Ninguém podia se aproximar dele sem sair machucado. Um cavalo selvagem, imponente e violento, estava condenado ao abate até que, do nada, apareceu uma menina sozinha, abandonada, invisível para todos. Mas o que ela fez deixou a vila inteira sem palavras, e o destino de ambos mudou para sempre.
“Vai embora daqui, pestinha!”, gritou o açougueiro, atirando um pano sujo que ela quase não desviou. Joana correu com o pedaço de pão nas mãos, sem olhar para trás. Seus pés descalços batiam nas pedras do beco enquanto as risadas dos adultos se perdiam entre os muros.
Ela não sabia que horas eram nem quanto tempo havia passado desde a última vez que comera. Só sabia uma coisa: não podia ficar muito tempo no mesmo lugar. Atravessou a praça central e se escondeu nos arbustos atrás dos estábulos do sítio. Ali, onde ninguém a via, encolheu-se com as pernas contra o peito.
O pão estava duro, mas não importava. Comeu devagar, observando os movimentos do outro lado da cerca. Tempestade estava agitado outra vez. O cavalo negro relinchava forte, batendo os cascos no chão. Era maior que os outros, mais escuro, mais selvagem. Toda vez que um homem tentava se aproximar, o animal se erguia, ameaçador.
Um deles tinha caído na semana anterior. Fraturou o braço. Desde então, ninguém mais entrava no cercado sem um pau. Joana via tudo. Sempre via. Dia após dia, do seu canto escondido, observava cada movimento do animal.
Ela admirava sua força, mas mais ainda aquele ar de solidão que parecia envolvê-lo. Não era raiva o que ele sentia, era outra coisa—medo, talvez, ou desconfiança, a mesma que ela havia aprendido a usar como escudo. Um portão batendo interrompeu seus pensamentos. Da casa do fundo saiu o senhor Joaquim, dono do sítio.
Caminhava com passos firmes, acompanhado por dois empregados. Um deles carregava uma pasta, o outro uma corda grossa. “Não podemos mais arriscar”, disse o senhor Joaquim sem levantar a voz. “Esse animal não serve. Está amaldiçoado ou simplesmente louco. Sacrificamos na segunda.” Joana sentiu um nó no estômago.
“Tem certeza, patrão?”, perguntou um dos peões. “Podíamos vendê-lo barato. Talvez alguém queira.” “E quem vai querer uma bomba-relógio com patas?”, resmungou o senhor Joaquim. “Está decidido.” Os homens se afastaram. Joana não se moveu. Não conseguia. Seus dedos se apertaram no tecido do vestido velho.
A palavra “sacrifício” ecoava em sua cabeça como um vento gelado. Tempestade permanecia agitado, batendo no chão com espuma no focinho e o olhar perdido no céu. Joana o observou por tanto tempo que seus olhos começaram a arder.
Então, sem pensar, levantou-se, sumiu nos arbustos e desapareceu.
Naquela noite, o sítio dormia. As luzes estavam apagadas, os peões roncavam na casa grande, e o vento agitava os galhos secos do eucalipto que vigiava o portão. Joana esperou até que tudo ficasse em silêncio. Então atravessou o terreiro e se esgueirou pelo buraco que conhecia na cerca. Não levava lanterna, não precisava.
A luz da lua era suficiente.
Tempestade a viu imediatamente. Relinchou. Moveu-se com força, os cascos batendo no chão. A menina parou a três metros dele, sem se aproximar mais. Não disse nada. Apenas se sentou, não fugiu, não estendeu a mão, não tentou tocá-lo—apenas baixou a cabeça e esperou.
O cavalo bufou forte, mas não se aproximou nem se afastou. Respirava rápido, nervoso, como se não entendesse o que aquela criaturazinha fazia ali. Ela ergueu devagar o olhar, e os olhares deles se cruzaram.
Minutos passaram, talvez horas. Então o animal virou-se, baixou a cabeça e deitou no chão, dando-lhe as costas. Joana não sorriu, não chorou, apenas ficou ali, respirando fundo.
Quando o céu começou a clarear, levantou-se devagar, saiu por onde entrou e desapareceu de novo entre os arbustos. Não disse nada, mas naquela noite algo mudou.
O sol mal havia nascido quando os primeiros raios iluminaram o cercado. Joana já não estava mais lá. Ninguém notou sua ausência. Ninguém sabia que ela tinha estado ali.
E, no entanto, algo parecia diferente.
Tempestade permanecia deitado num canto, com a cabeça baixa e os olhos semiabertos. Não se mexia como antes, não bufava, não chutava as cercas. Os homens do estábulo, acostumados com sua agressividade ao amanhecer, pararam para observá-lo desconfiados.
“O que ele tem?”, perguntou o capataz, coçando a barba. “Não sei, mas não gosto”, respondeu outro, apoiando um saco de aveia na carroça. “Está estranho, calmo, como se estivesse doente.”
O senhor Joaquim chegou pouco depois, com seu chapéu de aba larga e passo firme, como todas as manhãs. Vinha com a testa franzida e olhos cansados. Ao vê-lo, os homens se endireitaram, e um deles abriu o portão do cercado.
“Esse aí…”, murmurou o senhor Joaquim ao ver o cavalo deitado. “Amanheceu assim, patrão”, respondeu o capataz. “Quase não se moveu. Não quis nem o feno.” O senhor Joaquim franziu ainda mais a testa. Entrou no cercado com cautela, as mãos nos bolsos, o olhar fixo no animal.
Aproximou-se alguns passos. Tempestade levantou a cabeça ao ouvi-lo, mas não fez menção de se levantar. Apenas olhou. Suas orelhas não estavam para trás. Seus músculos, antes tensos como cordas, agora pareciam relaxados.
“Já cansou de brigar”, disse um dos peões da cerca. “Talvez tenha entendido.”
O senhor Joaquim balançou a cabeça. “Cavalos como esse não entendem. Só esperam a hora de soltar a fúria.” Ajoelhou-se, pegou um punhado de terra úmida e deixou escorrer entre os dedos. “Já tomei minha decisão”, acrescentou, levantando-se. “Esse animal tem que ir embora.”
Os homens não responderam. Todos sabiam o que “ir embora” significava.
“Chama o veterinário”, ordenou. “Quero que ele esteja presente. Sem erros. Que seja rápido.” O capataz assentiu em silêncio e saiu.
Naquele dia, os rumores se espalharam pelo sítio como vento seco. Alguns diziam que Tempestade estava enfeitiçado. Outros juram que era filho do demo. Ninguém lembrava de ter visto um animal tão bravo, tão forte e tão impossível de domar.
Tinham tentado de tudo. Trouxeram-no de um criadouro renomado, com pedigree e promessas de grandeza. Mas desde potro ele mostrou sinais de rebeldia. Não aceitou selas, nem freios, nem mãos humanas.
Os melhores domadores do Nordeste vieram e foram embora, humilhados, machucados, derrotados.
E, no entanto, naquela manhã, ele estava calmo.
Ninguém sabia por quê.
Ninguém, exceto uma menina escondida nos arbustos, que o observava como sempre fazia—com o rosto coberto de poeiraE quando todos já haviam perdido a esperança, foi a coragem silenciosa de Joana que provou que até os corações mais feridos podem aprender a confiar novamente.