**Diário de Tiago Melo**
Tinha dezassete anos e crescera a percorrer os corredores brilhantes de vidro do Hotel Melo Plaza, com aquela autoridade tranquila de quem é filho único de Augusto Melo. Os hóspedes admiravam-no. A afastavam-se quando ele passava. Fora criado para deslizar por halls de mármore e corredores de cobertura como se todo o edifício fosse uma extensão da sua casa. Mas naquela tarde fria na Avenida da Liberdade, tudo o que pensava saber sobre si mesmo parou abruptamente. Parou quando viu o rapaz encostado a um sinal de trânsito inclinado.
O rapaz vestia três camisas desconexas, uma sobre a outra, debaixo de um casaco azul-marinho desgastado. O cabelo escuro caía em caracóis desalinhados sobre a testa, empastado pelo tempo e pelo abandono. Mas não foi isso que fez Tiago parar no meio do passeio. O rosto do rapaz era como um reflexo que ele não se lembrava de ter projetado. O mesmo queixo anguloso, o mesmo nariz direito, os mesmos olhos verdes-claros. Até a expressão de choque era igual à sua.
O rapaz pestanejou enquanto Tiago ficava imóvel. O ruído de Lisboa agitava-se à sua volta: buzinas, vendedores a gritar, motores de autocarros. Mas a cidade pareceu desfocar-se num silêncio que se prolongou.
“Pareces-te comigo,” disse o rapaz, a voz rouca de noites ao relento.
O coração de Tiago batia forte. “Como te chamas?”
“Rafael. Rafael Neves.”
Neves. Tiago sentiu um aperto no peito. Era o apelido da sua mãe antes de casar com Augusto Melo. Ela morrera há sete anos, deixando para trás uma vida de segredos nunca ditos. Raramente falava do passado. Tiago lembrava-se dela a rir, a cozinhar, a cantarolar de manhã. Nunca a ouvira falar da família.
“Quantos anos tens?” perguntou Tiago.
“Dezassete,” respondeu Rafael. Os olhos dele pousaram no casaco bem-cortado de Tiago antes de voltarem ao seu rosto, como se temesse ser julgado. “Não estou a tentar enganar-te. Não é um golpe. Há muito que estou sozinho. Não tem sido fácil.”
Tiago engoliu em seco. Quanto mais olhava, mais o parecido se fixava na sua mente. “Sabes alguma coisa sobre os teus pais?”
Rafael mexeu-se, ajustando o cobertor em que estava sentado. “A minha mãe chamava-se Maria Neves. Morreu quando eu era pequeno. O homem com quem ela viveu depois não era o meu pai. Quando ele me expulsou no inverno passado, encontrei uma caixa velha com os documentos dela. Estava lá a minha certidão de nascimento. Não tinha nome do pai.” Pausou, hesitante. “Mas havia fotografias dela com dois bebés. Sempre pensei que um era eu. Agora acho que éramos eu e mais alguém.”
Um arrepio percorreu Tiago. Também se lembrava das fotos da mãe, guardadas num álbum floral que nunca deixava ninguém tocar. Dois bebés. Um nos braços dela. Outro num berço de hospital ao lado. Augusto dissera-lhe que um dos bebés morrera pouco depois de nascer. Era tudo o que Tiago sabia.
Rafael continuou, baixinho: “Falei com pessoas que trabalharam com ela. Num café perto do Marquês. Disseram que ela estivera grávida de gémeos antes de desaparecer de repente. Não souberam mais nada.”
O estômago de Tiago revirou. O pai nunca falara num gémeo abandonado. Nunca dera a entender dúvidas. Só mencionara uma tragédia que acontecera tão cedo que Tiago nem se lembrava.
“Conheces Augusto Melo?” perguntou Rafael, suave.
Tiago prendeu a respiração. “É o meu pai.”
O lampejo de medo e esperança no rosto de Rafael fez-lhe as pernas fraquejarem. O mundo pareceu inclinar-se, como se a cidade tivesse mudado de posição sem pedir licença.
Ficaram parados ali, dois rapazes com vidas separadas, feitas de circunstâncias opostas, a olharem um para o outro como se vissem um capítulo perdido das suas próprias histórias.
Por fim, Tiago disse: “Vem comigo.”
Guiou Rafael pelas portas giratórias do Melo Plaza. Os seguranças calaram-se, mas os olhares não disfarçaram o contraste entre os dois. Levou-o a um salão privado, com cadeiras de veludo e luz suave. Rafael sentou-se desconfortável, esfregando as mãos para as aquecer. Tiago pediu sopa, pão, chá e um cobertor limpo ao serviço de quartos. Rafael aceitou com gratidão hesitante.
Tiago observou-o a comer, um nó a apertar-lhe o peito. “Acho que temos de falar com o meu pai.”
Rafael abanou a cabeça, quase violento. “Se não me quis há dezassete anos, porque me quereria agora?”
Tiago olhou para as próprias mãos. “Não sei responder a isso. Mas ele tem de enfrentar isto.”
Trinta minutos depois, Augusto Melo entrou na sala com a energia de quem está habituado a controlar todas as situações. Parou a seco ao ver Rafael. A expressão dele tinha algo que Tiago nunca vira: não era raiva, não era aborrecimento. Era algo mais frágil. Quase medo.
“Tiago,” disse Augusto, devagar. “Explica-te.”
Tiago apontou para Rafael. “Diz que a mãe dele era Maria Neves.”
O rosto de Augusto mudou, apesar de tentar disfarçar. “O que queres de mim?” perguntou a Rafael.
“A verdade,” respondeu Rafael, firme.
Augusto suspirou. As mãos tremiam-lhe ligeiramente.
“A tua mãe e eu estivemos juntos pouco tempo. Ela disse-me que esperava um filho. Depois desapareceu. Anos mais tarde, contactou-me a pedir ajuda. Tinha dois bebés. Insistiu que ambos eram meus. Marquei um teste de paternidade. Antes de o fazermos, ela desapareceu outra vez. Depois de ela morrer, tentei encontrar as crianças. Só havia registo de adoção para uma: o Tiago. A agência disse que não havia conhecimento de um segundo bebé. Pensei que ela inventara a história.”
Rafael anuiu, rígido. “Ela não mentiu. Eu é que fiquei de fora do sistema.”
Cada palavra doía em Tiago. A sua vida, sempre estável e planeada, de repente parecia frágil.
“Isto tem solução,” disse Tiago, suavemente.
Augusto olhou para ambos com uma expressão indecifrável. “Se és meu filho, assumirei a responsabilidade.”
“Palavras não chegam,” respondeu Rafael.
“Então faremos o teste,” disse Augusto.
Cinco dias depois, os resultados chegaram. Tiago rasgou o envelope no escritório do pai. A cidade estendia-se numa neblina invernal atrás deles. Rafael permanecia imóvel junto à janela. Augusto estava sentado à beira da secretária, tenso.
Tiago leu em voz baixa: “Probabilidade de paternidade: noventa e nove vírgula noventa e sete por cento.”
Rafael fechou os olhos, a respiração cortada. Augusto afundou-se na cadeira.
“Peço desculpa,” sussurrou Augusto. “Falhei-vos aos dois.”
Rafael não respondeu logo. O rosto dele oscilou entre dor, alívio, ressentimento e um cansaço profundo. “E agora?”
Augusto juntou as mãos. “Se aceitares, quero ajudar-te. Casa, escola, o que precisares. E quero queE, naquele momento, enquanto os três se encaravam no silêncio pesado do escritório, perceberam que, apesar de tudo, ainda havia tempo para reconstruir os pedaços quebrados de uma família que nunca soube estar inteira.