a cabeça.
O menino deu um passo e sorriu. — O senhor parece a foto.
— Que foto? — respirou Afonso.
— A que a Dona Inês nos mostra — disse o garoto. — Ela diz que o senhor nos ama.
— O senhor é nosso pai?
Os joelhos de Afonso fraquejaram.
— Sim — soluçou Inês. — Eles são seus filhos. Os bebês que disseram que morreram.
Cinco anos antes, ele enterrara quatro caixões vazios.
Inês mostrou-lhe um medalhão amassado — seu presente de casamento à esposa falecida.
Ele desmoronou.
Ela contou tudo. Como os encontrara abandonados. Como os escondera. Alimentara. Protegera.
Quando a mãe de Afonso chegou, seu pânico confirmou tudo. Confessou — apagara as crianças para proteger o nome da família.
Afonso expulsou-a para sempre.
A partir daquele dia, tudo mudou.
Banhou os filhos. Abraçou-os. Aprendeu seu riso. Inês ficou — não como empregada, mas como família.
O teste de DNA confirmou a verdade.
Um ano depois, a mansão ecoava alegria.
No aniversário daquele retorno antecipado, Inês serviu arroz amarelo de novo.
Afonso ergueu o copo.
— Isto — disse, suave — é a verdadeira riqueza.